“Nem todo silêncio é vazio. Alguns estão cheios de futuro.”
Ao chegarem ao Studio Cassiani, Renato não subiu. Despediu-se ali mesmo e seguiu para a própria empresa, deixando Cássio com a estranha sensação de que, apesar de tudo, a distância entre eles começava enfim a diminuir.
Cássio passou o restante do dia recolhido em sua sala. Talvez pelo alívio momentâneo trazido pelos resultados positivos do retorno das operações, a fome — há dias esquecida — finalmente dera sinal de vida. Pediu que a assistente providenciasse um almoço tardio e comeu ali mesmo, sem pressa, observando relatórios e notificações surgirem na tela.
Os pedidos continuavam entrando. O ritmo era animador. A empresa respirava de novo.
Ainda assim, a cifra permanecia intacta em sua mente. Noventa milhões.
E, por mais promissor que o movimento parecesse, aquele número seguia ali — pesado, imóvel, longe de estar resolvido.
...
Helena equilibrava um prato de folhas verdes com frango grelhado enquanto comia ao lado dos colegas. Entre uma garfada e outra, todos mantinham os olhos atentos à impressora 3D, que, camada por camada, dava forma aos protótipos dos equipamentos vintage que haviam projetado.
Para ela, aquilo era melhor do que qualquer filme. Estar ali, cercada por uma equipe talentosa, com recursos, liberdade criativa e tantas possibilidades à disposição, não era apenas trabalho — era realização.
No fim da tarde, alguns dos equipamentos já repousavam sobre a grande mesa. As bases, impressas em filamento prateado, sustentavam corpos em um verde pinheiro profundo, enquanto as tampas transparentes simulavam vidro com um realismo impressionante. A precisão dos detalhes era quase incrível — linhas limpas, encaixes exatos, proporções impecáveis.
Eles discutiam possíveis ajustes quando a presença de Francesco Orsini se fez notar no setor.
— Vejo que estão adiantados — comentou, com um meio sorriso atento. — Está ficando muito bom.
Após cumprimenta-lo, os colaboradores abriram espaço para que ele e Helena pudessem conversar.
— Já definiram o material de fabricação? — perguntou Orsini, analisando de perto os protótipos sobre a mesa.
— Sim — respondeu Helena com segurança. — A estrutura será em aço inoxidável com pintura automotiva eletrostática. Os copos e tigelas, em vidro borossilicato.
Ele assentiu, visivelmente satisfeito.
— Perfeito. Mantém exatamente os princípios de qualidade da empresa. — Fez uma breve pausa antes de completar: — Eu sabia que tinha feito a escolha certa ao apostar em você.
Helena sorriu, mas balançou a cabeça em leve discordância.
— Obrigada, Francesco, mas não fiz nada disso sozinha. Você me entregou uma equipe extraordinária, além de uma estrutura e equipamentos que fazem toda a diferença. — Respirou fundo, sincera. — Na verdade, ainda nem sei como te agradecer por isso tudo.
O reconhecimento não soava como obrigação, mas como algo genuíno.
— Não se subestime, Helena — disse Orsini com naturalidade. — Você tem mais visão do que muitos engenheiros que conheço. E isso, somado ao seu bom gosto e à sua sensibilidade, faz toda a diferença.
Ela sentiu o elogio aquecer o peito e, ao mesmo tempo, ficou levemente sem graça. Sorriu, desviando o olhar por um instante.
— Pronta para hoje à noite? — ele perguntou.
— Um pouco apreensiva — admitiu. — Nunca participei de algo tão grande antes. Mas estou ansiosa também.
Orsini assentiu, compreendendo bem aquele misto de nervosismo e expectativa de estreia.
— Já deu tudo certo — garantiu, com convicção. — Confie nisso.
Helena concordou, visivelmente mais tranquila.
— Vou deixá-los trabalhar. Qualquer coisa, me avisem.
— Pode deixar — respondeu ela, despedindo-se enquanto ele se afastava, deixando no ar a sensação reconfortante de que estava exatamente onde deveria estar.
...
Quando o expediente terminou, Helena seguiu com Pedro até a galeria para buscar Santiago. Assim que a viu, ele abriu um sorriso largo — daqueles que só aparecem depois de um dia cansativo e da certeza de estar diante do que realmente importa.
— Como estão minha futura esposa e meu feijãozinho? — perguntou, envolvendo-a num abraço apertado, cheio de saudade acumulada.
Helena riu, encaixando-se perfeitamente nele.
— Futura esposa, é? — provocou, erguendo o rosto para encará-lo. — E esse futuro… está logo ali ou ainda vai demorar?
Santiago sorriu de canto, os olhos brilhando com algo que parecia mais promessa do que resposta. Preferiu o silêncio — às vezes, ele dizia mais do que qualquer palavra.
— Vamos pra casa — disse, desviando o assunto com suavidade, enquanto segurava a mão dela como quem já tinha decidido tudo.
Tomou um banho rápido e voltou para junto deles. Sentou-se no sofá, animada, contando à mãe e a Lívia cada detalhe da consulta daquela manhã. Consuelo ouvia com atenção absoluta, interrompendo vez ou outra para perguntar algo, enquanto Lívia sorria com aquele ar de tia coruja recém-promovida.
Do outro lado da sala, Santiago conversava com Rogério sobre negócios, trocando impressões e ideias em um tom descontraído. Era curioso como, mesmo em assuntos práticos, havia entre os dois uma cumplicidade recém-nascida, construída mais pelo respeito do que pelo tempo.
Marcelo lançou um olhar rápido para o relógio no pulso e pigarreou, chamando a atenção de todos.
— Está quase na hora — avisou.
Todos se acomodaram na sala. Alguém pegou o controle remoto e aumentou o volume da televisão a espera.
...
Cássio deixou a própria sala e cruzou os corredores silenciosos da empresa até a garagem. De longe, avistou Silvia conversando com o motorista. A cena o atingiu com uma estranheza imediata — um déjà-vu incômodo. A mente tentou, em vão, puxar algum fio de lembrança que explicasse aquela sensação, mas tudo o que encontrou foi o desconforto persistente, sem nome.
Silvia percebeu sua presença e se virou, já com o sorriso pronto.
— Está pronto para irmos?
Ele respondeu apenas com um aceno de cabeça e entrou no carro, acomodando-se no banco traseiro.
Durante o trajeto, Silvia falava animadamente sobre o lançamento, comentando números, repercussão, possibilidades. Cássio ouvia em silêncio, o olhar perdido além da janela, como se estivesse em outro lugar — distante demais para acompanhar qualquer entusiasmo.
Ao chegar em casa, Cassio tirou o paletó e a gravata, e deixou-se cair no sofá. Com um simples toque no controle, a televisão embutida surgiu lentamente do móvel. Nem se lembrava da última vez em que se permitira um gesto tão banal, tão entregue ao cansaço. Zapeou sem atenção por alguns canais até parar em um telejornal qualquer. Esticou as pernas, afundando no estofado, deixando o corpo ceder.
Silvia permaneceu de pé ao lado dele. A imagem de Cássio largado no sofá trouxe-lhe uma associação incômoda — para se parecer ainda mais com o pai, faltavam apenas as garrafas espalhadas pelo ambiente. Ela afastou o pensamento e falou:
— O que você quer comer? Estou cansada demais para cozinhar, mas posso pedir alguma coisa.
Ele não desviou os olhos da tela.
— Qualquer coisa pra mim está bom.
Ele ouvia o noticiário como quem escuta um ruído de fundo, palavras passando sem realmente se fixarem. A mente vagava, pesada, até que a vinheta de encerramento entrou no ar e, em seguida, o intervalo comercial tomou a tela.
Foi então que a imagem mudou. A logomarca da Orsini Design surgiu limpa, precisa, ocupando o centro da tela. Cássio franziu levemente o cenho, a atenção fisgada contra a própria vontade. Endireitou-se um pouco no sofá, como se o corpo tivesse reagido antes da consciência como se premeditasse o que vinha a seguir.

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