“O verdadeiro horror da vida está em não compreender o que nos acontece.” Albert Camus
A delegacia despertava em Cássio uma sensação contraditória, quase sufocante. Parte dele temia que algo grave tivesse acontecido com Helena. Outra parte — menos nobre — receava que finalmente tivessem encontrado alguma prova contra si. Fosse pela tentativa inconsequente de sequestro, fosse por qualquer rastro que o ligasse a Dante, aquele homem nebuloso que ele ainda não sabia direito quem era e nem no que estava metido.
Atendeu à convocação do policial imediatamente. Agora aguardava na sala de espera, ao lado de Riviera. O advogado aproveitara o trajeto para informá-lo de que o dinheiro retirado do caixa da empresa havia sido reposto conforme solicitado. Tecnicamente, o problema estava resolvido. Ainda assim, Cássio tinha a estranha sensação de que aquele acerto cobraria um preço que ele ainda não conseguia mensurar.
Pouco depois, um policial surgiu no corredor.
— Senhor Amaral, o doutor Augusto já o aguarda.
Cássio se levantou junto com Riviera e seguiu o agente até a sala do delegado. Assim que entraram, Augusto fez um gesto breve para que se sentassem.
O delegado observou os dois por alguns segundos antes de falar. Mesmo diante de uma convocação informal, Cássio fizera questão de levar um advogado. Aquilo dizia muito. Embora, o fato de ter atendido ao chamado com tanta rapidez também era um ponto a seu favor. Muitas das pistas envolvendo os atentados contra Helena tangenciavam a empresa daquele homem — mas, ainda assim, nada se encaixava de forma definitiva.
Depois de tantos anos de serviço, Augusto confiava no próprio instinto. E, naquele momento, o instinto falhava.
Cássio não lhe parecia um criminoso. Mas havia algo nele que não se deixava ler.
— Senhor Amaral, agradeço por ter vindo tão rápido.
— Claro, doutor. — respondeu Cássio. — Em que posso ajudar? Aconteceu alguma coisa?
Augusto não rodeou.
— Infelizmente, sim. Seu ex-funcionário que estava foragido… voltou.
O delegado manteve o olhar fixo em Cássio, atento à menor reação.
— Ele fez mais alguma coisa contra a Helena? — perguntou o empresário, sem conseguir esconder a tensão.
Augusto percebeu algo além da surpresa. Havia preocupação real ali.
— Não. Pelo menos, não até agora.
Riviera inclinou-se levemente para a frente.
— O senhor quer que verifiquemos se houve algum contato recente dele com a empresa?
— Na verdade — disse Augusto —, eu o chamei aqui para esclarecer outra coisa. O senhor mantém, de fato, sua alegação de que não tem qualquer ligação com esse sujeito?
Cássio endureceu.
— Como já disse antes, não o conheço. Temos muitos funcionários. É impossível conhecer todos. Acreditei que isso já estivesse esclarecido.
Augusto respirou fundo e decidiu ser direto.
— Ontem, encontramos uma moto abandonada nas proximidades do pavilhão da São Paulo Expo. Após verificação, confirmamos que se tratava do veículo que estava sendo utilizado por Márcio Ferraz durante a fuga.
Fez uma breve pausa.
— Solicitamos a análise das câmeras da região. Descobrimos que ele chegou ao local logo atrás do carro do senhor. Ao refazermos o trajeto, constatamos que ele vinha seguindo seu veículo por um longo percurso.
Um frio subiu pela espinha de Cássio. Ele sequer conhecia aquele homem. Então por quê?
— O senhor entrou no edifício-garagem — continuou Augusto — e ele abandonou a moto pouco depois. Ainda não conseguimos determinar quais foram seus passos a seguir.
— Está dizendo que eu possa ser o alvo agora? — perguntou Cássio, genuinamente confuso.
Augusto entrelaçou os dedos sobre a mesa.
— Ainda não posso afirmar isso. Mas o senhor há de concordar que a situação é, no mínimo, inquietante. Um homem que atentou contra a vida da sua ex-esposa… agora seguindo o seu carro.
O silêncio que se instalou não era apenas protocolar. Era denso.
— Isso é uma pena. — o delegado concluiu, recostando-se na cadeira. — Pensei que o senhor pudesse ter alguma informação que nos ajudasse a localizar o paradeiro dele. Sendo assim, estão dispensados. Agradeço o tempo de vocês.
Cássio assentiu em silêncio e se levantou, já pronto para sair da sala. Mas a voz de Augusto o deteve a meio caminho.
— E, senhor Amaral… — disse o delegado, agora num tom menos formal. — Como ainda não sabemos o que esse homem realmente quer, nem quais são suas motivações, recomendo que seja mais cuidadoso.
— Obrigado, doutor. Vou fazer isso. — respondeu Cássio, educado demais para quem sentia o chão se mover sob os pés.
O trajeto de volta até a feira transcorreu em silêncio. Dentro do carro, o ruído da cidade parecia distante demais para competir com o turbilhão de pensamentos que se atropelavam na cabeça de Cássio.
Dante surgira em sua vida de forma abrupta, quase providencial — um salvador improvável no momento exato em que havia feito uma merda grande demais para limpar sozinho. Na época, Cássio não se permitira questionar demais.
Mas agora, com as peças começando a se encaixar, a pergunta que evitara desde o início finalmente se impunha: por quê?
Dispor de uma quantia absurda como aquela em troca do controle de um setor específico da empresa — justamente a logística — não podia ser apenas uma negociação. Logística significava rotas. Entradas. Saídas. Entregas. Significava fluxo invisível.
— Merda… — escapou-lhe num murmúrio rouco, quase sem perceber que falara em voz alta.
Riviera se sobressaltou no banco ao lado.
— Aconteceu alguma coisa, senhor?
Cássio demorou um segundo a mais antes de responder, recompondo o rosto, engolindo a conclusão que se formava com clareza assustadora.
— Não é nada. — Mentiu, seco. — Só cansaço.
Mas não era.
As coisas já estavam claras demais. Claras a ponto de não poderem mais ser ignoradas. E, pela primeira vez desde que aceitara o acordo, Cássio compreendeu que talvez não tivesse entregue apenas uma parte da empresa.
Talvez tivesse aberto a porta certa… para a coisa errada.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio
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