~ Dois anos depois ~
Estávamos todos sentados em uma mesa de café da manhã no Hotel Milani Londres.
Thomas e a Júlia — que sim, finalmente tinham se assumido depois de um bom tempo saindo juntos, mas fingindo que nos enganavam ao negar. A Geórgia, que tinha aproveitado as férias da faculdade de medicina que ela tinha finalmente começado um semestre atrás, depois de ser a ovelha desgarrada da família e ter insistido em três outros cursos antes de chegar lá.
— Acontece que eu realmente descobri que gosto de medicina. — Ela explicava para qualquer um que perguntasse. — Eu não queria fazer só porque a família é toda de médico, sabe? Então precisei fazer engenharia, direito e cinema antes, para ter certeza.
O que sempre fazia a gente rir, porque se a Geórgia não tinha habilidade nenhuma para engenharia ou direito, tinha ainda menos para cinema. Mas ela não saiu desse último curso de mãos abanando, estava namorando um cara que tinha o maior estilo roqueiro clássico, para o qual a Claire torcia o nariz, mas não falava nada, porque tinha aprendido a respeitar as escolhas dos filhos.
Quero dizer, ela não falava quase nada.
— Ele podia pelo menos cortar aquele cabelo — ela tinha comentado certa vez, enquanto a gente observava pela janela da sala a Geórgia subir na garupa da moto dele. — E trocar a moto por um carro.
Eu só ri. Mas sabia que a relação da Claire com os filhos tinha melhorado muito nos últimos dois anos. Assim como a relação dela com o Eduardo. Eu não era íntima dela o suficiente para ouvir confissões, mas conseguia ver no jeito que o brilho nos olhos dos dois tinha voltado quando se olhavam, e em como a voz ficava mais suave quando falavam um com o outro.
Também estavam viajando conosco a Alícia e o Samuel. O Samuel tinha entrado para a faculdade de medicina e estava realizando o sonho que tinha carregado por anos. Já a Alícia e eu, para ser honesta, tínhamos nos tornado inseparáveis. Ela insistia em dizer que era só porque era a madrinha da Liz e queria estar presente nas primeiras fases da infância dela. Mas secretamente ela sabia, e eu sabia, que era tão minha melhor amiga quanto eu era dela.
— Então, hoje a Liz fica com a gente. — A Alícia estava com a minha filha no colo, brincando, enquanto a Liz estendia a mãozinha toda curiosa em direção ao copo de café do Samuel. — Sabe aonde a gente vai? Na loja da Lego.
— Alícia, eu juro que se você deixar minha filha colocar um Lego na boca, eu...
— Foi só uma vez! — Ela se defendeu, erguendo a mão que estava livre. — Eu vi a tempo e nós duas aprendemos a lição! Não é Lili?
— Ééé... — Liz balbuciou, mesmo sem provavelmente entender nada, mas achando muita graça de tudo.
— E vocês? — O Thomas perguntou para mim e para o Arthur. — O que vão aproveitar para fazer no dia de folga?
Dia de folga.
Era a primeira vez durante toda a viagem que a Liz não estaria comigo e com o Arthur. E por mais que eu amasse minha filha e não conseguisse ficar longe dela com facilidade, essa era a nossa lua de mel. Sim, nossa lua de mel depois de mais de dois anos planejando e encontrando impedimentos. Primeiro o dia trágico que se seguiu ao nosso casamento, depois tudo o que passamos com a Leonora e a Genevieve, depois a Liz era pequena demais, depois as crises no hospital que superamos uma a uma. E agora, finalmente, lua de mel. Com criança pequena e um grupo de amigos entrões que resolveram aproveitar a viagem junto, sim. Mas hoje íamos ter o dia só para nós.
— Pensamos em dar uma volta em Notting Hill e depois... quem sabe?
— A gente sabe. — A Alícia comentou, e a mesa riu.
Fomos até Notting Hill, e passamos a manhã olhando antiguidades em lojinhas e barraquinhas, tirando fotos em frente às casinhas coloridas que eu tinha visto em filmes mas nunca imaginei que ia ver de verdade, e passeando de mãos dadas pelas ruas sem pressa. Porque era isso que éramos agora, um casal que não precisava mais passar cada segundo esperando de onde viria o próximo problema.
Em determinado momento da manhã, Arthur parou em uma banca de discos de vinil e começou a passar os dedos devagar pelos discos enfileirados, sem objetivo específico, apenas como quem está procurando sem saber o que vai encontrar.
— Amor, olha isso — ele puxou um disco da pilha e virou para mim. — Almost Blue. Original de 1988.
— Céus. — Peguei nas mãos e examinei a capa. Estava em ótimo estado, sem arranhões visíveis, a capa firme, o vinil com aquele brilho de coisa preservada. — É um achado.

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