Não era surpresa para ela o que estava acontecendo. Sempre foi tratada com indiferença pelos pais e, pelo visto, nada mudaria aquilo.
Sara respirou fundo antes de perguntar, querendo medir até onde a frieza de Sérgio teria o poder de ir:
— O senhor vai mesmo me mandar embora… sabendo que eu não tenho para onde ir?
Ele ergueu o queixo, impassível.
— O que quer que eu faça? — retrucou. — Que tenha pena de você? Você acabou de dizer que não se importa com a nossa família e ainda espera que eu a mantenha aqui depois de tudo?
Soltando um sorriso amargo, ela declarou:
— É incrível como a sua balança só pesa para o meu lado — disse. — A Raquel começou todo esse inferno e nunca foi punida, nunca foi colocada para fora.
Uma lágrima solitária escorreu de um de seus olhos.
— Já eu… que fui empurrada para dentro desse jogo… acabei virando a culpada de tudo.
— Independentemente do que a Raquel fez, foi ela quem nos ajudou desde o início com o Renato.
O olhar dele ficou ainda mais duro.
— Minha filha pode até ter cometido erros, mas sempre se mostrou preocupada com a nossa situação financeira. Então, sim… — afirmou, sem o menor remorso — eu nunca viraria as costas para ela.
Sara sentiu o peito apertar.
— Porque eu sei — ele concluiu — que, mais cedo ou mais tarde, ela vai dar um jeito de nos ajudar novamente.
Não poderia haver mensagem mais clara do que aquela. Sara apenas assentiu, em silêncio. Então se virou e caminhou em direção à mesma porta por onde havia entrado minutos antes.
Não carregava nada.
Nem mesmo a roupa que vestia era realmente sua. Seus documentos, suas coisas pessoais… tudo havia ficado na casa de Renato. Até o celular, onde mantinha a conta bancária com uma pequena quantia de dinheiro, permaneceu lá.
Ela saiu de mãos vazias.
Quando atravessou o portão, um vento frio atingiu seu rosto com força. O céu começava a escurecer, e os primeiros pingos de chuva caíam, tímidos, mas insistentes. Aquele era, sem dúvida, o pior dia da sua vida e, para qualquer lado que olhasse, não havia saída.
Estava sozinha no mundo, sem casa, sem apoio, sem sequer um teto onde pudesse repousar a cabeça.
Ela olhou para a direita, depois para a esquerda. Tentou decidir para onde ir. Mas, no fundo… não fazia diferença. Porque, independentemente do caminho escolhido, nenhum parecia capaz de levá-la a lugar algum.
Sem saber para onde ir, começou a caminhar sem destino. Sem pressa. Sem forças para pensar direito.
A chuva, que antes caía tímida, logo engrossou, transformando-se em uma cortina pesada que encharcava tudo pelo caminho. Em poucos minutos, seus cabelos já estavam molhados, a roupa grudando na pele, o frio começando a se infiltrar pelos ossos.
Ela abraçou os próprios braços, tentando se aquecer, foi então que avistou um ponto de ônibus coberto mais adiante. Caminhou até lá e se sentou no banco de concreto, exausta, deixando a chuva bater forte do lado de fora enquanto o mundo seguia indiferente ao seu redor.
As horas passaram e ela permaneceu ali, imóvel, imersa na própria dor. Mais uma vez, a imagem de Renato invadiu sua mente. As palavras dele nos últimos dias, as promessas. O jeito como ele dizia que queria tentar… que queria fazer aquilo entre eles dar certo.
Um soluço escapou.

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