Tudo era mentira.
Diana acordava sozinha havia anos, e já nem estranhava. A cama larga, sempre com um lado intacto, travesseiro sem cheiro de ninguém. Naquele apartamento novo, mais frio que o antigo da Bela Vista, a rotina era um espelho repetido: café solitário, jornal deixado sobre a mesa, pastas empilhadas na bolsa de couro.
Fazia poucas semanas que tinha assumido o cargo de delegada ali. O ar da cidade era diferente. Não só pelo cheiro de terra depois da chuva, mas pela memória grudada em cada esquina. Ali estavam as cicatrizes abertas. Ali estava Ayla.
Ver a irmã de longe, caminhando pelas ruas de calçamento gasto, ao lado de Juan e da filha pequena, era como receber facadas silenciosas. Não porque os odiava, mas porque o contraste era insuportável. Ayla, apesar de tudo, parecia inteira. E ela, Diana, só colecionava ausências.
Nunca tentou se aproximar. Não teria como. O perdão não existia, mas o afastamento era mais suportável que as conversas quebradas. No fundo, Diana não queria escutar o que Ayla teria a dizer. Preferia que a irmã a visse como vilã. Era mais fácil carregar o peso de um papel sujo do que encarar a própria covardia.
O trabalho na delegacia lhe trouxe um tipo estranho de redenção. Quando Juan foi acusado de homicídio, ela se mexeu em silêncio. Conversas discretas com promotores, coleta de provas esquecidas, um inquérito que andava com rapidez anormal. Não fez por ele. Fez porque precisava fazer. Como se, ajudando-o, equilibrasse um pouco a conta invisível com Ayla.
Ninguém agradeceu. Ayla não olhou nos olhos dela uma vez sequer. Isso doía. Mas também era alívio. O silêncio sempre tinha sido seu abrigo.
Naquela noite, o restaurante no centro ainda estava cheio perto das onze. Diana entrou sozinha, como sempre. O ambiente tinha cheiro de carne na brasa e vinho derramado no chão, guardanapos amassados em mesas vizinhas. Pediu um conhaque.
Foi quando viu Bianca. Sentada no canto, taça de vinho tinto à frente, maquiagem intacta apesar da hora. Os olhos fixos na taça, mas a postura ereta de quem ainda queria ser vista.
Bianca a reconheceu primeiro.
— Delegada.
— Bianca. — Diana sentou-se sem pedir.
O silêncio inicial foi pesado. As duas carregavam o mesmo nome nos lábios: Ayla. Mas nenhuma quis ser a primeira a trazer.
Bianca mexeu a taça devagar, olhando o reflexo vermelho no vidro.
— Você também sente, não sente? — disse, sem levantar o olhar.
— O quê? — Diana perguntou, tentando disfarçar a curiosidade.
— Que ela sempre vence. Mesmo quando perde, no fim... ela vence.
Diana soltou um riso curto, amargo.
— Não é ela que vence. É a gente que nunca soube lutar.
Bianca levantou os olhos, surpresa com a franqueza.
— Você ainda odeia?
Diana ficou alguns segundos em silêncio. O conhaque queimava a garganta.
— Não. Não odeio Ayla. Nunca odiei de verdade. O que me corrói é me odiar. Por nunca ter tido coragem de ser livre.
Bianca encostou a taça na boca, sem beber.
— Então somos duas.
As duas ficaram ali, lado a lado, como cúmplices que não planejaram a cumplicidade. Duas mulheres diferentes, duas histórias distorcidas pela sombra da mesma mulher. Não havia afeto, nem amizade. Apenas a consciência de que partilhavam um buraco parecido.
Na mesa, o garçom trouxe pão quente, manteiga derretendo. Diana partiu um pedaço e mastigou devagar, lembrando do café da manhã da infância, na casa dos pais. O pão era igual. O gosto era idêntico. E, ainda assim, tudo diferente.
Bianca suspirou, olhando para o vazio.
— Acha que ela sabe o que a gente sente?
Diana enxugou o canto da boca com o guardanapo.
— Não. E é melhor assim.

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