“Sinto um vazio dentro de mim, uma coisa que não sei como explicar, é tipo um vazio que "preenche" toda minha alma, uma coisa que parece que vai explodir a qualquer hora…”
Cássio assistia à transmissão sem piscar.
A câmera passeava pelo showroom com movimentos lentos, quase cirúrgicos. Os móveis surgiam enquadrados com precisão excessiva — aço, vidro, linhas duras. Nada fora do lugar. Nada vivo demais.
Era bonito.
Era eficiente.
Era… vazio.
Ele reconhecia aquilo. Reconhecia demais.
Para ele, inércia não era um conceito, era um estado.
Viu Renato falar. As palavras corretas. O tom exato. As desculpas ensaiadas pela ausência. Tudo sob controle.
Os comentários elogiosos surgiam na transmissão, mas que aquele sucesso não o salvava. Apenas o mantinha em pé.
Uma hora depois, a transmissão chegou ao fim. Cássio passou a alternar as abas do navegador com atenção quase obsessiva — redes sociais, portais de decoração, revistas especializadas em design de interiores para as quais a assessoria já havia enviado material, além dos relatórios de impulsionamento pago.
Os números respondiam bem. Melhor do que esperava.
Ligou para o setor de vendas, tentando manter a voz neutra ao perguntar se já havia movimentação. Havia. E não pouca. Alguns pedidos iniciais da nova coleção começavam a surgir, mas o que realmente chamava atenção era o retorno consistente das coleções anteriores.
Estava funcionando.
Contra tudo, estava funcionando.
Talvez por Renato ter explicado sua ausência como uma questão de saúde, o telefone permanecera em silêncio. Nenhum cliente pedira para falar diretamente com ele. Nenhuma cobrança, nenhuma curiosidade. E, surpreendentemente, aquilo soava como uma bênção.
O homem que sempre fizera questão de ocupar o centro do palco — na maioria das vezes vestindo méritos que nunca foram seus — agora preferia as sombras. Não apenas pelos hematomas ainda visíveis, mas pelo peso do constrangimento. Um incômodo surdo por tudo o que fizera… mesmo que, por enquanto, ninguém soubesse ainda.
O silêncio foi quebrado pelo celular vibrando sobre a mesa, exatamente no momento em que Renato entrava em sua sala. Cássio ergueu a mão, pedindo um instante ao amigo antes de atender.
Na tela, o nome do gerente da fábrica piscava insistente.
— Alô.
— Senhor Amaral, desculpe incomodar… — a voz do outro lado saiu cautelosa demais para ser um bom sinal. — Mas estamos com um problema aqui.
O peito de Cássio se contraiu.
— O que aconteceu?
Tudo vinha correndo bem demais para nada dar errado.
— Tem alguns policiais aqui na fábrica. Estão perguntando por um funcionário do setor de logística.
— E qual é o problema? — insistiu, tentando manter o tom neutro.
— Esse funcionário não apareceu para trabalhar. E também não conseguimos contato com ele antes para avisar sobre o retorno das atividades.
A confusão inicial deu lugar a um incômodo crescente. Polícia na fábrica não era algo simples — muito menos agora. Bastava um comentário fora do lugar, um vazamento mínimo, e o estrago estaria feito. Sem contar que a polícia já havia passado na própria empresa antes… atrás dele mesmo. Por causa do que quase fizera com Helena.
A lembrança veio como um soco baixo. O quase sequestro. A obsessão. A linha ultrapassada. O quanto havia se perdido tentando recuperar algo que já estava irremediavelmente fora de alcance. O estômago embrulhou.
Renato estava certo. Em tudo.
— Estou indo para aí — disse por fim, curto, antes de encerrar a chamada.
Ergueu o olhar para o amigo, com a sensação de que talvez nada mais naquele dia seguiria conforme o planejado.
— O que houve? — perguntou Renato, ao notar a preocupação evidente nos olhos de Cássio.
— Tem policiais na fábrica — respondeu ele, direto. — Ainda não sei o motivo, mas preciso ir para lá agora.
Renato ficou assustado. Polícia na fábrica nunca era um bom sinal.
— Eu vou com você.
Cássio assentiu, grato demais para verbalizar. Não queria enfrentar aquilo sozinho.
Atravessaram os departamentos em passos apressados, ignorando olhares curiosos e perguntas não feitas. O som dos próprios passos parecia alto demais no corredor. Ao chegarem à garagem, entraram no carro quase ao mesmo tempo.
Cássio nem esperou que as portas se fechassem por completo para instruir o motorista.
— Para a fábrica. Rápido.
Durante a viagem, Cássio permaneceu em silêncio, os olhos perdidos além do vidro do carro. Havia algo que ele vinha empurrando para o fundo da mente — um homem. Dante.
O pensamento surgiu como um arrepio tardio. Aquele homem surgira no momento exato em que seus erros ameaçavam transbordar, oferecendo soluções rápidas, silenciosas… eficientes demais. Ajudara a apagar rastros, a enterrar consequências. E então, simplesmente, desaparecera.

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