A fazenda tinha aquele silêncio bucólico que só o interior do Brasil produzia. Não era exatamente a ausência de som, mas camadas de som completamente diferente do que eu estava acostumada. Grilos. Vento nas árvores. O barulho distante das galinhas que o Dito cuidava com dedicação. Nada de motor, nada de buzina, aviões, nada de cidade acontecendo ao fundo.
Tínhamos pousado num campo aberto da propriedade. O Dito estava lá esperando com um veículo adaptado — Eduardo tinha ligado antes para organizar tudo. A Dona Conceição apareceu na porta da fazenda quando nos aproximamos, limpando as mãos no avental com aquele movimento de quem estava no meio de algo mas parou tudo porque o que estava chegando era mais importante.
Arthur foi transportado para dentro com o cuidado de procedimento que Thomas e o Dito coordenaram juntos, cada um sabendo o que precisava fazer sem precisar de muita palavra. Eu fui atrás, ainda com as luvas manchadas nas mãos — tinha esquecido de tirá-las, ou talvez não tivesse conseguido decidir tirá-las, não sabia dizer qual das duas.
Enquanto eles organizavam tudo, tomei um banho rápido, me troquei e quando me dei conta, dona Conceição me colocou uma xícara de chá na mão sem perguntar.
Fiquei sentada em uma poltrona ao lado da cama de Arthur por não sabia quanto tempo, com o chá esquentando as mãos e a cabeça tentando montar as últimas horas em alguma ordem que fizesse sentido. Não estava conseguindo.
Thomas apareceu na porta e veio sentar-se ao meu lado, recostando-se e olhando pela janela com uma calma de quem também está processando mas não vai dizer isso em voz alta.
— Acha que estamos seguros aqui? — Finalmente perguntei.
— É como te disse. A Leonora não tem como ter olhos em todos os lugares.
— Mas ela tem aliados.
— Nós também. — Ele disse, sem tirar os olhos da paisagem lá fora. — Por enquanto ela nem se lembra que a fazenda existe. Uma mulher como ela, que passou as últimas décadas na Europa? Certamente quer ficar longe de uma propriedade com galinhas e chão batido.
Soltei uma risadinha curta, porque aquilo realmente fazia sentido.
— Além disso, o Eduardo está na mansão.
— Achei que ele viria mais tarde. Por causa do Arthur.
— Conversamos antes de decidir. Era a melhor opção que ele ficasse de olho no hospital, na mansão, na Leonora. Eu não teria tanto acesso a ela de lá. De onde ele está pode nos avisar caso ela resolva agir de alguma forma que não estamos esperando.
— E ela vai. — Disse, com a certeza de quem conheceu gente como a Leonora o suficiente para saber. — Não vai ficar quieta quando descobrir que o Arthur não está mais no hospital.

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