“Algumas ausências se repetem até se tornarem forma.” Virginia Woolf
A quinta-feira começou estranhamente tranquila no bairro antigo, embora a ameaça aparentemente tenha retornado.
Helena optara por ficar em casa. No primeiro dia da feira já havia cumprido seu papel; agora, a equipe conseguiria conduzir os próximos passos sozinha. Ela só precisaria retornar no sábado, último dia do evento, quando fora convidada, em nome da empresa, a subir ao pequeno palco de apresentações para dizer algumas palavras.
Convencer Santiago a ir trabalhar não fora simples. Exigiu conversa, paciência, promessas repetidas de que ficaria bem sozinha. Bem… não exatamente sozinha. Mabe estava com ela, circulando pela casa com o rabo abanando. E Pedro permaneceria atento do sobrado vizinho, próximo o bastante para que se algo quebrasse aquela calmaria, ela não estivesse desamparada.
— Qualquer coisa, me liga. Por favor. — pediu Santiago antes de se inclinar e depositar um beijo terno em seus lábios. Acariciou-lhe o rosto com o polegar, como se quisesse memorizar aquele instante, e só então deixou a casa, ainda visivelmente relutante.
Marcelo já o aguardava do lado de fora, encostado no carro, atento como sempre.
— Ela vai ficar bem — disse, em tom firme, mais para ancorar o amigo do que por absoluta certeza.
Santiago assentiu, embora a preocupação não se dissipasse. Haviam combinado de passar na delegacia antes de qualquer outro compromisso, tentar sondar o andamento da investigação, arrancar alguma clareza daquele emaranhado que parecia nunca se fechar.
— Vamos? — perguntou o galerista.
Marcelo respondeu apenas com um aceno e deu a volta em seu carro. Santiago entrou em seu próprio veículo e seguiu o amigo até a DP.
…
O delegado Augusto Faria os recebeu com a mesma expressão carregada de antes — um misto de cansaço e irritação mal contida. A gravata frouxa, as mangas da camisa arregaçadas, o café já frio esquecido sobre a mesa.
— Esse sujeito… — começou, passando a mão pelo rosto. — Márcio Ferraz virou uma sombra. Sempre um passo à frente, sempre fora do alcance. Brinca de gato e rato como se estivesse se divertindo.
Santiago sentiu o estômago se contrair.
— Vocês têm alguma pista concreta?
Augusto soltou um riso curto, sem humor.
— Temos rastros. A moto abandonada, nomes falsos em cidades pequenas. Mas nada sólido o bastante para saber seu paradeiro. Ele sabe se apagar. E isso é o que mais me incomoda.
Marcelo cruzou os braços, o olhar atento.
— Ele ainda é considerado perigoso?
O delegado não hesitou:
— Extremamente. Quando alguém chega a esse ponto e não tem mais nada a perder, qualquer coisa vira possibilidade.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Santiago pensou em Helena, sozinha em casa, tentando recuperar uma rotina que insistia em não ser mais tranquila.
— Tem alguma coisa que possamos fazer? — insistiu o galerista, a inquietação transbordando apesar do esforço em manter a voz controlada.
O delegado balançou a cabeça, firme.
— Não. Vocês são civis. Não devem se envolver. — Fez uma pausa breve, depois completou, mais técnico: — Já redistribuímos a imagem dele para todas as comarcas da região. Ele tentou despistar, pintou o cabelo, mudou o visual… mas usamos IA para gerar novas projeções a partir do relato do dono da pensão onde ele esteve hospedado por último. Temos versões atualizadas do rosto dele circulando agora.
Santiago sentiu um nó se formar no peito. Aquela frieza operacional contrastava demais com o impacto real que aquele homem já causara em suas vidas.
— Então é só uma questão de tempo?
— É o que esperamos — respondeu o delegado, sem prometer mais do que podia cumprir.
Após deixarem a delegacia, ainda no pátio externo, Santiago sentiu a frustração subir como um refluxo amargo. Os punhos se fecharam sozinhos, os ombros rígidos, o corpo pedindo algum tipo de descarga — qualquer coisa que o livrasse daquela impotência.
