Sara Lemos
Eu sempre fui a excluída da família. E hoje, no grande dia do casamento da minha irmã mais velha, Raquel, isso não seria diferente. Enquanto os empregados corriam pelos corredores, finalizando os últimos detalhes da recepção pós-cerimônia, eu permanecia aqui, esquecida. Invisível, como sempre fui.
Raquel era linda, idolatrada pelos meus pais desde pequena, e agora iria se casar com um dos homens mais ricos do país. Já eu… era o oposto. Sempre fui alvo de humilhações, chamada de patinha feia devido às lentes grossas de meus óculos, resultado da minha miopia severa. Como se ver o mundo embaçado fosse motivo suficiente para não merecer amor, atenção ou respeito.
— Pare de ficar aí parada como uma estátua e vá ver se sua irmã precisa de alguma coisa! — gritou minha mãe no meu ouvido, enquanto passava por mim apressada, usando um vestido tão elegante que provavelmente custava mais do que tudo que eu já tive na vida.
— Duvido que a Raquel vá precisar de mim — respondi, sabendo bem que ela nunca gostou da minha presença. Sempre fez questão de dizer a todos que era filha única, só para não ter que me apresentar aos amigos.
— Não venha bancar a coitada agora, Sara. Não estrague o dia da sua irmã com esse seu vitimismo. Vá agora mesmo e pergunte se ela precisa de ajuda!
— Tudo bem — murmurei, já sabendo que protestar seria inútil.
Caminhei pelo corredor e, ao chegar à porta do quarto da minha irmã, bati antes de abrir.
— Raquel? — chamei, mas não ouvi nenhuma resposta.
Entrei devagar, em silêncio, e fui até o closet. Lá estava ela, sentada no chão, usando uma lingerie branca, com o celular nas mãos, digitando algo com tanta concentração que nem me notou. No entanto, quando me viu, levou um susto e se levantou num pulo.
— Patinha feia! Como ousa entrar no meu quarto sem bater?
— Mas eu bati — respondi, sem me alterar.
— O que está fazendo aqui? Quem te chamou? — disse com a voz cortante.
— A mamãe mandou eu vir perguntar se você precisa de ajuda.
Ela soltou um riso irônico.
— Por que eu aceitaria ajuda de uma inútil como você? — murmurou, voltando a olhar para o celular, que apitou com uma nova notificação.
Ela encarou a tela e suspirou, visivelmente cansada. Parecia travar um dilema interno. Por um instante, me deu vontade de perguntar o que estava acontecendo. Mas eu sabia que ela jamais me responderia.
Enquanto Raquel voltava a digitar, não pude deixar de reparar, mais uma vez, em como seu corpo parecia perfeito. Pernas longas e torneadas, cintura fina, seios fartos e um rosto angelical que, com certeza, encantou Renato Salles, o poderoso dono da AgroSalles Global. Eles namoraram por um ano e meio, e no mês passado ele a pediu em casamento. Já que Renato iria se mudar em breve e queria levá-la como esposa.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Esposa substituta: Prometo te odiar!