“Cada homem carrega dentro de si um inferno inteiro.” Fiódor Dostoiévski
Silvia sentiu o pulso ser interrompido no ar antes de completar o gesto.
O aperto era firme demais, a ponto da pressão nos ossos a fazer arfar.
Virou o rosto, pronta para atacar quem quer que fosse com palavras — mas encontrou Cássio atrás dela. Com o olhar frio de reprovação.
O mundo pareceu inclinar outra vez sob os pés de Silvia.
Ela recompôs o semblante com rapidez. O queixo tremeu. Os olhos marejaram.
— Cássio… — murmurou, como se fosse ela a ferida ali.
Mas a voz dele veio baixa e cortante, como vidro arranhando mármore.
— O que você pensa que está fazendo?
As palavras não foram altas. Não precisaram ser.
Silvia estremeceu. Se Helena ousasse mencionar o nome de Márcio ali, na frente dele… tudo poderia desmoronar.
Ela lançou um olhar rápido para Helena.
Helena permanecia imóvel. Não havia medo em seus olhos. Havia algo muito pior: serenidade.
— Foi ela — Silvia se apressou. — Começou a me ofender porque não aceita nosso casamento.
Por um segundo, algo vacilou dentro de Cássio. Uma centelha antiga. Uma esperança absurda de que talvez, só talvez, Helena ainda estivesse presa a ele de alguma forma.
Mas quando a encarou de verdade — o rosto dela neutro, distante, quase indiferente — soube que Silvia mentia.
Helena sequer lhe dirigira um olhar.
Santiago, Pedro e Lívia surgiram atrás dela em questão de segundos, formando uma linha silenciosa. Não só eles. Algumas pessoas ao redor já começavam a prestar atenção. Murmúrios. Celulares erguidos discretamente.
Cássio soltou o pulso de Silvia, limpou a garganta e vestiu um sorriso social que não alcançava os olhos.
— O que está acontecendo aqui? — Santiago perguntou, encarando-o com frieza calculada.
— Você sabe o que é uma ordem de restrição, não sabe, Cássio? — Lívia acrescentou, sem nenhuma intenção de amenizar o clima.
Exposição pública. Último dia de feira. Imprensa por perto. Era tudo o que ele menos precisava.
— Eu não sei o que aconteceu — disse Cássio, medindo cada palavra. — Mas peço desculpas por qualquer coisa.
Ele olhou para Helena ao dizer isso, quase suplicando por um encerramento discreto.
— Desculpas… — Helena repetiu devagar. — Eu agradeço o pedido. Mas quem precisa fazê-lo não é você.
Ela olhava diretamente para Silvia.
O silêncio pesou.
Silvia alternou o olhar entre os dois, esperando que Cássio a defendesse. Que assumisse o controle. Que a resgatasse da humilhação.
Mas o rosto dele apenas se tornou mais duro.
— Peça desculpas — ele exigiu, num sopro que não admitia recusa.
Helena mantinha o olhar firme. Como quem já identificou uma rachadura numa parede e sabe que, cedo ou tarde, ela vai ceder.
Silvia sentia o orgulho se despedaçar por dentro. Ela sempre conduzia as cenas. Sempre puxava as cordas invisíveis. Manipulava ângulos, reações, narrativas.
Agora estava reagindo. E reagir era um território desconhecido.
— Me desculpe — sussurrou por fim.
A voz saiu baixa, quase inaudível. O rosto, porém, traía a fúria que fervia por dentro.
Helena não respondeu de imediato. Seu olhar parecia atravessar Silvia, pousando num ponto distante atrás dela.
Cássio, com algo quebrando no peito, apertou a mão da noiva.
— Já chega. Vamos embora.
Ele fez menção de conduzi-la para longe.
— Soube que vocês se casam amanhã — Helena disse antes que dessem o segundo passo.
Cássio parou.
Ela finalmente voltou o rosto para ele.
