Eu só saí do quarto porque sabia que se ficasse mais um minuto ali ia enlouquecer.
Fui até a cozinha. A Dona Conceição já estava lá, claro — a Dona Conceição estava sempre lá, como se a cozinha daquela fazenda fosse uma extensão natural do seu corpo. Me passou um café sem perguntar, do jeito que ela fazia tudo, com eficiência de quem cuida sem fazer cerimônia.
Tomei em pé, olhando pela janela para o quintal que ia acordando com o dia.
Depois fui até a horta. Não porque eu fosse útil lá. Mas havia algo no gesto físico, nas mãos na terra, no sol batendo nas costas, que fazia a cabeça desacelerar um pouco. Ou pelo menos ter outra coisa em que se concentrar além dos monitores e do rosto imóvel do Arthur.
O Dito apareceu com os baldes para alimentar os animais e eu fui atrás sem ser convidada, só para ter algo para fazer e alguém do lado. Ele não perguntou nada, não tentou me consolar, só foi andando e eu fui junto, e aquilo era exatamente o tipo de companhia que eu precisava naquele momento.
— Sabe que o doutor Arthur tinha medo de galinha quando pequeno? — Ele disse, depois de um tempo, com aquela voz de quem está contando uma história que conta há anos com prazer.
— Não! — Ri, genuinamente surpresa.
— É. O doutor Augusto, Deus o tenha, tinha uns livros sobre dinossauros e certa vez foi explicar para o menino sobre a evolução dos bichos. — O Dito sorriu, jogando o milho para as galinhas que vieram correndo. — Contou que as galinhas descendem dos dinossauros. Que um dia, há muitos milhões de anos, eram criaturas enormes e ferozes que dominavam o mundo inteiro. — Fez uma pausa com timing perfeito, típica de um contador de histórias. — O menino ficou olhando para as galinhas, ficou olhando pro doutor Augusto, e começou a chorar. Não queria passar perto, não queria comer, não queria nada. Levou uns dois anos para o doutor Augusto convencer que elas não iam crescer de volta.
Soltei uma risada que não esperava que fosse tão longa e tão genuína.
— Isso é a melhor coisa que já ouvi na minha vida. — Disse, ainda rindo. — Vou guardar isso para usar contra ele em algum momento oportuno.
O Dito sorriu com aquela satisfação de quem entregou exatamente o que precisava ser entregue.
Foi quando ouvimos o barulho de um carro se aproximando pela estrada de terra. O som distante de motor que vai ficando mais audível conforme se aproxima da propriedade.
— Não estamos esperando ninguém. — O Dito disse, em voz baixa, os olhos indo em direção ao som.
— Leonora. — Murmurei, antes de pensar.
— Fica aqui. Fica escondida. Eu cuido disso.
— Não. — Já estava me movendo. — Não tem como esconder o Arthur, se for ela...
— Dona Zara...
Mas eu já estava indo. Porque uma coisa era a Leonora usando lacaios para fazer o serviço sujo enquanto ficava nas sombras com as mãos limpas. Mas se fosse ela naquele carro, pessoalmente, chegando naquela fazenda... bom. Aí eu ia virar a mão naquela cara de uva passa antes de qualquer coisa, porque eu agia primeiro e pensava depois quando o assunto era o Arthur.
O Dito vinha atrás, tentando colocar alguma lógica no meu passo, mas eu não estava nem aí.
O carro estacionou sob supervisão do meu olhar atento. Mas quando a primeira porta se abriu, a pessoa que desceu não era a Leonora. Nem nenhum aliado dela. Era uma menina de dezessete anos, que levantou os óculos de sol com um sorriso que ia de orelha a orelha e olhou ao redor cheia de energia.
— Chegamos! — A Geórgia anunciou. — Cadê meu irmão? Ele já acordou?
O sorriso dela murchou no mesmo instante em que os olhos dela encontraram o meu rosto.


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