Naquela manhã, Juan havia deixado a janela aberta.
Ele se encontrava em seu escritório, se preparando para um dia que seria longo, exaustivo e tedioso como todos os seus dias sempre eram presos em sua própria monotonia.
Juan para em frente a janela, e dessa vez, ele olha para baixo, e acaba por recordar da última vez em que esteve exatamente daquele jeito. Ali em cima, observando Ayla ter o primeiro contato com Emma e como aquilo havia atiçado sua curiosidade completamente. Ele consegue visualizar outra vez todo o início daquela história emaranhada, de conflitos esquecidos e que agora eram apenas cobertos por pedaços de ausência.
—Senhor Barichello, podemos continuar?— A voz do mordomo da casa surge no escritório.
Juan sequer havia percebido que Gomez batera na porta, preso em seus próprios pensamentos.
—Por favor, Gomez.— Ele responde, por fim, virando-se. —A senhora Edith já voltou?
—Sim.— Gomez responde com firmeza. —Emma já se encontra na escola.
—Certo, obrigado.— Juan diz, o dispensando.
A verdade era que Juan não conseguia assimilar que Ayla não estava mais ali. Que Emma também já não a tinha mais. A única coisa clara em sua mente era que nada parecia igual sem ela. E ele tem essa certeza quando olha em frente.
Para a maldita e cansativa entrevistas de novas babás.
Uma mulher de longos cabelos cacheados está parada em sua frente, os lábios entreabertos enquanto observa Juan com um brilho e admiração quase irritante em seus olhos.
—Senhor Barichello.— Ela fala, um sorriso nervoso no rosto. —Espero que saiba que para mim é uma honra estar aqui. Sou uma grande fã do seu trabalho.
—Fã de um filantropo?!— ele pergunta, o tom irônico e seco em sua voz.
Porque a verdade era que aquela mulher em sua frente parecia que estava diante de algum cantor de uma banda de garotos do qual era completamente obcecada, e essa idolatria exacerbada diante de um homem do qual ela não conhecia nada, deixara Juan ainda mais incomodado.
—Bom, eu...— ela iria começar a falar, coberta de empolgação.
No entanto, Juan cortou de imediato algo que seria para ele um show de tortura.
—Seu currículo.— Ele diz simplesmente e estende sua mão.
—Ah sim. Perdão. Eu estava um pouco desorientada.— Ela começa a sorrir exageradamente, o que faz Juan lutar para não revirar os olhos.
Juan analisa o perfil daquela mulher em silêncio enquanto sente o olhar dela sobre ele o tempo todo.
—Aqui me diz que você não tem experiencia em nenhuma área de trabalho.— Juan fala simplesmente, e j**a aquele currículo vazio em sua mesa.
—Eu sei, mas...— ela sorri de lado e então começa a enrolar o cacho de seu cabelo no dedo. —Seria realmente uma honra para mim trabalhar para o senhor e era obvio que eu obteria experencia com o tempo, nas tentativas. Desde que me dê essa imperdível oportunidade.
Juan quase acha graça naquele exagero infantil, mas seu rosto segue cruelmente duro e sério quando diz:
—Você acha que a minha filha iria servir para você como um teste experimental?— Juan semicerra aos olhos diante de algo tão absurdo.
A mulher, com o nome de Kelleigh, como seu currículo indicava, apenas engoliu em seco.
—Senhor, me desculpe.— Ela começa a gaguejar, a pele ficando rubra. —Não foi isso que eu quis dizer, eu...
Juan apenas dá as costas para aquela mulher e volta a olhar pela janela.
—Fecha a porta quando sair.— Ele resmunga.
—Mas, por favor...— ela insiste, choramingando.
Que tipo de mulher com vinte e quatros anos choraminga daquela forma?
—Agora.— A voz de Juan parece fazer aquele escritório tremer, a dureza em seu tom.
A amargura e sua áurea mais sombria estava retornando em sua personalidade gradativamente.
Juan ouve quando a porta se fecha quando Kelleigh vai embora, mas também escuta quando outra candidata chega e senta-se na cadeira em frente.
E em mais uma vez, a confirmação de que pelo mundo não existia ninguém que pudesse se parecer com Ayla. Nem o simples ato de comparação parecia certo. Só a ideia de confiar outra pessoa a segurança de sua filha fazia seu estomago embrulhar.
Mas Juan percebe que aquela era sua nova realidade, que deveria reaprender e reinventar-se a sua nova realidade. E é naquele momento, que Juan percebe que em seu peito, um círculo se fecha e a dor volta a enterra-lo Porque era extremamente difícil viver com a guerra que ele travava em seu próprio peito.
—E então? Obteve sucesso?— Ryan surge, atravessando aquele escritório assim que as candidatas ao emprego cessam.
Juan está mentalmente exausto e ele não conseguiria lidar nem um segundo que fosse com a petulância de Ryan. Mas também estava cansado demais para discutir o que quer que fosse.

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