Peter
O mundo estava uma merda.
Minha cabeça latejava, minha mandíbula doía do soco que levei, e o gosto de sangue ainda estava na minha boca. Aquele desgraçado que me tirou da prisão parecia se divertir em me tratar como um pedaço de lixo.
Mas eu não era lixo. Eu era Peter Calton.
E se ele achava que podia me jogar de um lado para o outro como um peão, estava enganado.
O carro seguia pela estrada escura sem nenhuma placa, sem nenhuma referência. Eu tentava entender para onde diabos estavam me levando, mas tudo o que via era o nada. O nada absoluto. Só as luzes do painel e o reflexo opaco dos faróis iluminando o asfalto gasto.
A única certeza que eu tinha era de que essa fuga não foi um presente do destino.
Não. Alguém facilitou minha saída. Alguém poderoso. Mas a pergunta era: por quê?
E, mais importante: o que essa pessoa queria em troca?
Apertei os punhos, sentindo a raiva borbulhar no meu peito. Esse motorista maldito achava que mandava em mim? Que me dava ordens? Eu não obedecia ninguém. Nunca.
Tentei respirar fundo, recuperar minha postura. "Escuta," falei, o tom mais controlado. "Eu não sei quem te mandou, mas posso pagar bem. Tenho contatos. Pessoas que—"
"Não tem nada, Calton."
A voz dele foi fria, seca, como se eu fosse um idiota por sequer tentar negociar.
"Você está falido," ele continuou, sem tirar os olhos da estrada. "Perdeu tudo. Sua parte da empresa já foi para o buraco e vendida para a pessoa que você mais odeia no mundo, seus sócios te abandonaram. A única coisa que sobrou foi um mandado de prisão e um número na lista de procurados."
Minha respiração ficou presa por um momento. Como? Leonardo tinha comprado minhas ações? MINHA EMPRESA?
Eu sabia que minha situação era ruim, mas ouvir daquela forma, tão direto, tão cruel, fez algo dentro de mim se partir.
"Você está mentindo. Se fosse verdade, então por que me tiraram de lá?" minha voz saiu mais tensa do que eu gostaria.
Dessa vez, ele riu. Riu.
"Ah, Peter..." balançou a cabeça, divertido. "Você ainda não percebeu, né?"
Cerrei os punhos. "Percebeu o quê?"
Ele virou o rosto ligeiramente para me encarar pelo retrovisor, o brilho dos faróis projetando sombras no rosto dele. "Você não saiu porque é importante. Você saiu porque era conveniente para alguém."
Minhas entranhas reviraram.
"Conveniente?" cuspi. "O que diabos isso significa?"
"Significa que sua fuga não foi sobre você," ele respondeu com um tom entediado. "Significa que alguém queria que você estivesse solto para levar a culpa de algo maior. E que, no final, você é só mais um desgraçado descartável."
"Eu ouvi da primeira vez." Ele me lançou outro olhar pelo retrovisor. "E eu já disse que não funciona assim."
Minha paciência explodiu. Eu levei a mão à porta, pronto para abrir e pular para fora—não importava que estivéssemos a mais de cem por hora, qualquer coisa era melhor do que ser entregue como um animal.
Mas antes que eu pudesse tocar a maçaneta, o carro fez uma curva brusca e eu fui arremessado contra a porta, minha cabeça batendo com força contra o vidro.
"Porra!" gritei, levando a mão ao couro cabeludo, que latejava.
O motorista riu. De novo.
"Você não tá entendendo, Calton," disse ele, com aquele tom de puro desprezo. "Você não tem escolha. Não manda mais em nada. E quanto mais rápido você aceitar isso, mais fácil vai ser."
Minha respiração ficou pesada. Eu nunca me senti tão impotente em toda a minha vida.
"Pra onde você tá me levando?" minha voz saiu rouca, desgastada pela tensão.
O motorista apenas sorriu, acelerando ainda mais o carro.
"Logo, logo você vai saber."
E, pela primeira vez, senti um medo real crescer dentro de mim.

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