— Espero que sejam felizes. Vocês se merecem.
Não havia ironia. Nem ressentimento. Apenas constatação.
Santiago e Pedro acompanharam Helena quando ela se virou para sair, lançando a Cássio olhares que eram quase sentenças.
Lívia ficou um segundo a mais.
Observou-o de cima a baixo, avaliando.
— Adorei seu novo nariz — comentou com um sorriso enviesado. — Combina com você.
Virou-se e foi atrás dos outros, deixando no ar um riso breve.
Cássio permaneceu imóvel. A humilhação encoberta pelo burburinho da feira que retomava o volume ao redor.
Helena não parecera ressentida. Não parecera destruída. Parecera livre.
E isso doeu mais do que qualquer insulto.
— Cássio… — Silvia chamou, puxando de leve a mão dele, ainda presa à sua como se fosse uma algema.
Ele piscou, saindo do transe. O olhar que lançou para ela era difícil de decifrar — não era apenas irritação. Havia cansaço. Havia dúvida. E algo que Silvia não conseguiu nomear.
Renato se aproximou com passos medidos, atento ao clima ao redor. O olhar dele passou por Silvia como uma lâmina fria, avaliando, julgando, catalogando cada detalhe.
— O que foi que aconteceu? — perguntou, baixo, mas direto.
Cássio soltou o ar devagar, como quem já não tem energia para uma explicação que nem mesmo tinha.
— Ainda não sei — respondeu, a voz pesada. — Mas é melhor eu levá-la embora antes que isso vire alguma coisa maior.
Renato sustentou o silêncio por um segundo, observando a movimentação ao redor, os olhares curiosos que ainda tentavam disfarçar interesse. Depois assentiu.
— Vai. Deixa que eu cuido das coisas por aqui.
Havia firmeza na voz dele. Uma lealdade antiga.
Cássio segurou o ombro do amigo por um instante.
— Obrigado.
Era sincero.
Sem dizer mais nada, virou-se e conduziu Silvia pelo corredor. Não era exatamente um gesto de carinho — era quase um deslocamento estratégico, rápido, decidido.
Silvia acompanhava os passos dele tentando acompanhar também os próprios pensamentos. O pulso ainda latejava onde ele a segurara. A humilhação ardia mais do que a dor física.
Enquanto atravessavam o fluxo de pessoas, Cássio não olhou para trás.
E Silvia percebeu, com um aperto incômodo no peito, que ele também não olhava mais para ela da mesma forma.
...
Assim que retornaram para a área próxima ao estande da Orsini, Lívia já vinha inflamada, incapaz de fingir normalidade por mais um segundo.
— E então… conseguiu? — perguntou, os olhos faiscando de expectativa.
Helena deslizou a mão para dentro do bolso da camisa e retirou o pequeno gravador. Por alguns segundos, ficou apenas observando o aparelho na palma da mão, como se pesasse não o objeto, mas tudo o que ele carregava ali dentro.
— Ela não assumiu nada diretamente — disse, calma. — Mas a reação… foi clara demais. Quando mencionei o nome de Márcio, ela perdeu o chão. Não foi susto comum. Foi pânico.
Estendeu o gravador a Pedro.
— Eles têm algum envolvimento. Eu tenho quase certeza.
— Aquela vaca — Lívia disparou, num sussurro venenoso. — Eu quero ouvir.
Santiago, que desde o confronto não tirava os olhos de Helena, avaliando cada respiração, cada microexpressão, ergueu o olhar e analisou o entorno. O fluxo de visitantes ainda circulava animado, jornalistas passavam com câmeras penduradas no pescoço, funcionários conversavam a poucos metros.
Não era lugar para aquilo.
— Aqui não — disse, firme. — Tem gente demais. Se isso vazar agora, perde a força… ou pior, chega aos ouvidos errados.
Pedro assentiu, já guardando o aparelho no bolso interno da jaqueta.
