“Algumas histórias começam como brincadeira…até alguém começar a sentir de verdade.”
O problema não era o almoço.
Era o que Clara estava prestes a perguntar.
O restaurante estava movimentado, o som baixo de conversas e talheres criava um pano de fundo confortável para o tipo de assunto que Clara claramente estava decidida a puxar.
Ela não esperou nem o garçom se afastar.
— Agora você vai falar — disse, apoiando os cotovelos na mesa, inclinando o corpo para frente com um sorriso afiado e absolutamente sem vergonha — porque eu me recuso a aceitar que você foi naquele evento chique, usando aquele vestido sensual e não rolou absolutamente nada.
Dayse pegou o copo de água e bebeu devagar. Tentando claramente pensar numa resposta que bastasse para a amiga.
Marina já estava olhando de uma para a outra, antecipando problemas e visivelmente curiosa.
— Clara… — começou Dayse, tentando manter o tom neutro.
— Não, sem “Clara” — interrompeu imediatamente, apontando o dedo na direção dela — eu quero detalhes. Eu mereço detalhes. Eu sobrevivi a uma manhã inteira de silêncio, apenas para poder ouvir os detalhes picantes do evento.
Dayse desviou o olhar por um segundo pensando e isso foi o seu erro. Porque Clara percebeu na hora que alguma coisa tinha rolado.
— Teve alguma coisa — disse, baixando o tom, agora ainda mais interessada — eu sabia.
Marina arregalou levemente os olhos, já tensa.
— Dayse…?
Ela hesitou por um segundo, ou dois. E então soltou, quase como quem quer encerrar logo:
— A gente… se pegou.
Por uns segundos o silêncio tomou conta da mesa, deixando Dayse tensa.
E então…
— VOCÊ O QUÊ? — Clara praticamente se levantou da cadeira, a encarando com o rosto iluminado por uma empolgação completamente descontrolada — EU SABIA!
Algumas pessoas ao redor olharam.
Marina imediatamente puxou Clara de volta pela manga.
— Clara, pelo amor de Deus, controla a voz!
Mas já era tarde.
— Onde? — Clara continuou, agora mais baixa, mas ainda vibrando — me diz que não foi só um beijinho sem graça.
Dayse passou a mão pelo cabelo, visivelmente incomodada.
— Foi no banheiro do hotel.
Clara arregalou os olhos.
— Não acredito…
Marina levou a mão à boca, surpresa de verdade.
— Vocês… — começou, hesitando — vocês ficaram… no banheiro?
— Que ficaram Marina, Dayse está lá com cara de que “ficou” no banheiro com aquele Deus grego? Ela deve ter transado gostoso com ele ou ele fez ela ver estrelas gozando…
Dayse arregalou os olhos corando e respondeu gaguejando.
— Na-Não foi nada demais.
Clara deixou escapar uma risada incrédula.
— Nada demais? — repetiu, inclinando-se ainda mais para frente — Como assim aquele homem gostoso te leva para o banheiro e você não faz nada? Dayse pelo amor de Deus, você só pode ter caído do berço quando era um bebê.
Marina, agora claramente corada, tentou manter o mínimo de controle.
— Clara, chega…
— Marina, fala sério, até você que sempre foi a mais quietinha do grupo teria caído de boca naquele pau enorme. — Marina arregalou os olhos e abriu a boca mas não conseguiu dizer nenhuma palavra — Melhor você contar logo o que aconteceu ou vou começar a achar que o todo poderoso é gay.
— E-ele não é gay… está bem longe disso. — sussurrou baixinho na esperança de que nenhuma das duas ouvisse, mas era tarde demais, porque as duas escutaram muito bem.
Clara levou a mão ao peito, teatral.
— Meu Deus… — murmurou, com um sorriso lento se formando — eu não acredito nisso.
— Clara… — Marina insistiu, constrangida, mas visivelmente curiosa também.
— O quê? Eu estou feliz pela minha amiga! — respondeu, olhando de volta para Dayse — e um pouco com inveja, não vou mentir. Agora conta, faz suas amigas felizes.
Dayse suspirou, derrotada.
— Foi… intenso — disse por fim, mais baixa — mas não passou disso.
Clara fechou os olhos por um segundo, como se estivesse absorvendo a informação.
— Intenso… — repetiu, quase saboreando a palavra. — Então ele te masturbou no banheiro de um hotel, durante um evento bilionário, te fez gozar e você chama isso de intenso?
Dayse se calou imediatamente. Clara sorriu compreendendo finalmente e continuou:
— Meu Deus, ele te fez gozar sua safada. Agora me conta, foi com a boca ou com os dedos? Porque com o pau eu sei que não foi.
Porque, pela primeira vez, não era só sobre desejo ou impulso. Era sobre algo mais perigoso. Algo que começava a se formar sem pedir permissão.
E foi esse pensamento que a fez engolir seco.
Porque, se o coração já estivesse entrando naquele jogo, então ela estava em um território muito mais arriscado do que imaginava.
Dayse conhecia Edward Fitzgerald o suficiente para saber que ele não era um homem para se apaixonar. Mas também sabia, com uma lucidez incômoda, que o coração, aquele músculo teimoso que insistia em bater dentro do peito, não seguia regras, não respeitava acordos e, na maioria das vezes… não era inteligente o bastante para recuar quando deveria.
Suspirou fundo e decidiu mudar de assunto.
— Marina… — chamou, depois de alguns segundos, desviando os olhos para a amiga.
— Oi?
— Você pode ficar no meu apartamento esse final de semana?
— Posso, claro — respondeu, sem hesitar, mas inclinando levemente a cabeça, analisando — aconteceu alguma coisa?
Dayse balançou a cabeça de leve, como se aquilo não fosse importante o suficiente para se transformar em assunto.
— Eu fiz uma compra, deve chegar no sábado, e não estava nos meus planos… viajar.
— Tudo bem — respondeu por fim — eu fico.
— Obrigada.
Clara soltou uma risada baixa, se jogando na cadeira com um ar teatral.
— Ainda bem que você pediu a Marina porque euzinha não poderia te ajudar.
Dayse fechou os olhos por um segundo respirando fundo.
— Clara…
— O quê? — rebateu, abrindo os braços — você queria que eu dissesse o quê? Que eu vou passar o fim de semana assistindo série e comendo pizza enquanto você provavelmente vai estar em algum lugar caro, sendo mimada e… — ela fez uma pausa proposital, inclinando o corpo para frente novamente, o olhar brilhando — muito bem servida?
— Você não tem filtro nenhum — murmurou Marina, balançando a cabeça.
— Eu tenho filtro — respondeu Clara imediatamente — eu só escolho não usar quando a situação merece.
E então, cruzando as pernas com elegância exagerada, completou com um sorriso enviesado:
— Mas tudo bem, já que eu não tive a sorte de encontrar um bilionário rico, gostoso e disposto a brincar de casinha comigo, vou procurar algo mais interessante pra fazer no final de semana… talvez alguém menos milionário, mas igualmente útil.
Dayse desviou o olhar, mas não conseguiu evitar o leve sorriso que surgiu. E foi nesse pequeno detalhe que Marina percebeu.
Porque, por trás de toda tentativa de controle, alguma coisa já tinha mudado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Da Cama Para o Altar: Um contrato com o meu Chefe