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Quadros de um divórcio romance Capítulo 215

“O que foi feito não pode ser desfeito, apenas carregado.” William Shakespeare

Cássio se preparava para retornar à feira naquela manhã de quinta. Silvia alegara não estar bem o suficiente para acompanhá-lo.

— É melhor ficar em casa mesmo — comentou ele, ajustando a gravata diante do espelho. — Já ajuda a se desligar do trabalho… e a se acostumar com a rotina de mãe que logo vai ter que assumir.

Silvia estava longe demais para se irritar. As palavras passaram por ela sem se fixar, como um ruído distante. Mal as escutou. Seu corpo estava ali, imóvel, mas a mente permanecia em outro lugar.

Ele se aproximou da cama e depositou um beijo breve e frio em sua testa antes de sair. Silvia o acompanhou com o olhar até que ele desaparecesse por completo do seu campo de visão.

Não dormira um segundo sequer naquela noite. A imagem de Márcio largado no chão da antiga casa de seus pais em uma poça de sangue se repetia como um castigo incessante. Não podia deixá-lo lá indefinidamente — assim como não podia desfazer o que havia feito. Com o passar do tempo, o corpo começaria a se decompor, e o cheiro atrairia a atenção que ela mais temia.

Levantou-se e foi até a janela, certificando-se de que Cássio realmente havia partido. Viu o carro se afastar rua abaixo e só então respirou fundo, como se aquele movimento lhe concedesse uma permissão silenciosa.

Pegou o celular e ligou para a companhia de água, solicitando o religamento do abastecimento. Precisaria limpar o lugar. A resposta veio rápida e impessoal: até setenta e duas horas, devido à alta demanda. Setenta e duas horas era um luxo que ela não possuía. Agradeceu e encerrou a ligação, descartando a possibilidade.

A constatação veio crua: teria que lidar com aquilo sozinha.

Pensou, por um instante, em Dante. Se pedisse ajuda, ele resolveria tudo de forma simples e definitiva — não seria a primeira vez dele se livrando de um corpo.

Mas ele provavelmente a deixaria pior do que ela havia deixado Márcio se soubesse o que fizera.

Por trás de todas as estratégias, havia uma verdade que se recusava a encarar: ela havia matado alguém. E não qualquer pessoa. Talvez o único homem que, em toda a sua vida, realmente a tivesse amado.

E isso não havia plano capaz de apagar.

Foi até o closet em busca de algo discreto. Vestiu uma legging preta e uma camiseta justa do mesmo tom. Procurou um calçado que pudesse descartar depois e encontrou um tênis antigo, que não usava há muito tempo.

Prendeu o cabelo, que já ultrapassava os ombros, em um rabo baixo. Ainda assim, sentiu que faltava algo. O olhar vagou até o lado do closet onde Cássio costumava guardar suas coisas. O canto do espaço estava bagunçado, como se tivesse sido revirado às pressas. Não se deteve nisso. Pegou um moletom escuro que nunca o vira usar e vestiu-o.

Diante do espelho, mal se reconheceu — e isso lhe pareceu uma vantagem. Estava distante das roupas que costumava ostentar. Sem maquiagem, sem adornos. Ninguém a reconheceria. E, se precisasse, poderia ainda puxar o capuz para esconder o rosto.

Desceu até a despensa da área de serviço e deu de cara com antigos materiais de pintura esquecidos nas prateleiras. A raiva ameaçou emergir, mas não teve tempo de se instalar. Havia coisas mais urgentes a resolver.

Forçou o foco no que precisava fazer. Reuniu o que julgou necessário: água sanitária, alvejante, um par de luvas, uma escova, vários panos e colocou tudo em um saco grande de lixo. Não era muito, mas teria que bastar.

Quando se virou para sair, algo a fez hesitar. Uma pasta de metal repousava encostada no fundo do cômodo. Reconheceu o modelo no mesmo instante — já vira malas iguais mais vezes do que gostaria de lembrar, sempre no esconderijo de Dante.

Sentiu um leve aperto no estômago.

Afastou o pensamento quase com violência. Devia ser apenas coincidência. Não podia se dar ao luxo de criar novos fantasmas agora.

Ao retornar à sala, estacou. A empregada acabara de entrar pela porta da cozinha.

O choque foi mútuo. A funcionária estava acostumada a ver a nova patroa sempre impecável, envolta em roupas elegantes e chamativas. Jamais imaginara encontrá-la daquele jeito — simples demais, sem maquiagem alguma, segurando um saco de lixo.

— Senhora Moretti… — começou, apreensiva. — O que a senhora está fazendo? Posso ajudar?

— Não. — Silvia foi rápida, cortante. — Só estou tirando o lixo.

A empregada se adiantou, pronta para pegar o saco.

— Deixa que eu faço isso, senhora Moretti.

Silvia colocou o saco atrás do corpo, num gesto defensivo.

— Não precisa. E me chame de senhora Amaral — corrigiu, ríspida.

— Sim, senhora — respondeu a empregada, baixando a cabeça. — Desculpe.

— Vou sair para fazer exercícios — completou Silvia, já pegando um molho de chaves aparentemente antigas que a funcionária nunca vira antes e uma carteira pequena. Nenhuma bolsa.

E saiu, encerrando a conversa sem espaço para réplica.

A empregada permaneceu parada por alguns segundos, confusa. Havia recolhido todo o lixo da casa no dia anterior. Então… que lixo era aquele?

Por um instante, sentiu saudade da antiga patroa. Era mais tranquila. Mais gentil. Mas afastou o pensamento rapidamente. Era paga para trabalhar — não para se afeiçoar, nem para fazer perguntas.

E algumas respostas, ela intuía, era melhor mesmo não ter.

...

Capítulo 215 - Moldura ausente 1

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