“O futuro não pede permissão. Ele simplesmente começa.”
Após o café delicioso, Pedro seguiu com os futuros papais para a clínica, atento ao trânsito e ao entorno. Helena faria sua primeira consulta de pré-natal, e havia algo quase solene naquele compromisso.
Pelo retrovisor, ele flagrou a cena comovente: Santiago acariciando o ventre ainda discreto de Helena, enquanto ela descansava a cabeça em seu ombro, tranquila. O gesto era simples, mas havia nele uma ternura que apertou o peito de Pedro.
Nunca fora homem de planos longos. Relações sérias sempre lhe pareceram um risco alto demais. Já perdera pessoas demais na vida — perdas que ensinaram a não se apegar, a não criar raízes onde o chão pudesse ceder. Amar, para ele, sempre carregara a sombra do luto antecipado.
Ainda assim, algo vinha mudando.
Naquele tempo trabalhando ao lado deles, acompanhando de perto aquele amor que crescia com cuidado e respeito, Pedro se pegou desejando o que nunca ousara querer. Não era inveja. Era uma espécie de curiosidade tardia, um “e se?” silencioso.
E um filho…
Antes, a ideia lhe parecera quase irresponsável — trazer uma criança para um mundo tão doente. Mas agora, observando aquele toque protetor, aquela promessa muda de presença, o pensamento surgira sem pedir licença.
Talvez não fosse o mundo que precisasse mudar primeiro. Talvez fossem as pessoas.
Pedro respirou fundo, voltou os olhos para a estrada e seguiu dirigindo. Não sabia ainda o que fazer com aquele desejo recém-nascido. Só sabia que, pela primeira vez em muito tempo, ele existia.
Ele estacionou em frente à clínica, do outro lado da rua, e desligou o motor com a atenção ainda alerta. Como Santiago estaria com Helena — e aquele era um momento que pertencia só aos dois — preferiu permanecer do lado de fora.
— Vou ficar aqui. Qualquer coisa, me chama — avisou.
Santiago agradeceu com um aceno discreto e seguiu de mãos dadas com Helena. Ela usava um conjunto de linho em tom palha: um colete cropped sem mangas que terminava exatamente onde começava a saia longa. A maquiagem era tão leve que deixava à mostra as sardas delicadas espalhadas pelo rosto.
A clínica era bonita demais para um consultório comum. O piso de porcelanato líquido, impecável, refletia a luz; as paredes claras e as janelas amplas mantinham o ambiente arejado e sereno. Caminharam juntos até a obstetrícia tão envolvidos um no outro que mal perceberam as pessoas ao redor.
Na recepção, Santiago soltou a mão dela apenas para apoiar sua lombar enquanto Helena separava os documentos e preenchia a ficha.
— Vocês já podem entrar — anunciou a recepcionista, com um sorriso profissional.
Santiago entrelaçou novamente os dedos aos dela. Helena retribuiu com um sorriso largo, quase luminoso, antes de atravessarem a porta da sala.
...
Como Cássio não respondeu e permanecia com o olhar fixo, quase ausente, Silvia seguiu a direção daquele silêncio. Foi então que viu.
Helena estava de perfil, encostada ao balcão da recepção, concentrada em preencher um formulário. Santiago estava ao lado dela, as mãos pousadas com naturalidade na curva de suas costas, num gesto íntimo e protetor. Ele a observava com um sorriso bobo de admiração.
O ar pareceu rarear nos pulmões de Silvia.
“Por que aquela mulher parecia estar em todo lugar?”
Por um instante, o mundo encolheu ao redor dela. O som da clínica — passos, vozes baixas, o tilintar distante de um telefone — virou ruído. Tudo o que existia era aquela cena: Helena serena, bonita de um jeito que não implorava atenção; Santiago devotado, presente, exatamente onde Cássio nunca estivera para ela.
O estômago de Silvia se contraiu com violência. Não era apenas ciúme. Era algo mais fundo, mais feio. Um ressentimento ácido, corrosivo, que misturava inveja, raiva e a sensação insuportável de ter chegado tarde demais a um lugar que nunca seria seu.
Ela apertou os dedos com força contra a alça da bolsa, as unhas cravando na própria pele, como se precisasse daquela dor mínima para não perder o controle ali mesmo.
Cássio continuava imóvel ao seu lado, o rosto endurecido, os olhos presos à cena como quem assiste a algo que não pode impedir nem desfazer.
A recepcionista falou algo. Helena sorriu, aquele sorriso fácil que Silvia passou a odiar sem nem saber quando. Santiago tomou a mão dela novamente, e os dois caminharam juntos em direção a sala da obstetrícia.
Silvia acompanhou cada passo, cada centímetro de distância que se abria entre eles e o mundo. Até que a porta se fechou.
“Obstetrícia…?”
O pensamento atravessou Silvia como um corte frio.
“Ela também estava grávida?”
A ideia se espalhou rápido demais, ocupando tudo. A imagem voltou inteira à sua mente: as mãos de Santiago nas costas dela, o cuidado silencioso, o sorriso bobo. Não era apenas amor. Era projeto. Continuidade.
Silvia sentiu a náusea subir. Não era inveja do bebê. Era pânico do que ele simbolizava. Helena não só seguira em frente — ela florescera. Enquanto isso, tudo o que Silvia tinha era um plano que rangia, uma promessa de casamento sem amor e uma gravidez que, pela primeira vez, lhe pareceu frágil demais para garantir poder.
Ela recompôs o rosto com esforço, vestindo novamente a máscara doce. Virou-se então para Cássio, que permanecia imóvel, o olhar ainda preso à porta por onde Helena havia desaparecido. Apertou-lhe o braço, possessiva, como quem marca território.
— Vamos — disse, baixa. — Já chamaram seu nome.
Ele assentiu sem responder sentindo-se vazio. Derrotado. Como se tivesse acabado de perder algo que não teve a chance de ter... um filho com Helena.



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