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Quadros de um divórcio romance Capítulo 148

“Montar um quebra-cabeças faltando peças e tentar consertar uma vida errada é a mesma coisa.”

Assim que Pedro estacionou em frente à galeria para deixar Santiago, o celular de Helena vibrou no silêncio do carro.

Uma notificação do aplicativo do banco.

“Você acabou de receber uma transferência no valor de noventa milhões de reais.”

Ela leu uma vez. Depois outra.

Não sentiu euforia. Nem surpresa. O que veio foi algo mais raro: alívio. Não pelo dinheiro em si, mas pelo ponto final. Estava feito. Aquilo, enfim, pertencia ao passado.

Santiago percebeu a mudança em seu semblante e, ao acompanhar o olhar dela até a tela, entendeu.

Aquilo não chegava nem perto do que ela merecia, mas pelo menos agora nada mais a ligava ao passado.

Ele a puxou para si, envolvendo-a num abraço firme, protetor.

— Pronta pra começarmos esse novo capítulo… agora sem amarras?

Helena sorriu, um sorriso inteiro, tranquilo.

— Ansiosa.

Santiago beijou-lhe a testa com ternura.

— Então, até mais tarde.

Antes de sair do carro, ainda lançou um olhar pelo retrovisor para Pedro.

— Cuide bem dos meus tesouros.

Pedro respondeu sem hesitar, com um meio sorriso confiante:

— Deixa comigo, chefe.

...

As portas de vidro da recepção se abriram pontualmente às dez horas.

O primeiro grupo a entrar foi composto por jornalistas especializados em design e arquitetura, seguidos por alguns clientes estratégicos. Não houve música alta, nem discursos iniciais. Apenas o som contido de passos ecoando sobre o piso polido e o breve silêncio de quem percebe, instintivamente, que precisa ajustar o olhar.

O salão estava irreconhecível.

A coleção Inércia ocupava o espaço de forma calculada, organizada em módulos rigorosamente ortogonais. Nenhuma peça parecia convidar ao toque. Nada sugeria acolhimento. Os móveis não se ofereciam — se impunham pela presença controlada.

A primeira reação não foi emoção. Foi pausa.

Os visitantes desaceleraram sem perceber, como se o ambiente exigisse um ritmo próprio. Outros avançaram lentamente, analisando volumes, proporções, distâncias. O interesse era evidente, mas contido — mais intelectual do que sensorial.

Os sofás apresentavam linhas retas e baixas, com estofamentos em tons de grafite absolutamente lisos, sem costuras decorativas, sem marcas visíveis de intervenção humana. Pareciam suspensos poucos centímetros acima do chão, sustentados por apoios recuados que criavam a ilusão de flutuação.

Poltronas de ângulos rígidos ocupavam posições estratégicas, quase como elementos arquitetônicos. Não convidavam ao repouso prolongado — ofereciam função, não conforto emocional. A ergonomia existia, mas não era celebrada.

As mesas de centro eram blocos geométricos precisos: vidro temperado sobre bases metálicas negras e ocas com superfícies frias.

As estantes e aparadores seguiam a mesma lógica: madeira envernizada em acabamento contínuo, sem veios aparentes, sem calor. Cinza cimento, preto fosco. Estrutura antes de linguagem. Forma antes de discurso.

A iluminação era técnica, precisa. Luz branca neutra incidia diretamente sobre planos e arestas, desenhando sombras exatas, sem dramatização. O objetivo não era criar atmosfera, mas revelar geometria.

O design seguia o mesmo para a linha quarto e também cozinha.

Era atraente. Era interessante. Mas não buscava comoção.

E isso, para muitos dos presentes, era exatamente o que a tornava impossível de ignorar.

Alguns jornalistas trocaram olhares rápidos. Anotações começaram a surgir em blocos discretos.

— Minimalismo estrutural, murmurou alguém.

— Design de permanência, comentou outro, em voz baixa.

Inércia não falava de origem, nem de processo, nem de mãos que criam. Falava de continuidade sem impulso. De um estado onde tudo permanece funcional, íntegro, intacto — mas emocionalmente suspenso.

O lançamento também acontecia em tempo real nas redes sociais da empresa, transmitido com enquadramentos precisos e edição limpa. Da sala da presidência, Cássio acompanhava tudo em silêncio, atento a cada detalhe.

No salão, Renato subiu na plataforma baixa dos móveis. Sua presença era funcional, quase neutra — como se fizesse parte da estrutura.

Ao lado, Silvia mantinha a postura impecável, elegante na medida exata, acompanhada pela equipe de criação.

Ela sentia, enfim, que estava exatamente onde deveria estar: sob os holofotes.

Mesmo sem Cássio ao seu lado naquele momento, sua imagem permanecia — firme, visível, estrategicamente posicionada. Aquilo bastava por ora.

Em breve, o anúncio do casamento viria. E quando viesse, selaria não apenas uma união, mas a consolidação definitiva do lugar que ela acreditava ter conquistado.

Renato aguardou o burburinho diminuir e então começou, a voz firme, medida:

— Bom dia a todos. É um prazer recebê-los aqui no Studio Cassiani.

Fez uma breve pausa, estratégica.

— Antes de falarmos sobre o que nos reúne hoje, gostaria de justificar a ausência do senhor Cássio Amaral. Por recomendação médica, ele precisou se afastar das atividades presenciais neste momento, mas acompanha tudo de perto e pediu que eu transmitisse pessoalmente seus agradecimentos pela presença de cada um de vocês.

Alguns acenos discretos surgiram entre os convidados.

— Hoje apresentamos a coleção Inércia. Um trabalho que parte de um conceito claro: a permanência. Não o movimento, não a narrativa emocional, mas aquilo que permanece quando tudo ao redor muda.

Renato caminhou alguns passos entre os móveis, permitindo que os olhares o acompanhassem.

— Inércia é forma sem afeto. Estrutura sem discurso. São peças que não pedem atenção — elas impõem presença. Linhas ortogonais, materiais industriais, superfícies precisas. Uma estética racional, pensada para dialogar com ambientes contemporâneos onde o design não explica: sustenta.

Capítulo 148 - Paleta fria 1

Capítulo 148 - Paleta fria 2

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