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Quadros de um divórcio romance Capítulo 228

“Cada homem carrega dentro de si um inferno inteiro.” Fiódor Dostoiévski

Silvia sentiu o pulso ser interrompido no ar antes de completar o gesto.

O aperto era firme demais, a ponto da pressão nos ossos a fazer arfar.

Virou o rosto, pronta para atacar quem quer que fosse com palavras — mas encontrou Cássio atrás dela. Com o olhar frio de reprovação.

O mundo pareceu inclinar outra vez sob os pés de Silvia.

Ela recompôs o semblante com rapidez. O queixo tremeu. Os olhos marejaram.

— Cássio… — murmurou, como se fosse ela a ferida ali.

Mas a voz dele veio baixa e cortante, como vidro arranhando mármore.

— O que você pensa que está fazendo?

As palavras não foram altas. Não precisaram ser.

Silvia estremeceu. Se Helena ousasse mencionar o nome de Márcio ali, na frente dele… tudo poderia desmoronar.

Ela lançou um olhar rápido para Helena.

Helena permanecia imóvel. Não havia medo em seus olhos. Havia algo muito pior: serenidade.

— Foi ela — Silvia se apressou. — Começou a me ofender porque não aceita nosso casamento.

Por um segundo, algo vacilou dentro de Cássio. Uma centelha antiga. Uma esperança absurda de que talvez, só talvez, Helena ainda estivesse presa a ele de alguma forma.

Mas quando a encarou de verdade — o rosto dela neutro, distante, quase indiferente — soube que Silvia mentia.

Helena sequer lhe dirigira um olhar.

Santiago, Pedro e Lívia surgiram atrás dela em questão de segundos, formando uma linha silenciosa. Não só eles. Algumas pessoas ao redor já começavam a prestar atenção. Murmúrios. Celulares erguidos discretamente.

Cássio soltou o pulso de Silvia, limpou a garganta e vestiu um sorriso social que não alcançava os olhos.

— O que está acontecendo aqui? — Santiago perguntou, encarando-o com frieza calculada.

— Você sabe o que é uma ordem de restrição, não sabe, Cássio? — Lívia acrescentou, sem nenhuma intenção de amenizar o clima.

Exposição pública. Último dia de feira. Imprensa por perto. Era tudo o que ele menos precisava.

— Eu não sei o que aconteceu — disse Cássio, medindo cada palavra. — Mas peço desculpas por qualquer coisa.

Ele olhou para Helena ao dizer isso, quase suplicando por um encerramento discreto.

— Desculpas… — Helena repetiu devagar. — Eu agradeço o pedido. Mas quem precisa fazê-lo não é você.

Ela olhava diretamente para Silvia.

O silêncio pesou.

Silvia alternou o olhar entre os dois, esperando que Cássio a defendesse. Que assumisse o controle. Que a resgatasse da humilhação.

Mas o rosto dele apenas se tornou mais duro.

— Peça desculpas — ele exigiu, num sopro que não admitia recusa.

Helena mantinha o olhar firme. Como quem já identificou uma rachadura numa parede e sabe que, cedo ou tarde, ela vai ceder.

Silvia sentia o orgulho se despedaçar por dentro. Ela sempre conduzia as cenas. Sempre puxava as cordas invisíveis. Manipulava ângulos, reações, narrativas.

Agora estava reagindo. E reagir era um território desconhecido.

— Me desculpe — sussurrou por fim.

A voz saiu baixa, quase inaudível. O rosto, porém, traía a fúria que fervia por dentro.

Helena não respondeu de imediato. Seu olhar parecia atravessar Silvia, pousando num ponto distante atrás dela.

Cássio, com algo quebrando no peito, apertou a mão da noiva.

— Já chega. Vamos embora.

Ele fez menção de conduzi-la para longe.

— Soube que vocês se casam amanhã — Helena disse antes que dessem o segundo passo.

Cássio parou.

Ela finalmente voltou o rosto para ele.

— Espero que sejam felizes. Vocês se merecem.

