“A vida não é medida pelos obstáculos que encontramos, mas pela coragem com que os enfrentamos.”
Cássio acordou cedo naquela segunda-feira — se é que podia chamar aquilo de acordar. O sono fora fragmentado, inquieto, povoado por pensamentos que não lhe deram trégua. Levantou-se sentindo o corpo ainda mais pesado do que quando havia se deitado.
Lá fora, o dia mal clareava. Silvia ainda dormia ao lado dele, ocupando o espaço onde, por tanto tempo, dormira a mulher que ele amou… e perdeu.
Vestiu-se com gestos automáticos e desceu para a cozinha. Preparou um café forte, quase amargo demais, na esperança de que a cafeína lhe trouxesse a lucidez necessária para enfrentar o dia. Enquanto esperava o apito da cafeteira, reorganizou os papéis na pasta, tentando impor ordem a um caos que parecia escapar de qualquer controle.
Bebeu o café em poucos goles e saiu direto para a empresa.
Riviera já o havia alertado: o conselho convocara uma reunião de urgência para discutir a crise de reputação e os riscos financeiros que ela poderia trazer. Precisava falar com o advogado antes que aquela reunião começasse — antes que sua cabeça fosse colocada à prêmio numa bandeja.
Ao chegar, seguiu direto para a sala de Riviera, que o aguardava. Cássio deixou-se cair na poltrona antes mesmo de cumprimentá-lo.
— Seja direto — disse, sem rodeios. — Tem solução ou está tudo perdido?
O advogado entrelaçou os dedos sobre a mesa.
— A situação é delicada. Eles vão tentar usar isso para removê-lo, sim. Mas você ainda é o maior acionista. O ocorrido do fim de semana não envolve você diretamente, e sim sua irmã. Viviane não tem qualquer vínculo formal com o quadro da empresa.
Cássio não se permitiu criar esperanças.
— E a live da Helena?
— São denúncias ainda sob investigação. Não há prova concreta que o incrimine. — Riviera fez uma breve pausa. — Convenhamos: quem acreditaria que um empresário respeitado arquitetaria algo contra a própria ex-esposa? Mesmo o fato de um dos suspeitos ter sido funcionário da empresa não prova nada. E o homem simplesmente desapareceu.
Cássio apoiou os cotovelos nos joelhos, pressionando a boca contra as mãos fechadas.
— Então… ainda existe uma chance.
— Existe. O problema real é outro. O segundo maior acionista está de olho na sua cadeira há tempos. Vai tentar se aproveitar do momento. Mas, sem provas, essas acusações dificilmente se sustentam. Ainda mais considerando que você conseguiu retomar a produção das coleções antigas — e os pedidos delas superam o novo lançamento.
Cássio assentiu lentamente.
— O único ponto crítico é se descobrirem que o dinheiro para isso saiu dos cofres da empresa.
Riviera o encarou com seriedade.
— Isso, sim, seria fatal. Remoção imediata e processo criminal.
— Isso não pode vazar. De jeito nenhum. — A voz de Cássio saiu baixa, carregada de ameaça.
— Fique tranquilo. — Riviera respondeu com firmeza. — Eu ganho muito bem para ficar de boca fechada. E, se isso viesse à tona, eu cairia junto. Mas o valor precisa ser reposto o quanto antes.
— Eu sei. — Cássio passou as mãos pelos cabelos, exausto. — Alguma novidade do corretor?
— Sim. Os imóveis restantes foram vendidos. Os mais valorizados. Mas não pelo valor ideal. Em vez dos dezoito milhões esperados, entraram apenas quatorze.
— Quatorze… — repetiu, frustrado. — Isso nos deixa com quarenta e seis dos noventa. Ainda faltam quarenta e quatro.
Mesmo que pegasse o empréstimo bancário de vinte milhões, o rombo ainda seria de vinte e quatro.
De onde tiraria o restante?