— Vamos até o carro. Lá a gente escuta com calma.
Helena concordou com um leve aceno, e sentiu Santiago tocar de leve sua cintura.
A um dia de selar aquilo que ela acreditava ser sua vitória.
E ele ousava olhar nos olhos dela e dizer que amava outra.
Mas ele não havia terminado.
— Eu fui o inútil — continuou, a voz agora carregada de um desprezo que era, sobretudo, por si mesmo. — Por não valorizar a mulher que tinha ao meu lado. Por deixar meu ego, minha vaidade e… você… destruírem o que eu tinha de mais sólido.
Silvia abriu a boca para reagir, mas ele ergueu a mão, interrompendo-a.
— Eu transformei a Helena na vilã para justificar minhas escolhas. Era mais fácil dizer que ela era fútil, depois que estava emocionalmente instável… do que admitir que eu era fraco. Que eu queria ser desejado. Admirado. Idolatrado.
Ele a encarou de cima a baixo.
— E você soube exatamente como alimentar isso.
Silvia sentiu algo se partir por dentro.
— Então agora a culpa é minha? — sibilou, a voz embargada entre indignação e desespero. — Eu não te forcei a nada!
— Não — ele respondeu, direto. — A escolha foi minha. Sempre foi. Mas você nunca foi inocente nisso.
O silêncio entre os dois ficou pesado demais.
Ao longe, o som abafado da feira ainda ecoava. Vida acontecendo. Negócios sendo fechados. Gente sorrindo.
Ali, porém, tudo parecia suspenso.
Silvia respirava rápido demais. O ar entrava curto, rasgando-lhe a garganta.
— Você vai cancelar o casamento? — perguntou, por fim.
A pergunta escapou antes que pudesse ser moldada. Saiu nua. Sem cálculo. Sem máscara.
Cássio hesitou, não por dúvida, mas pelo peso da consequência.
Ele olhou para o ventre dela. Para o reflexo dos dois no vidro escuro do carro. Para o homem que havia se tornado.
A voz saiu rouca:
— Não. Vamos nos casar.
Silvia quase fechou os olhos de alívio.
Mas ele continuou.
— Não por amor. Mas porque finalmente decidi pagar pelos meus próprios erros. Como qualquer homem de verdade faria. E ironicamente… até mesmo isso foi ela quem me ensinou.
Silvia sentiu algo desabar por dentro. Não foi um estilhaço. Foi um vazio. Um buraco frio abrindo-se no peito.
Ele se afastou um passo.
— O motorista vai te levar para casa.
Ela baixou o olhar tentando esconder sua verdadeira dor, resoluta a não deixar aquela garotinha fraca emergir.
— Você não vem? — tentou, com um resto de voz.
— Já deixei a empresa de lado tempo demais por causa de toda essa confusão.
Confusão.
Ela era a confusão.
A mente de Silvia começou a trabalhar em desespero silencioso. Estratégias, ajustes, recuos. Se fosse mais doce? Mais frágil? Helena era assim… sempre tão serena. Talvez ele quisesse alguém dócil agora. Talvez ela pudesse vestir essa pele também por mais que a enojasse.
— Se você quiser… eu posso pedir desculpas a ela. Posso conser...
— Não. — Ele a interrompeu, cansado. — Já basta. Não importa mais. No futuro, apenas mantenha distância dela. Eu já tenho problemas demais para você criar outros.
Aquilo não foi uma repreensão. Foi um rebaixamento.
Silvia ficou imóvel enquanto ele se afastava sentindo uma humilhação quente subir pelo pescoço.
Fechou os punhos desejando ter em suas mãos aquela faca outra vez.
Ela nunca fora boa em perder. E não começaria agora.
Sem perceber, alguns carros adiante, alguém observava a cena através do para-brisa. Não havia surpresa em sua expressão. Apenas interesse. Como quem assiste a uma peça prestes a atingir o clímax.

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