Não havia ironia. Nem ressentimento. Apenas constatação.

Santiago e Pedro acompanharam Helena quando ela se virou para sair, lançando a Cássio olhares que eram quase sentenças.

Lívia ficou um segundo a mais.

Observou-o de cima a baixo, avaliando.

— Adorei seu novo nariz — comentou com um sorriso enviesado. — Combina com você.

Virou-se e foi atrás dos outros, deixando no ar um riso breve.

Cássio permaneceu imóvel. A humilhação encoberta pelo burburinho da feira que retomava o volume ao redor.

Helena não parecera ressentida. Não parecera destruída. Parecera livre.

E isso doeu mais do que qualquer insulto.

— Cássio… — Silvia chamou, puxando de leve a mão dele, ainda presa à sua como se fosse uma algema.

Ele piscou, saindo do transe. O olhar que lançou para ela era difícil de decifrar — não era apenas irritação. Havia cansaço. Havia dúvida. E algo que Silvia não conseguiu nomear.

Renato se aproximou com passos medidos, atento ao clima ao redor. O olhar dele passou por Silvia como uma lâmina fria, avaliando, julgando, catalogando cada detalhe.

— O que foi que aconteceu? — perguntou, baixo, mas direto.

Cássio soltou o ar devagar, como quem já não tem energia para uma explicação que nem mesmo tinha.

— Ainda não sei — respondeu, a voz pesada. — Mas é melhor eu levá-la embora antes que isso vire alguma coisa maior.

Renato sustentou o silêncio por um segundo, observando a movimentação ao redor, os olhares curiosos que ainda tentavam disfarçar interesse. Depois assentiu.

— Vai. Deixa que eu cuido das coisas por aqui.

Havia firmeza na voz dele. Uma lealdade antiga.

Cássio segurou o ombro do amigo por um instante.

— Obrigado.

Era sincero.

Sem dizer mais nada, virou-se e conduziu Silvia pelo corredor. Não era exatamente um gesto de carinho — era quase um deslocamento estratégico, rápido, decidido.

Silvia acompanhava os passos dele tentando acompanhar também os próprios pensamentos. O pulso ainda latejava onde ele a segurara. A humilhação ardia mais do que a dor física.

Enquanto atravessavam o fluxo de pessoas, Cássio não olhou para trás.

E Silvia percebeu, com um aperto incômodo no peito, que ele também não olhava mais para ela da mesma forma.

...

Assim que retornaram para a área próxima ao estande da Orsini, Lívia já vinha inflamada, incapaz de fingir normalidade por mais um segundo.

— E então… conseguiu? — perguntou, os olhos faiscando de expectativa.

Helena deslizou a mão para dentro do bolso da camisa e retirou o pequeno gravador. Por alguns segundos, ficou apenas observando o aparelho na palma da mão, como se pesasse não o objeto, mas tudo o que ele carregava ali dentro.

— Ela não assumiu nada diretamente — disse, calma. — Mas a reação… foi clara demais. Quando mencionei o nome de Márcio, ela perdeu o chão. Não foi susto comum. Foi pânico.

Estendeu o gravador a Pedro.

— Eles têm algum envolvimento. Eu tenho quase certeza.

— Aquela vaca — Lívia disparou, num sussurro venenoso. — Eu quero ouvir.

Santiago, que desde o confronto não tirava os olhos de Helena, avaliando cada respiração, cada microexpressão, ergueu o olhar e analisou o entorno. O fluxo de visitantes ainda circulava animado, jornalistas passavam com câmeras penduradas no pescoço, funcionários conversavam a poucos metros.

Não era lugar para aquilo.

— Aqui não — disse, firme. — Tem gente demais. Se isso vazar agora, perde a força… ou pior, chega aos ouvidos errados.

Pedro assentiu, já guardando o aparelho no bolso interno da jaqueta.

— Vamos até o carro. Lá a gente escuta com calma.

Helena concordou com um leve aceno, e sentiu Santiago tocar de leve sua cintura.

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