—Ele é da família, Ayla.— É o seu pai quem responde.
Ayla dá um sorriso nervoso, porque ela realmente queria resolver tudo aquilo sem confronto, mas já era tarde demais.
—Da família?— ela pergunta e não evita sorrir. —Eu realmente gostaria que não pudéssemos conversar sobre isso. Mas acho que será necessário falar sobre todas as lágrimas que eu chorei desde que Erlon decidiu que eu não mereço nem o menor dos respeitos. O jeito como meu coração saiu destroçado quando o vi deitado na nossa cama com a Diana. A minha própria irmã.
—Pare de inventar acusações tão cruéis e irreais sobre sua própria irmã.— É a mãe de Ayla quem fala dessa vez.
—Eu concordo.— Erlon diz, por fim. —Porque jamais faríamos algo assim.— E ali ela teve a certeza de que nunca poderia entender o que se passava na cabeça de um homem.
Ayla encarou Erlon e se perguntou aonde estaria todo o seu passado com ele, toda vida e energia que ela desperdiçara e que não voltará jamais.
Olhou para o sorriso cínico nos lábios de Erlon e se perguntou para onde foi a sua risada que por tantas vezes, a fizera voar.
E é quando ela percebe que tudo se foi bem antes. Como a água do rio até o mar, se foi e ela jamais conseguiria recuperar. O que mais apertava seu coração desde então, havia sido todo o tempo em que ela desperdiçou e não vira isso, todas as horas que não voltarão.
Ayla olhou ao redor e percebeu os olhares de todos nela: acusadores, julgadores. Nem uma empatia presente. Ela segura suas lágrimas o mais forte que consegue.
—Apenas seja forte, mamãe. Você sabe que estou aqui por você.— Ayla sussurrou, a voz trêmula e então sai correndo daquela casa.
Porque a verdade era que não havia nada que ela pudesse dizer, nada que possa fazer para que de fato fosse ouvida, compreendida, amada.
Por isso, enquanto Ayla caminha por aquela cidadezinha, ela se dá conta que mesmo estando na sua própria cidade, percebe-se o quão longe ela está. Longe dele.
—Eu gostaria que estivesse aqui.— Ela sussurra para o nada, enquanto arrasta sua mala no meio daquela rua.
Porque de algum modo, Ayla sentia que se Juan estivesse ao seu lado naquele momento, ela lutaria e se defenderia. Porque Juan sempre despertara nela a sua teimosia e coragem.
Coragem essa, inexistente agora, uma vez que ela escolheu só fugir.
Mas Ayla sabia que precisava ter feito isso, porque sempre que Ayla permitia sentir os lábios de Juan, aquilo soava como um suicídio para ela. Porque, em todas as vezes, Juan sempre iria embora e no dia seguinte, nada mudava, tudo seguia como de costume. E essa era a vez da própria indiferença acariciar os lábios de Ayla.
Ela estava tão focada em sua própria dor, que não olhava em frente e acabou chocando-se com um corpo rígido bem em sua frente.
—Me desculpa.— Ela sussurra, mas logo aquele perfume preenche seu olfato.
Ela olha para cima e então, ela para de respirar.
—Você...— sussurra.
Ayla sentiu como se a onda de emoções que aquele dia começou a causá-la estivesse tramando afogá-la em sigilo. Cada pulsar de seu coração parecia uma contagem regressiva para o momento em que seria submergida por sentimentos que há muito tempo haviam sido mantidos sob controle.
Seus dedos tremiam ligeiramente enquanto ela erguia o olhar e se deparava com a figura imponente que havia se chocado com ela momentos antes.
Seu coração, agora uma batida desenfreada dentro do peito, parecia querer escapar enquanto ela lutava para encontrar sua voz. Seus lábios, repentinamente secos, ansiavam por uma umidade que a tensão do momento lhe negava.
E então, com um esforço consciente, ela focalizou sua visão no rosto diante dela, um rosto que parecia brilhar sob a luz intensa do sol, como se emitisse uma aura própria de magnetismo.
—Ayla.— A voz, familiar e calorosa, envolveu-a como um abraço inesperado.
Ayla prendeu o fôlego, seu corpo tenso como um arco prestes a ser liberado. Quanto tempo havia se passado desde que escutara aquela voz, desde que se perdera na profundidade dos olhos castanhos que agora a encaravam com uma mistura de surpresa e ternura? Toda a mágoa e tristeza que haviam marcado os anos de separação pareceram desvanecer-se num instante quando Ayla levantou os olhos e viu aquele rosto familiar.
—Jeff.— O nome escapou de seus lábios em um sussurro quase reverente.
Ela mal podia acreditar que estava cara a cara com Jeff outra vez, depois de tantos anos de silêncio e distância. A magnitude do momento a deixou atordoada, imóvel diante dele, seus olhos fixos nele como se temesse que ele desaparecesse se ela piscasse sequer uma vez.
—Você está de volta a cidade?— ele pergunta, por fim, enfiando as mãos no bolso da calça.
—Eu... Hum...— Ayla gagueja, porque ela realmente não sabe como responder aquela pergunta.
Jeff franze a testa e observa Ayla, que parecia incomodada e até um pouco inquieta em frente a ele.

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