Acordei cedo. Nem parecia que tinha dormido bem, a ansiedade esmagava meu peito desde o primeiro raio de sol atravessando as persianas.
Deixei o anexo e segui para a casa principal. Ainda era cedo demais pra Emma estar acordada, o Sr. Barrichello tinha me enviado a rotina dela na noite anterior.
A mansão estava silenciosa. Me peguei olhando em volta, procurando qualquer vestígio... porta- retratos, quadros, qualquer sinal da mulher que aquele homem disse, sem um pingo de peso, estar “aliviado” por ter perdido. Nada. Nenhuma foto. Nenhuma lembrança. Como se ela nunca tivesse existido.
— O que está fazendo? — a voz dele cortou o silêncio, firme e seca, me fazendo saltar no lugar.
Virei, levando as mãos ao peito.
— Só... estava me familiarizando com a casa — respondi rápido, alto demais.
Ele me analisou, aquele olhar negro, gélido.
— Emma ainda não acordou. — Disse apenas, já se virando.
— Sr. Barrichello... — chamei, com a voz meio embargada. Ele parou. Não se virou. — Você... não se lembra de mim?
Ele se virou devagar, olhando como quem força a memória.
— Nunca te vi antes.
Senti o sangue ferver.
— Nem quando tentou pegar o mesmo táxi que eu?
Por um segundo, só um, quase vi um sorriso. Quase. Mas com aquele homem, sorrisos eram miragens.
Seu olhar escuro deslizou sobre mim, intenso, pesado. Me senti minúscula. Vulnerável.
Ele caminhou até mim. Passos lentos. Meu coração disparou. Me recusei a desviar os olhos.
Parou perto. Muito perto. Levantou o braço, devagar, e apontou pro relógio no próprio pulso.
— Está atrasada pra sua primeira tarefa. — A voz baixa, arrastada, perigosa. — Me pergunto se sobrevive até o fim do dia.
E se virou. Simples assim.
Fiquei ali, imóvel, com o medo apertando meu peito. E, sinceramente... me perguntei o mesmo.
Subi. Era hora de acordar Emma.
***
Emma era tudo que o pai não era. Doce. Esperta. Tagarela.
Nos demos bem desde o primeiro segundo. E agora estávamos no jardim, devorando waffles recém-feitos pela cozinheira.
— Você tem mamãe, Ayla? — ela soltou, olhando pra mim com aqueles olhos verdes gigantes.
Engoli seco.
— Tenho... mas ela tá longe de mim.
— Longe igual à minha? — sua voz baixinha me fez travar. — Papai disse que ela foi tão, tão longe... que não pode mais voltar.
Aquilo partiu meu coração em pedaços.


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