Pensou em Renato — e descartou a ideia quase de imediato. Pedir ajuda agora só reforçaria a imagem de fracasso que já sentia pesar sobre si.
Se não tivesse gasto tanto com ostentação… viagens extravagantes, jantares caros, bebidas absurdamente caras, tudo para sustentar a imagem de um homem poderoso. Sem contar os mimos excessivos para Silvia. Se tivesse sido menos vaidoso, menos imprudente, o dinheiro estaria ali.
Mas não estava.
Agora, encontrava-se encurralado.
— Use a procuração. — disse, por fim, cansado. — Tente um empréstimo pelo valor restante.
— Sim, senhor. — respondeu Riviera.
Cássio recostou-se na poltrona, sentindo o peso do que vinha pela frente.
Helena franziu a testa.
— Bati foi pouco. Ninguém mandou mexer com você.
Então o olhar dela escureceu, carregado.
— Me desculpa… — disse, por fim. — Ela fez isso com você para me atingir. De alguma forma… foi culpa minha.
Santiago segurou o rosto dela com firmeza, obrigando-a a encará-lo.
— Já te pedi para não pensar assim. — falou com calma, mas convicção. — Você não é responsável pela falta de caráter de ninguém. A culpa é inteiramente dela. E ela vai responder por isso.
Helena assentiu, ainda sensível, recebendo o beijo rápido — simples, mas cheio de significado — que ele lhe deu em seguida.
Deixaram a clínica pouco mais de uma hora depois. Após deixar Santiago na galeria, Pedro seguiu com Helena até a São Paulo Expo.
Assim que entrou no grande pavilhão, Helena caminhou em direção à própria equipe, que já estava a todo vapor. Cumprimentou um a um, recebendo sorrisos, acenos e comentários animados. O ambiente pulsava trabalho e expectativa.
Manoel realmente havia cumprido o que prometera. A estrutura estava montada com precisão: os espaços pareciam cômodos abertos, delimitados por paredes e tetos brancos, limpos, como telas em branco prontas para receber histórias.
Helena percorreu o espaço com o olhar atento, absorvendo cada detalhe com orgulho. Tudo estava exatamente como havia imaginado — ou talvez até melhor.
Pedro, sempre próximo, observava o entorno com atenção oposta. Enquanto ela via possibilidades, ele buscava ameaças. Seu olhar vasculhava rostos, movimentos, cantos, procurando instintivamente aquele que representava perigo. Felizmente, Cássio não estava ali. O único rosto que reconheceu foi de Renato, o amigo, ajudando na montagem de um estande menor, posicionado a uma distância segura do deles.
Havia algo profundamente satisfatório para Helena em ver seus colegas com a mão na massa. Pessoas criativas, competentes, reais — tão humanas quanto ela. Alguns se equilibravam em pequenas escadas para pendurar cortinas simples, de tecido barato, ao redor dos “cômodos”, criando uma barreira provisória para manter curiosos afastados. Ainda mais que as novas peças da coleção seriam lançadas na própria feira e precisar evitar cópias antes da apresentação oficial delas.
Outros supervisionavam a montagem do balcão expositor da área de dois por oito metros lateral.
O branco dominava tudo. Amplo, silencioso, elegante. Um espaço que respirava possibilidades. Por ora, apenas o piso vinílico amadeirado quebrava a alvura absoluta do espaço. Os instaladores finalizavam os últimos encaixes daquele que era um lançamento recente de um dos parceiros da Orsini Design — uma escolha precisa, que dialogava perfeitamente com a coleção e aquecia o ambiente sem roubar-lhe a leveza.
Em paralelo, outros técnicos trabalhavam no drywall, abrindo passagens discretas para a fiação elétrica, preparando as estruturas para as tomadas e para a iluminação do teto.
Aquela feira estava longe de ser apenas um evento de lançamento. Se estenderia por vários dias, atraindo um público de todas as regiões do país. Ali, tendências eram consolidadas, parcerias nasciam, e reputações se erguiam ou destruíam sob os holofotes certos.

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