— Thomas, você não entende. Eu nunca fiz isso. Nunca. Não sou a pessoa certa para isso.
— Bom. — Ele me olhou com aquela calma que eu não entendia como era possível naquele momento. — Então vai ser sua primeira vez. Todo mundo tem que passar por isso, Zara. E é a sua vez.
— Não com o Arthur!
— Ou você faz, ou ele morre. — A voz saiu firme, sem crueldade, só com a objetividade de quem está enunciando um fato. — Eu não consigo. O Rafael não consegue. Tem que ser você.
— Não, não, não... — Comecei a sacudir a cabeça, sentindo o pânico subindo de uma forma que eu reconhecia como improdutiva, mas que não conseguia parar.
— Zara. — Thomas falou com uma calma que eu sabia que ele estava construindo ativamente, porque a urgência dos monitores era a mesma que eu estava ouvindo e ele não estava alheio a ela. — Escuta. Eu estou aqui do seu lado. Vou te guiar passo a passo. Vai dar certo. Você já viu esse procedimento sendo feito antes.
Parei de sacudir a cabeça.
— Sim. Já vi. — Respirei. — E sei que não é simples. Ainda mais num helicóptero em movimento.
Ele olhou para o Arthur. Olhou para os monitores, que continuavam com aquela insistência que não esperava. Voltou para mim.
— Pega o bisturi.
Peguei.
Thomas alcançou o kit de emergência com a mão esquerda e me passou as luvas e o álcool gel sem precisar que eu pedisse. Higienizei as mãos lentamente, o gesto mecânico ajudando a cabeça a entrar num modo que eu precisava que entrasse. Modo de procedimento. Modo de estudante que viu isso sendo feito e agora ia fazer.
Modo de não pensar que era o Arthur.
— Quinto espaço intercostal, linha axilar média. — A voz do Thomas chegou baixa e precisa, como se estivesse ditando. — Você vai palpar as costelas para encontrar o espaço certo. Dois dedos abaixo da axila, lado esquerdo.
Minha mão foi até o tórax dele.
E por um segundo — só um segundo — tive que me forçar a não pensar em todas as vezes que tinha tocado naquele tórax de outras formas. Que tinha ouvido o coração dele batendo quando estava com a cabeça apoiada ali. Que tinha sentido ele respirar enquanto dormia. Tinha que ser o tórax de um paciente agora, não o do Arthur. Era a única forma de fazer aquilo com as mãos suficientemente firmes para que funcionasse.
As luvas não eliminavam o tremor, só o tornavam mais visível — eu conseguia ver os dedos vibrando levemente enquanto palpava, procurando o espaço certo entre as costelas. O helicóptero balançou levemente e pressionei a mão livre contra a lateral da maca para me estabilizar, usando o peso do próprio corpo como âncora.
— Encontrou?
— Sim.
— Bisturi. Incisão horizontal, dois centímetros. Firme, mas controlada. Não é uma facada, é uma incisão.
Dois centímetros. Firme. Controlada.


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