A mansão dormia. O relógio do corredor marcava três e pouco da manhã, seu tique-taque ecoando como um lembrete cruel de que o sono não viria. Juan rolou de um lado para o outro, os lençóis embolados nas pernas, o corpo cansado, mas a mente ainda em chamas. A caixa de cartas de Ryan, que ele havia guardado na gaveta do escritório, parecia chamá-lo de longe, como se o papel tivesse voz.
Levantou-se sem barulho, para não acordar Ayla. Vestiu o roupão de algodão que já cheirava a café e noites maldormidas, e desceu para o escritório. O assoalho rangia em alguns pontos, sempre os mesmos, como se a casa tivesse memória própria.
Abriu a gaveta. A carta que Amanda lhe entregara estava lá, junto das outras. Juan a leu outra vez, com a mesma raiva de antes, mas agora havia algo diferente. Não era só ódio, nem só dor. Era uma sensação estranha de vazio. Quando terminou, ficou olhando para a letra do irmão, cada curva da caligrafia, como se pudesse ver Ryan ali, sentado na poltrona, com aquele sorriso que sempre escondia algo.
Pegou papel e caneta. Não planejava escrever nada, mas as palavras vieram, como se fossem arrancadas da garganta:
"Ryan,
Eu devia te odiar. E por muito tempo eu odiei. A maneira como você roubou, como mentiu, como envenenou o pouco que tínhamos. Mas agora, lendo suas palavras, eu vejo que não é só isso que sinto. Eu sinto falta. Falta de você me empurrando na piscina no verão, falta da gente dividindo o lanche na escola porque o pai tinha esquecido de deixar dinheiro. Eu sinto falta de ter um irmão.
Você me quebrou. E ainda assim, você foi parte da minha vida de um jeito que ninguém mais vai ser. Talvez eu nunca consiga dizer que te perdoo de verdade, mas hoje, escrevendo isso, eu entendo que preciso soltar essa dor. Preciso soltar você.
Você sempre foi minha sombra e minha luz, ao mesmo tempo. E eu fui feliz sendo seu irmão, mesmo quando você não soube ser o meu.
Adeus, Ryan.
Juan."
A caneta tremia na mão. Ele fechou os olhos, respirou fundo, e deixou a carta sobre a mesa. Não sabia se queimaria depois ou se guardaria junto das outras. Mas havia um alívio estranho, como se parte da culpa tivesse finalmente encontrado lugar.
Quando voltou para o quarto, Ayla estava acordada, encostada na cabeceira. O cabelo desgrenhado caía sobre o ombro, e ela o olhava com aquela mistura de ternura e exaustão que só ela tinha.
— Você desceu de novo — disse em voz baixa, quase um sussurro. — Não consegue largar essas cartas, não é?
Juan se sentou na beira da cama, passando a mão pelo rosto.
— Eu precisava escrever. Como se ele pudesse me ouvir.
— E pôde? — Ayla perguntou, inclinando-se para frente, apoiando a mão na barriga enorme.
Ele demorou a responder.
— Não sei. Mas eu consegui falar. E, de algum jeito, isso me soltou um pouco.
Houve um silêncio. Só o barulho da respiração dela e o vento batendo nas janelas. Então, Ayla falou:
— Você sempre carrega o mundo nas costas, Juan. Sempre foi assim. Mas essa culpa… essa não é sua.
Ele a olhou, os olhos pesados.
— Eu desconfiei uma vez. De Ryan e Alison. Muito antes de tudo explodir. Eu vi olhares, vi gestos… mas ignorei. Fechei os olhos porque não queria acreditar. Se eu tivesse falado, se eu tivesse feito alguma coisa… talvez nada disso tivesse acontecido.
Ayla suspirou fundo, balançando a cabeça.
— Você acha que teria mudado alguma coisa? Ryan já estava quebrado por dentro. Alison também. Eles iam se encontrar na sombra, cedo ou tarde. Você não é responsável pelas escolhas deles.
— Mas eu sou responsável por não ter protegido você, Emma, a nossa vida — a voz dele falhou. — Eu me sinto… covarde.
Ela estendeu a mão, segurou o rosto dele entre os dedos.
— Você não foi covarde. Foi humano. E humanos amam, erram, se enganam. Você não precisa ser perfeito para ser bom.
Juan fechou os olhos, encostando a testa na dela.
— E se eu falhar com nosso filho? — murmurou. — E se ele olhar pra mim um dia e enxergar o mesmo que vimos nos nossos pais?
— Então a gente aprende junto — Ayla respondeu, firme, quase como se desse um comando. — Eu também morro de medo disso. De repetir tudo que fizeram comigo. Mas, sabe… eu acho que o medo é um sinal de que a gente vai tentar diferente.
Ele riu baixo, um riso sem humor.
— Você sempre consegue me puxar de volta.
— É porque eu sei como é se afogar — ela disse, encostando o rosto no peito dele. — E não vou deixar você ir sozinho.
Juan a abraçou com força, como se tivesse medo de soltá-la. Ficaram assim por minutos, talvez horas. O silêncio não era vazio, era cheio de tudo o que não precisavam dizer em voz alta.
Quando, enfim, Ayla adormeceu outra vez, Juan permaneceu acordado, olhando o teto. Pensou em Ryan, pensou no filho que viria, pensou no peso e na liberdade de finalmente admitir que não era invencível.
E ali, no escuro, entendeu que o amor verdadeiro não era feito de certezas, mas da coragem de ficar, mesmo com todos os fantasmas.
Na manhã seguinte, o sol entrava pela janela, iluminando o quarto com uma luz suave. Ayla acordou primeiro, sentindo-se um pouco mais leve. O peso das conversas da noite anterior ainda estava presente, mas havia uma nova determinação em seu coração. Ela se levantou, vestiu uma roupa confortável e foi até a cozinha preparar o café da manhã.

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