“Arrependimento não mata, o que nos dói é a certeza de que nossas vidas poderiam ter seguido um rumo diferente.”
Nem mesmo a dor provocada pela troca do curativo conseguiu arrancar Cássio do torpor em que estava mergulhado. Ele continuava distante, afundado no próprio vazio.
Silvia, ao seu lado, tentava decifrar o emaranhado de pensamentos que o mantinha tão distante.
O procedimento havia sido rápido e, em poucos minutos, já estavam novamente no corredor da clínica. Antes de seguir, Cássio lançou um último olhar para a porta fechada do consultório de obstetrícia. Doía — profundamente —, mas não havia mais nada a ser feito. Nem sequer podia se permitir qualquer aproximação, amarrado pela medida restritiva que o mantinha afastado dela.
— Vamos — chamou Silvia, firme. — Precisamos conferir os últimos detalhes do lançamento — acrescentou tentando incutir nele algum senso de urgência, qualquer coisa que o arrancasse daquele lugar.
Cássio baixou a cabeça. Após alguns segundos, assentiu e seguiu em passos apressados rumo à saída. Tudo o que queria era desaparecer dali antes que Helena o visse naquele estado — quebrado e diminuído.
Silvia precisou acelerar para acompanhá-lo. Passou a mão em seu braço e logo já estavam a caminho da empresa.
No Studio Cassiani, o showroom estava praticamente pronto no salão da recepção. Não era um espaço amplo, mas bem planejado: suficiente para expor os móveis e ainda permitir que os visitantes circulassem entre eles. Embora não houvesse uma festa oficial de lançamento, haviam organizado um coquetel discreto, que funcionaria da abertura até o fim do expediente, para receber os convidados.
O início estava marcado para as dez da manhã, com lançamento simultâneo no site da empresa, nas plataformas digitais e em campanhas de tráfego pago. Alguns jornalistas especializados em decoração haviam sido convidados, assim como clientes estratégicos.
Ainda assim, o peso do passado permanecia. Após o fracasso do evento de cinco anos da empresa, alguns clientes influentes haviam rompido contratos — nomes importantes para a expansão internacional do Studio. Durante muito tempo, Cássio acreditara que tê-los conquistado fora resultado de seu próprio mérito, somado ao apoio de Silvia. Agora sabia a verdade. Foram os ex-sogros que intercederam por ele.
Isso agora era apenas mais uma perda. Uma grande perda.
Ainda assim, precisava acreditar que a coleção Inércia teria boa aceitação.
Precisava trazer novos clientes, nova repercussão — um novo fôlego para algo que parecia prestes a ruir.
Ao menos, com o acordo finalmente fechado, poderia retomar a produção das coleções anteriores, que ainda sustentavam uma demanda sólida e constante.
Restava menos de uma hora até o lançamento.
Cássio percorreu o salão com um olhar rápido e automático, trocou poucas palavras com a responsável pela organização e seguiu apressado em direção à sala de Riviera. Não se despediu de Silvia — não por descaso consciente, mas porque, simplesmente, ela não lhe ocorreu.
O advogado se levantou assim que o viu entrar.
— Bom dia — Cássio disse, sem esperar resposta. — A transferência já foi feita?
— O Sampaio deve estar no banco neste momento — respondeu Riviera. — Está resolvendo tudo com a procuração que assinamos.
— Certo. — Cássio assentiu. — Me avise assim que estiver concluído.
— Sim, senhor.
Ele não se deteve. Deixou a sala do advogado e seguiu direto para a sua. No caminho, deu de cara com Renato.
Por causa do curativo no rosto, Cássio não poderia conduzir a apresentação. Pediu, então, que Riviera tentasse convencer Renato a ocupar o seu lugar. Sabia que não era o cenário ideal, mas, diante de tudo era a melhor alternativa.
No meio do caos que atravessava, a ausência de Renato doía mais do que ele admitia. A amizade do amigo fazia falta. Muita.
— Obrigado por ter vindo. — Respirou fundo. — Eu sei que não tenho sido o melhor amigo ultimamente… — fez uma pausa, sincera. — Será que a gente pode conversar?
O pedido não era apenas sobre o evento. Era sobre tudo o que havia se quebrado no caminho.
No fundo, apesar de tudo o que Cássio havia feito, Renato ainda acreditava que o amigo não fosse um homem mau. Apenas alguém que se perdera no próprio caminho.
— Certo — respondeu, após alguns segundos. — Mas precisa ser rápido.
Cássio assentiu, aliviado, e os dois seguiram juntos até a presidência.
Já na sala, Cássio sentou-se atrás da mesa e indicou a cadeira à frente.
— Aceita beber alguma coisa? — tentou quebrar o peso do silêncio.
— Não, obrigado — Renato recusou, seco.
Cássio entrelaçou as mãos sobre a mesa, respirou fundo.
— Eu sei que fui grosseiro com você — disse, enfim. — Quando, na verdade, tudo o que você fazia era tentar me ajudar. Eu só consigo ver isso agora. — ergueu o olhar. — Me desculpa?
Renato inspirou profundamente antes de responder.
— Você mudou muito, Cássio. — A voz saiu controlada, mas firme. — A ponto de quase não te reconhecer mais. Primeiro, o que fez com a Helena… sua própria esposa. E depois… — fez uma pausa breve — tudo o que nos deixou fazer com ela, baseados na imagem distorcida que você nos passou.
Ouvir aquilo em voz alta pesou mais do que o reconhecimento que já havia feito de seus erros. Cássio engoliu em seco.
— Eu sei. — Admitiu. — E isso me custou o amor dela. — Desviou o olhar. — Mas não há como voltar atrás agora. Não dá pra consertar.
— Não, não dá — concordou Renato, sem suavizar. — Mas você podia, ao menos, desistir da insanidade de enfrentá-la judicialmente pela autoria do trabalho dela. Isso é loucura.
— Eu já desisti. — Cássio suspirou, exausto. — Na verdade, eu não tive escolha. Fiz um acordo com ela ontem.
Renato arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Sério? — ponderou por um instante. — Mas como assim não teve escolha?
— Ela tinha provas suficientes. Muitas. — respondeu Cássio. — Se eu insistisse, seria o fim da empresa.


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