“Nem toda surpresa vem para desestabilizar… algumas chegam exatamente para colocar tudo no lugar certo, mesmo que você ainda não perceba.”
Em Manhattan…
Marina não esperava ninguém, e por isso o som da campainha pareceu mais alto do que deveria, quebrando o silêncio do apartamento desde que Dayse tinha viajado e lembrando, de forma incômoda, que estar sozinha nem sempre era escolha.
Ela ergueu o olhar devagar, ainda com o celular na mão, enquanto uma inquietação estranha tomava conta, rápida demais para se transformar em pensamento, mas suficiente para fazê-la levantar sem saber exatamente por quê.
Por um momento hesitou em abrir, mas pensou que talvez pudesse ser um vizinho, ou algum recado para a amiga. Depositou o celular na mesa de cabeceira e se levantou do sofá caminhando em direção a porta.
— Só um minuto.
Abriu a porta e paralisou ao ver quem estava do outro lado da porta.
Daniel Whitmore.
Marina sempre achou o irmão da amiga, lindo de morrer. Mas nunca nem sequer pensou que um dia o conheceria pessoalmente, mas parece que o destino estava pregando uma peça na sua vida. Uma peça deliciosamente tentadora por sinal.
O silêncio se estendeu mais do que deveria, ele a observava com atenção e ela sentia o coração acelerar e o rosto esquentar antes mesmo de conseguir reagir.
O seu crush dos sonhos estava ali, diante dela e ela não sabia o que fazer.
Daniel foi o primeiro a quebrar o silêncio, inclinando levemente a cabeça enquanto um sorriso discreto surgia no canto da boca, natural o suficiente para não parecer forçado, mas presente o bastante para mudar o clima entre eles.
— Oi…
Marina piscou uma vez, como se aquilo fosse suficiente para trazê-la de volta, e respondeu, ainda com a voz um pouco mais baixa do que pretendia:
— Oi…
Ela precisou de um segundo para reorganizar os próprios pensamentos antes de continuar, apoiando a mão na porta como se aquele gesto fosse ajudá-la a manter algum controle sobre a situação.
— A Dayse viajou… — explicou, com um tom mais firme dessa vez — e pediu pra eu ficar aqui.
Daniel assentiu devagar, absorvendo a informação com calma, enquanto levava a mão à nuca num gesto automático que denunciava que ele também estava ajustando as expectativas que tinha ao chegar ali.
— Entendi… — murmurou — eu vim passar o fim de semana com ela.
— Eu acho que ela…
— Não, não. Ela não sabia, eu quis fazer uma surpresa, entende?
O silêncio que veio depois foi breve, mas estranho o suficiente para exigir uma reação, e Daniel já parecia prestes a recuar, desviando o olhar como se considerasse ir embora sem insistir.
Marina percebeu.
E falou antes que ele pudesse.
— Você pode ficar.
A frase saiu mais direta do que ela pretendia, e, ao perceber isso, respirou fundo antes de completar, agora com mais cuidado:
— Quer dizer… se quiser.
Ele voltou o olhar para ela imediatamente, avaliando, e um riso baixo escapou, leve, surpreso, quase divertido pela naturalidade inesperada daquele convite.
— Tem certeza?
Dessa vez, Marina sustentou o olhar sem vacilar.
— Tenho.
E, depois de um segundo que pareceu medir algo além das palavras, ele entrou.
A porta se fechou atrás dele com um clique suave. E o silêncio que ficou já não era mais o mesmo.
A noite seguiu tranquila, sem pressa, com a conversa fluindo de forma leve entre assuntos simples e risadas baixas, enquanto o apartamento deixava de ser silencioso demais e se tornava um espaço mais vivo e confortável do que Marina queria admitir.
Daniel se acomodou melhor no sofá, apoiando o braço no encosto enquanto girava o copo entre os dedos, observando Marina com um interesse que não era invasivo, mas também não passava despercebido.
— Engraçado… — comentou, inclinando levemente a cabeça — você é diferente de todas as amigas da Dayse que eu conheci.
Marina arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços com um meio sorriso.
— Isso é bom ou ruim?
Ele soltou uma risada baixa.
— Bom, muito bom… — respondeu, olhando para ela com mais atenção — as outras são meio malucas… e atrevidas demais.
Marina corou e não disse mais nada.
Daniel apoiou o cotovelo no joelho, inclinando o corpo um pouco mais para frente.
— Quer uma história engraçada sobre ela?
Os olhos de Marina brilharam na mesma hora.

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