O celular vibrou às duas da manhã. Diana acordou assustada, o coração acelerado. A tela iluminava o quarto escuro: era Erlon.
"Desculpa a hora. Preciso te ver."
Ela ficou alguns segundos parada, encarando as letras brancas. Sentiu o nó no estômago. Podia ignorar. Podia fingir que não viu. Mas já estava de pé, já estava calçando o moletom, já estava pegando a chave do carro.
O apartamento dele ficava em Pinheiros, um prédio moderno, portaria 24 horas, cheiro de madeira encerada no hall. O porteiro a reconheceu e abriu sem perguntar nada. Diana subiu de elevador, vendo o próprio reflexo no espelho: olheiras, cabelo preso às pressas, boca seca.
Erlon abriu a porta ainda de camisa social, os botões de cima soltos, cheiro de uísque misturado a perfume. O sorriso dele era arma e abrigo.
— Eu sabia que você vinha. — Ele disse, com um tom de alívio na voz.
Ela não respondeu. Entrou. O apartamento tinha luz baixa, copos espalhados, uma garrafa pela metade sobre a mesa. Sentou-se no sofá sem tirar o casaco. Erlon veio logo em seguida, sentando-se perto demais, os joelhos quase encostando.
— Acabou — ele disse, sem rodeios.
— O quê? — Diana perguntou, mesmo sabendo.
— Eu e a Ayla. Não dá mais. Eu não quero mais ela. Eu só quero você.
As palavras caíram como água em brasa. Diana respirou fundo, os olhos marejados. A mão dele pousou na dela.
— Você sabe disso, não sabe? Eu devia ter percebido antes. Você é quem realmente importa.
Ela queria acreditar. Queria muito. Mas dentro, algo tremia.
— Você... disse isso pra ela? — arriscou.
— Claro. Ontem. Foi horrível, mas precisava ser feito.
Diana olhou para o apartamento. Sobre a mesa, ainda havia uma xícara com batom vermelho na borda. Reconheceu aquele tom, Ayla sempre usava. O estômago revirou.
— E essa xícara? — perguntou, a voz trêmula.
— Deve ser da empregada, sei lá — ele respondeu rápido, desviando o olhar.
Mentira. Diana sabia. Mas não perguntou de novo. Fingiu aceitar. Porque ouvir outra coisa seria insuportável.
Ele se inclinou, encostou a testa na dela. O cheiro forte de uísque, a respiração pesada.
— Confia em mim, Diana. É você. Só você.
As mãos dele subiram para o rosto dela, e ela fechou os olhos. Não porque acreditava, mas porque precisava acreditar. Se abrisse os olhos, veria as contradições, as provas espalhadas pelo apartamento. O silêncio entre as frases, as pausas erradas.
Ficaram juntos naquela noite, como tantas vezes. Diana se agarrou aos toques, ao calor do corpo dele, como quem segura areia que escapa pelos dedos. Depois, deitada no peito dele, ouviu Erlon roncar cedo, pesado, como quem não carrega peso nenhum.
Ela ficou acordada. A xícara com batom ainda estava lá, na mesa. A mentira gritava. Mas no escuro do quarto, o vazio gritava mais alto.
Diana preferiu o veneno ao silêncio.
Porque a ilusão, por mais amarga, ainda era companhia. O abandono, não.
***
Na manhã seguinte, Diana acordou com a luz do sol filtrando pelas cortinas. O cheiro de café fresco invadia o ar, e ela se sentiu um pouco mais leve. Mas, ao olhar para o lado, viu Erlon ainda dormindo, e a realidade a atingiu como um balde de água fria.
O que ela estava fazendo? Estava traindo sua irmã, a única pessoa que passou tudo que ela passou juntos.
Levantou-se devagar, tentando não fazer barulho. O apartamento estava em silêncio, exceto pelo som do café sendo preparado. Ela se vestiu rapidamente, colocando a blusa que havia deixado jogada no chão. O espelho refletia uma mulher confusa, com olheiras e um semblante cansado.
— Diana? — a voz de Erlon a chamou, e ela se virou.
— Oi, bom dia. — Ela tentou sorrir, mas a expressão não saiu como pretendia.
— Você não vai tomar café? — ele perguntou, com um olhar sonolento.
— Não, obrigada. Preciso ir. — Ela respondeu, tentando manter a voz firme.
— Você não quer ficar mais um pouco? — Erlon se aproximou, a expressão de quem não queria deixá-la ir.

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