A reunião do conselho aconteceu ainda naquela manhã. Cássio manteve a postura que aprendera a vestir ao longo dos anos: semblante controlado, voz firme, nenhum sinal visível do turbilhão interno. Por dentro, porém, estava em frangalhos. Rebateu cada argumento com as orientações previamente traçadas por Riviera, sustentando a defesa por horas que pareceram intermináveis.
No fim — quase como um golpe de sorte — conseguiu o que parecia improvável: permaneceu na presidência. Ganhou tempo. Nada além disso. Quando finalmente voltou para sua sala, acompanhado do advogado, sentia o corpo pesado, a mente exaurida.
— Você conseguiu — reconheceu Riviera.
— Consegui… — Cássio concordou, recostando-se na mesa, apoiando as mãos em cada lado do tampo. — Mas duvido que consiga convencê-los se houver uma próxima.
O advogado assentiu, sério.
— O problema é que tudo o que vem acontecendo atrai atenção demais. Desde o evento de cinco anos da empresa, parece que o caos resolveu se instalar.
Cássio balançou a cabeça lentamente. Sabia disso. Se quisesse permanecer no controle, precisava evitar a qualquer custo um novo escândalo. Havia tubarões demais circulando — e ele já sangrara mais do que devia.
Justamente por isso decidiu não acompanhar a montagem do estande para a feira naquele dia. Por mais que desejasse vê-la, ainda que de longe, manter distância agora era a decisão mais inteligente. Bastaria a presença dos dois no mesmo ambiente, depois da repercussão do fim de semana, para acender uma faísca capaz de incendiar tudo.
Sem contar a maldita medida protetiva. Como se ele fosse um criminoso perigoso.
Helena… ela realmente parecia determinada a apagá-lo de vez da própria vida.
Respirou fundo.
— Chega de escândalos — disse, finalmente, arregaçando as mangas da camisa e contornando a mesa para se sentar em sua cadeira. — Vamos focar em arrumar a casa.
Riviera assentiu.
— Certo. Vou ver o que consigo com os bancos. Me deseje sorte.
— Vamos precisar de mais do que sorte — murmurou Cássio, enquanto o advogado fechava a porta atrás de si.
...
Helena almoçou novamente com os colegas e com os demais funcionários da Orsini envolvidos na montagem, todos reunidos dentro do estande ainda vazio. Para quem observava de fora, viam-se apenas silhuetas recortadas nas cortinas simples, projetadas pela iluminação improvisada. Sombras em movimento, indistintas. Mas por dentro, o ambiente tinha outra alma.
Parecia um acampamento improvisado — chique à sua maneira. Todos sentados no chão, embalagens servindo de apoio, risadas baixas, conversas cruzadas, ideias surgindo entre uma garfada e outra. Havia ali um senso de pertencimento difícil de explicar, aquela intimidade que só nasce quando pessoas constroem algo juntas.
Quando os primeiros começaram a se levantar, satisfeitos, o ritmo mudou. O intervalo se encerrava. Como se obedecessem a um sinal invisível, caixas começaram a chegar: grandes, pesadas, etiquetadas. Móveis e algumas das peças inéditas da nova.
No meio da tarde, enquanto a equipe se dedicava à montagem do quarto, Nicolas apareceu pessoalmente, empurrando um grande carrinho de depósito. Sobre ele, cuidadosamente acomodadas, vinham as caixas com as cúpulas de vidro — as primeiras produzidas depois da aprovação final das formas.
Helena foi ao encontro dele com um sorriso que não conseguiu conter. Cumprimentou-o e com um estilete cortou a fita que lacrava uma das embalagens. Os olhos brilharam de alegria ao tocou uma das cúpulas com cuidado, como se confirmasse que era real.
— Ficaram perfeitas… — murmurou, genuinamente empolgada.
Nicolas retribuiu o sorriso, orgulhoso. Aquilo não era apenas uma entrega. Era a materialização de uma ideia que, até então, existia apenas no papel — e agora começava a ocupar espaço no mundo.
Os funcionários que auxiliavam na montagem logo trataram de levar as caixas para dentro do espaço, enquanto Helena permaneceu do lado de fora, conversando com Nicolas. A troca entre os dois parecia natural para quem observava.
Quem circulava por ali, em sua maioria profissionais do mesmo ramo, conhecia ao menos fragmentos da história dela. A curiosidade era inevitável. Ainda assim, o que mais chamava atenção não era o passado que a precedia, mas a forma como ela estava ali: acessível, sem afetação, vestida com simplicidade, rindo com facilidade. Nada de saltos extravagantes ou roupas que gritassem status. Apenas uma mulher real, vivendo o próprio trabalho com verdade. Isso, por si só, tornava a expectativa em torno do estande da Orsini ainda maior.
Quando o carrinho finalmente ficou vazio, Helena convidou Nicolas para entrar e conhecer o que estavam construindo. Afinal, o olhar de um artesão sempre acrescentava algo que nenhum projeto técnico era capaz de prever.
Ao final do breve tour, Nicolas falou com admiração sincera:
— Tem tudo para ser um sucesso. Santiago já tinha me falado muito bem de você, mas vendo de perto… preciso concordar que você tem mesmo um dom incrível.
— Obrigada. — respondeu ela, contente. — Mas ele é suspeito para falar.
— Que nada. Eu me sinto honrado por fazer parte disso. — Ele já erguia a cortina para sair. — Melhor eu ir. Depois que essa feira começar, vai chover pedido. Preciso me adiantar com as cúpulas.
— Deus te ouça.
Eles se despediram, e Helena ainda ficou alguns segundos observando-o se afastar, absorvendo aquela sensação boa de caminho certo. Foi então que um burburinho atrás dela chamou sua atenção.
Ao se virar, encontrou Júlia e Rafael — os mais falantes da equipe — inclinados um para o outro, claramente cochichando.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio