Cap.71
Flash back
O dia em que tudo acabou
A discussão começou como tantas outras. A voz dele ecoava pela casa, alta, agressiva, cuspindo ofensas, enquanto Talyta se encolhia em um canto com medo. Mas, dessa vez, passou dos limites. Ele estava mais irritado que o comum, desde que Talyta mostrou as novas receitas e os tratamentos que o pequeno Leone teria que fazer. Quando pensou no valor que teria que gastar e em como teria que trabalhar para criar aquele menino, parecia que tudo havia perdido o valor — principalmente a própria família.
— Esse menino é um peso morto! — gritou, com os olhos cheios de fúria, tentando arrancar o pequeno Leone dos braços de Talyta, que lutava para protegê-lo com seu corpo, sem poder fazer nada além disso.
O bebê, frágil e doente, chorava convulsivamente, e Talyta só ansiava por um milagre, que ao menos o pequeno Leone não se machucasse. Segurava também o filho mais velho, de três anos, que chorava em desespero.
— Não! Você não vai encostar nele! — ela gritou, os olhos cheios de lágrimas, o coração disparado. — Ele é seu filho… por que está fazendo isso?
Mas o homem riu com desprezo, os dentes trincados, o rosto deformado pela raiva.
— Filho? Ele é uma pedra no meu caminho! Você e essa criança doente só existem para me afundar!
Num movimento rápido, ele a empurrou contra a parede e, antes que pudesse reagir, a mão dele desceu forte contra o rosto dela. O impacto a fez cambalear, mas ela não largou os filhos. Protegia-os como uma leoa ferida.
Ele resfolegou, os olhos vermelhos de ódio, e então se afastou, caminhando até o quarto. Talyta, tremendo, encostou as crianças no canto, tentando acalmá-las, mas a curiosidade e o instinto de sobrevivência a fizeram se aproximar da porta semiaberta.
Do outro lado, ouviu a voz dele, rouca, nervosa:
— Eu preciso de uma arma. Hoje eu acabo com toda essa merda. Hoje eu me livro desse fardo e sigo a minha vida sozinho.
O sangue de Talyta gelou. Um grito sufocado escapou de sua garganta. Ela correu para a porta, tentando abri-la, mas, antes que pudesse escapar, sentiu o puxão violento em seus cabelos.
— Você não aprende, né? — ele sussurrou com um sorriso frio.
O puxão foi tão forte que ela caiu no chão. Ele a arrastou pelos cabelos, a cabeça batendo contra o piso, até que a dor se tornou insuportável e a visão escureceu.
A última coisa que viu, antes de apagar, foi o sorriso cínico dele.
— Eu volto. E quando voltar… acabo com você e com essa criança doente. Não vou carregar vocês nas minhas costas. Nunca mais.
E então, o som seco da porta sendo trancada.
O despertar
Talyta acordou horas depois, a boca seca, o corpo dolorido. A primeira coisa que viu foi o filho de três anos, segurando Leone nos braços pequenos, tentando acalmar o choro do bebê.
O menino estava desesperado, as lágrimas escorrendo em silêncio, mas não queria soltar o irmão.
— Mamãe… — a vozinha trêmula a quebrou por dentro. — Ele tá com fome…
O pânico voltou de uma vez. As palavras do marido ecoavam como facas:
"Acabar com esse fardo. Acabar com essa criança doente."
Ela correu até a porta, tentou a maçaneta. Nada. Chutou, bateu com os punhos, gritou:
— SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA! POR FAVOR!
Sua voz ecoava pela casa, mas parecia morrer no vazio das paredes. O bebê chorava, o mais velho soluçava, e ela, em desespero, tentou janela, tentou arrastar móveis, mas tudo estava trancado. A cada segundo, temia o som da chave na porta, o retorno dele com a arma.
A noite caiu, e o silêncio era sufocante. Ela escondeu os filhos embaixo da cama, abraçando-os, tentando proteger com o próprio corpo. Os olhos não fechavam, o coração não descansava. Mas ele não voltou.
O segundo dia amanheceu, mas o terror não diminuía. A fome apertava, os filhos choravam de fome, enquanto ela tentava se virar com o que encontrava. Fraca, continuava tentando encontrar uma saída. Mas a chave… a chave não existia.
Na terceira noite, já sem forças, só conseguiu se encolher com os filhos nos braços, orando em silêncio para que ele nunca mais aparecesse.
O resgate
Na manhã do terceiro dia, o som de batidas fortes na porta a fez gelar.
Ele voltou.
O coração disparou. Ela correu com os filhos, escondendo-os atrás do armário, abraçando-os, chorando em silêncio.
— Talyta! — a voz do lado de fora era conhecida. — Filha! Talyta, pelo amor de Deus, você está aí?
Os olhos dela se arregalaram.
— Mãe? — sua voz saiu rouca, quebrada.
— Sou eu, filha! Sou eu! Eu trouxe ajuda, a polícia está aqui! Abre a porta, por favor!
Ela correu, ainda com medo, mas não conseguiu abrir.
— Está trancada! — gritou em desespero.
— Calma, filha, calma. — a voz da mãe tentava acalmá-la. — Nós vamos tirar você daí. Aguenta firme.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Esposa impostora e o Magnata Sombrio.