“Lamentar uma dor passada no presente é criar outra dor e sofrer novamente.” William Shakespeare
Na manhã de sexta-feira, Pedro aguardava do lado de fora, atento ao movimento tranquilo do bairro enquanto observava algumas crianças brincarem na rua. O olhar experiente varria o entorno quase por instinto, mesmo naquele cenário pacífico.
Quando Helena e Santiago finalmente surgiram, algo neles parecia diferente. Mais leves. Mais felizes.
— A privacidade parece ter feito milagres com vocês — provocou ele, com um meio sorriso.
Santiago respondeu antes que Helena pudesse abrir a boca:
— Melhor não provocar enquanto ela ainda está com fome.
Pedro riu baixo, contornando o carro.
Marcelo já havia seguido para a agência mais cedo, levando Mabe consigo.
— Onde querem tomar café? — perguntou, já abrindo a porta.
Helena nem precisou pensar.
— Que tal a padaria da esquina? O croissant de lá é simplesmente perfeito… — disse, com um entusiasmo quase infantil.
Santiago sorriu da empolgação dela.
Como o caminho era curto, chegaram rápido e logo estavam acomodados em uma das mesas do pequeno estabelecimento.
Helena mordia seu pãozinho folhado em formato de meia-lua, com um copo generoso de suco ao lado. Santiago havia acompanhado a escolha dela, trocando apenas a bebida por um café preto bem forte, enquanto Pedro se contentava com um pingado e um misto quente.
— Ansiosa por hoje? — perguntou o segurança, entre um gole e outro.
Helena pensou por um instante enquanto terminava de mastigar.
— Acredita que não muito? — respondeu, um pouco surpresa com a própria calma.
E era verdade. Ela confiava no próprio trabalho. E, acima de tudo, confiava em Orsini. Se ele apostara nela, era porque também acreditava no trabalho dela.
Pedro arqueou uma sobrancelha.
— O Marcelo confirmou, com um dos infiltrados, que a nova coleção do Studio Cassiani também vai ser lançada hoje. — Deu um meio sorriso torto. — Queria só ver a cara daquele babaca quando descobrir.
— Lá ele! — Helena riu. — Sempre tão sério… nunca imaginei que fosse intrigueiro assim.
Santiago também achou graça.
— Acho que, no fundo, ele se parece muito mais com a Lívia do que deixa transparecer.
— Ah, pronto! — Pedro revidou de imediato, fingindo indignação. — Quando foi que o assunto virou pra cima de mim?
Os três riram juntos e seguiram com o café em um clima leve e descontraído.
…
Cássio acordou antes mesmo de o despertador tocar. O corpo ainda reclamava aqui e ali, mas a dor já não era tão intensa quanto nos dias anteriores. Sentia-se, ao menos fisicamente, um pouco mais descansado. O outro lado da cama já estava vazio.
Arrastou-se até o banheiro e encarou o próprio reflexo no espelho. Os hematomas insistiam em permanecer, marcando o rosto em tons que iam do roxo ao amarelado. O médico fora claro: o curativo deveria permanecer por pelo menos uma semana. Ainda assim, ao ver a micropore já escurecida, decidiu que passaria no consultório para trocá-la.
Tomou um banho demorado. A água morna escorrendo pelo corpo ajudava a aliviar a tensão acumulada nos músculos. Aproveitou para aparar a barba, que começava a lhe dar um ar descuidado demais para o dia que teria pela frente.
No guarda-roupa, escolheu um de seus melhores ternos — um azul profundo, presente de Helena. A lembrança veio automática, mas ele a empurrou para algum canto da mente. Completou com uma gravata vinho e sapatos marrons de bico levemente mais escuro.
Se não fosse pela micropore atravessando o centro do rosto e pelos hematomas ainda visíveis, refletiria no espelho o mesmo homem imponente de antes.
Na cozinha, Silvia já estava de pé. Vestia um tubinho midi de renda branca, delicado demais para quem sempre apostara em cores vibrantes, sensuais, quase provocativas. Havia algo diferente nela. Talvez fosse a gravidez despertando um lado mais suave, pensou.
O vestido moldava-lhe o corpo e, mesmo de forma discreta, já deixava perceber uma leve saliência no ventre.
Cássio observou por alguns segundos a cena sentindo que, apesar de seguir adiante, nada parecer estar realmente no lugar.
Silvia se movia entre a cafeteira e a bancada. Tudo estava correto demais. O vestido claro, o cabelo arrumado, o cheiro doce que não lhe despertava nada além de uma vaga sensação de deslocamento.
Era isso que o incomodava.
Ela lhe estendeu um sanduíche natural, e ele aceitou sem resistência.
— Vou subir só para escovar os dentes e a gente pode ir junto para a empresa — disse ela, já se afastando.
— Eu não vou direto — respondeu Cássio. — Preciso passar na clínica antes, trocar o curativo.
— Ah! Então eu vou com você! — veio a resposta imediata, quase alegre demais.
Ele chegou a pensar em recusar. A ideia de tê-la ao lado naquele momento lhe parecia excessiva, invasiva até. Mas desistiu antes mesmo de abrir a boca. De que adiantaria? Em breve ela seria sua esposa. Resistir só tornaria tudo mais cansativo. Talvez fosse mais simples — e menos doloroso — aceitar aquilo de uma vez.
Quando chegaram à clínica, o médico ainda estava em atendimento. Cássio e Silvia se acomodaram na longarina do corredor, lado a lado. Ela se pendurou em seu braço, o corpo levemente inclinado para o dele, fazendo questão de ocupar aquele espaço.
Para qualquer um que passasse por ali, a cena era inequívoca: um casal. Uma esposa zelosa, paciente, presente ao lado do marido ferido. A imagem perfeita.
Por dentro, porém, Cássio sentia o peso daquele teatro. O contato dela, antes quase indiferente, agora parecia excessivo, um lembrete constante da vida que estava sendo empurrado a aceitar. Ele manteve o olhar fixo à frente, observando o vai-e-vem de pessoas no corredor, tentando não pensar no quanto aquela proximidade lhe parecia… errada.
Foi então que alguém, seguindo em direção à ala de obstetrícia, capturou sua atenção.
Cássio franziu o cenho, o coração dando um solavanco inesperado.
“Não podia ser... Podia?”
O corpo reagiu antes da razão. Endireitou-se na cadeira, os dedos se fechando levemente no tecido da calça. A silhueta era inconfundível, o cabelo tom de terra, até o perfume que a ar do ventilador levou até ele. Mesmo de costas, havia algo nela que ele reconheceria em qualquer lugar.
Engoliu em seco.
— Cássio? — Silvia percebeu sua mudança súbita, apertando um pouco mais seu braço. — Aconteceu alguma coisa?
Ele não respondeu. Os olhos permaneceram fixos naquela figura que avançava pelo corredor com aquele homem a seu lado, cada passo ecoando dentro dele como um aviso tardio.
Quando a mulher virou levemente o rosto para falar com a recepcionista da obstetrícia, não restou mais dúvida alguma.
Era ela.

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