Ayla não vira Sunny retornar naquela noite. Mas a imagem dela desaparecendo na noite ainda parece queimar em sua cabeça com as mais diversas e complexas perguntas.
As meias palavras, o modo misterioso com que ela se comportava, falava, surgia e desaparecia, ainda deixava Ayla confusa. Ela sente a incerteza dançando ao redor de suas palavras não ditas, e isso a intriga profundamente.
Ayla se perguntou se ela era realmente a pessoa mais fácil, simples e normal da sua família ou se era apenas tão inútil e sem nenhuma grandiosidade na vida que era apenas entediante.
—Luna, querida.— Andrea diz assim que Ayla volta para dentro de casa. Sua mãe estava acabando de retornar da cozinha, e olha para Ayla ansiosa, com atenção.
Ayla sorri para sua mãe, já aceitando que entre elas, o nome de Ayla já não existia. Para Andrea ela sempre seria Luna, e de algum modo, Ayla gostava daquilo. Gostava da sensação de se reencontrar e se reinventar como a pessoa que ela sempre deveria ter sido.
—Sim.— Ayla responde, por fim, parando no meio da sala. Andrea olha para trás de Ayla e ao redor, como se estivesse buscando por algo.
—Onde está a Sunny?— ela pergunta, a testa franzida e os olhos preocupados. Ayla nega com a cabeça, dando de ombros de modo mais inocente possível.
—Eu não sei.— Ela responde com honestidade. —Estávamos conversando no alpendre e então ela só levantou e foi embora.
A mãe de Ayla solta sua respiração com força e parece cansada, exausta, como se já esperasse aquele tipo de ação da Sunny. Ayla tem diversas perguntas para fazer a sua mãe, sobre sua irmã, sobre ela, sobre como havia sido sua vida sozinha e distante de todos todo aquele tempo. No entanto, Ayla percebe quando sua mãe solta um largo bocejo e a expressão cansada se vê em sua expressão e postura.
Ayla olha o relógio na parede e vê que já se passava das dez da noite. Para ela, aquilo não era nem um pouco cedo, mas para pessoas que moravam no campo, Ayla imaginou que aquilo já se qualificava como alta madrugada.
Andrea tenta sorrir para Ayla, mesmo que seus olhos estejam vermelhos pelo sono. Ayla percebe que sua mãe é gentil e doce demais para sugerir que ela vá dormir, sem parecer um pouco rude. Por isso, cabe a Ayla sugerir aquilo.
—Mãe, você se incomoda se eu for deitar agora?— ela pergunta como se nada. —Estou muito cansada, foi um dia longo. Acho que para a senhora também.
Andrea deixa escapar um suspiro e há exaustão nele.
—Certamente foi um dia muito emocionante.— Ela comenta sorrindo e então passa os braços ao redor dos ombros de Ayla. —Venha, irei te levar até o quarto.
Andrea conduz Ayla pelo corredor, o calor reconfortante da casa envolvendo-as enquanto caminham. Ayla se permite afundar na sensação familiar, deixando para trás as preocupações do dia.
Ao chegarem ao quarto, Andrea ajuda Ayla a se acomodar na cama, tarefa que agora parece tão familiar quanto reconfortante. Ela tira o casaco e deixa-o de lado, sentindo-se instantaneamente mais leve. Sua mãe sorri para ela, os olhos transbordando de carinho e preocupação.
Tem toalhas dobradas em cima da cama, lençóis limpos e um cheiro doce de lavanda ao redor.
—De quem é esse quarto?— Ayla pergunta.
—É de hóspedes. Mesmo eu nunca tendo nenhum hospedes por aqui.— Andrea comenta, mas sorri. —Preparei o quarto enquanto você estava lá fora. Espero que seja confortável para você.
—Está perfeito.— Ayla confirma no mesmo instante, sorrindo. —E não precisava fazer nada disso.
Andrea apenas estala a língua, em um barulho que se revela como ignorar o comentário de Ayla.
—Descanse, minha Luna. Amanhã nos falaremos mais. Se precisar de qualquer coisa, estarei no quarto ao lado.— Andrea se aproxima de Ayla e beija sua testa. —Sonhei demais com o dia que você voltaria para mim. Amo você, querida.
Os olhos de Ayla marejam no mesmo instante numa emoção que ela nunca sentira. Ela nunca tinha ouvido um ‘eu te amo’ tão sincero daquele modo. Sequer ouvira sua mãe adotiva a tratar com o menor dos respeitos e muito menos com aquele carinho.

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