— Você precisa se acalmar — aconselhou Marcelo, atento demais para não notar a tensão quase física no amigo.
— Como? — Santiago rebateu, passando a mão pelo cabelo. — Eles nunca chegam à solução nenhuma. É sempre tempo, procedimento, aguardar…
— Eles não têm só esse caso para lidar — Marcelo respondeu com cautela, escolhendo as palavras. — A polícia funciona em outra escala. Fria. Lenta.
Santiago parou de andar e o encarou.
— Então a gente fica de braços cruzados esperando o pior acontecer?
Marcelo sustentou o olhar por um instante mais longo. Havia ali um limite ético que ele conhecia bem — e uma linha que já tinha atravessado outras vezes. Respirou fundo antes de falar:
— Eu tenho um contato que trabalha com as câmeras de segurança da cidade. — Fez uma pausa, medindo a reação do amigo. — Ele me deve um favor. Posso cobrar.
Santiago sentiu o peito apertar, mas agora por outra razão — uma faísca de possibilidade.
— O que exatamente ele conseguiria?
— Cruzar imagens — explicou Marcelo, já pensando em voz alta. — Rotas, horários. Nada oficial.
Santiago pensou em Helena sozinha em casa, na falsa calmaria daquela manhã, no sorriso dela tentando tranquilizá-lo.
— Faz isso — disse, sem hesitar. — Qualquer coisa é melhor do que ficar esperando.
Santiago fitou o amigo de longa data por um instante mais demorado, como se só então conseguisse organizar o que sentia.
— Obrigado. De verdade. — A voz saiu mais baixa do que pretendia. — Se não fosse você, eu já estaria enlouquecendo.
Ela não avançava.
Os pés permaneciam plantados no mesmo lugar, mas o chão sob eles apresentava desgaste, como se tivesse sido habitado por tempo demais. Pequenas fissuras se espalhavam a partir dali, finas, quase imperceptíveis — rachaduras causadas não por impacto, mas por permanência.
No céu — se é que aquilo podia ser chamado de céu — não havia sol nem nuvens. Apenas uma luminosidade uniforme, sem drama. A luz não mudava conforme o homem se afastava. Não reagia à solidão dela.
Nada reagia.
O último detalhe era quase invisível: a sombra da mulher se projetava à frente, na mesma direção das figuras masculinas. Mesmo parada, até sua sombra parecia querer ir embora.
A pintura não falava de um término.
Falava de ser deixada para trás repetidamente, dia após dia, no mesmo gesto banal.
O celular de Helena tocou no exato momento em que sua barriga protestava de fome. Ao lado dela, Mabe latiu em concordância, como se compartilhasse da mesma urgência.
— Desculpa, garota… acho que me empolguei — murmurou Helena, com um meio sorriso.
Deixou os materiais de lado e pegou o celular sobre a mesa atrás de si. Percebeu que era Santiago ligando. Notou também que já passava das duas da tarde. Atendeu.
— Oi, amor!
— Oi! Já comeu?
— Vou fazer isso agora — tentou amenizar.
— E vai comer o quê? — ele perguntou, divertido, já prevendo a resposta.
— Hmmm… ainda não sei — ela riu, rendida.
— Sorte sua que o Pedro me avisou que você está nesse quintal desde que terminou o treino. Já pedi para entregarem algo aí pra vocês comerem. Deve chegar daqui a pouco.
— O que seria de mim sem você? — Ela fez uma breve pausa. — E você, já comeu?
— Sim! Como eu vou cuidar de você se não me alimentar direito?
— Bobo… obrigada. Te amo.
— Eu que te amo — respondeu ele, antes de desligar.
Helena voltou o olhar para a tela. Sentiu, com nitidez, o contraste entre a presença cuidadosa que agora a cercava e o esgotamento de quem, um dia, ficou tempo demais acreditando que o próximo passo do outro seria, finalmente, um retorno.

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