“A desesperança é um sentimento reacionário e nos coloca conformados.”
Cássio acordou cedo novamente na terça-feira, mas, dessa vez, Silvia se antecipara. Quando ele desceu as escadas, encontrou-a na cozinha, já à sua espera, com o café passado — quente e forte, exatamente como ele gostava.
— Por que acordou tão cedo? — perguntou, sem muito interesse. Tudo o que menos queria naquele momento era interagir com alguém, menos ainda com ela.
— Você saiu tão sorrateiro ontem… — disse, estendendo-lhe a xícara, o sorriso doce demais para aquele horário. — Tenho certeza de que não está se alimentando direito. Resolvi acordar mais cedo para preparar seu café.
Ela empurrou um prato com um sanduíche natural com pão integral em sua direção e continuou, num tom cuidadoso:
— Eu sei o quanto você anda preocupado. Mas, se continuar assim, vai acabar surtando. Você precisa parar um pouco, descansar.
Cássio a observou em silêncio, exausto. Parecia que ninguém, absolutamente ninguém, conseguia compreender a dimensão do que estava acontecendo em sua vida. Ainda assim, estava cansado demais até para tentar explicar.
Virou a xícara em poucos goles e empurrou o prato de volta para ela.
— Desculpa, mas eu preciso ir.
Silvia insistiu, devolvendo o prato à sua frente.
— Come ao menos um pouco. Enquanto isso, eu me troco e vamos juntos.
Ele sequer olhou para o sanduíche. Já seguia em direção ao aparador onde deixara a pasta na noite anterior.
— O motorista vai te levar. Eu não posso esperar.
Passou a alça pelo ombro e, antes de sair, deteve-se por um segundo. O olhar caiu, involuntariamente, sobre o ventre dela, cada dia mais evidente.
— Na verdade… — disse, pensativo. — Talvez seja melhor você ficar em casa. Quando essa criança nascer, vai precisar da mãe por perto.
Virou-se e saiu sem olhar para trás, sem perceber a expressão incrédula que tomou o rosto dela, completamente despido de qualquer máscara.
Após o primeiro impacto passar, Silvia cerrou a mandíbula, os olhos semicerrados, duros. O choque cedeu lugar para o rancor, pulsando alto demais para ser contido.
— Ah, Cássio… — murmurou, a voz baixa, carregada de veneno. — Se você acha que vai fazer comigo o mesmo que fez com aquela mulher, está muito enganado.
...
Quando Cássio chegou à empresa, o prédio ainda estava praticamente vazio. O eco dos próprios passos ampliava o silêncio, fazendo aquele espaço parecer maior do que nunca — quase do tamanho do medo que carregava de perder tudo aquilo.
Tentou se concentrar em alguma tarefa, qualquer uma, mas um pressentimento ruim insistia em rondar. Seu tempo estava se esgotando; ele sentia isso no corpo, na sensação constante de ter um alvo enorme cravado nas costas.
O relógio digital sobre a mesa parecia zombar dele. A manhã se arrastava com uma lentidão cruel.
O estômago roncou em protesto. Não lembrava quando tinha sido a última refeição de verdade. Levantou-se e foi até o banheiro da própria sala, jogando água fria no rosto em busca de algum alívio. Mas foi o reflexo no espelho que o deteve.
Os ossos do rosto estavam mais aparentes, denunciando o quanto emagrecera. Beliscou a pele da bochecha, sentindo a flacidez incômoda. Os hematomas haviam sumido, mas as olheiras permaneciam profundas, arroxeadas, cavadas sob olhos opacos, sem brilho algum. E, como se não bastasse, o nariz agora carregava uma leve torção permanente.
Assustou-se. Estava se tornando uma sombra de quem já fora.
Precisava comer. Precisava voltar a se exercitar. Precisava, de alguma forma, voltar a viver.
Retornou à sala e apertou o ramal da secretária.
— Arrume o café da manhã — ordenou.
— Sim, senhor. O que deseja? — veio a resposta pronta.
Cássio pensou por alguns segundos. Havia muito tempo que não comia por prazer; mesmo agora, só cedia por saber que o corpo exigia. Passou mentalmente por opções neutras, práticas, sem graça — até que uma imagem se impôs, nítida demais para ser ignorada.
Helena, sempre na cozinha, com um bolo de cenoura recém-saído do forno. A cobertura de chocolate toda rachadinha. Todas as vezes ele reclamava, dizendo que não era saudável. Ela fingindo não ouvir e sempre fazia de novo. E, no fim, era sempre a mesma coisa — ele comia quase tudo. Às vezes acordava de madrugada só para roubar mais um pedaço, escondido, como se fosse um ritual secreto entre eles.
Um riso curto escapou, involuntário.
— Bolo de cenoura… — disse, quase para si. — E um cappuccino.
— Mas, senhor…
Cássio ergueu o olhar devagar. Não havia irritação nele. Nem impaciência. Apenas um limite muito claro.
— Pode se retirar.
O advogado assentiu em silêncio, entendendo que qualquer palavra a mais seria invasão. Fechou a porta com cuidado, quase com respeito excessivo, deixando a sala mergulhar num silêncio espesso.
Cássio permaneceu imóvel por alguns segundos, encarando o nada. O bolo esfriava sobre a mesa. O café soltava um fio de vapor que logo se dissipou. Tudo seguia seu curso normal — menos ele.
Passou a mão pelo rosto, sentindo a aspereza da barba por fazer, como se aquilo fosse a única prova física de que ainda estava ali. Depois, empurrou a cadeira para trás e se levantou devagar, o corpo pesado demais para a própria altura.
Aquele não era o fim oficial de nada. Não havia manchetes, nem demissão, nem algemas.
Mas, por dentro, algo já tinha sido encerrado.
Ele não se preocupou em pegar o paletó, nem em ajustar o nó frouxo da gravata. Os punhos da camisa seguiam dobrados quando atravessou a empresa como um espectro, o olhar vazio, o passo arrastado. Alguns funcionários o observaram, assustados com aquela versão desfeita do homem que costumava impor presença. Nenhum teve coragem de dizer uma palavra.
Ao pisar na calçada, ergueu o rosto para o céu. A cidade seguia indiferente. Pessoas passavam apressadas, absorvidas demais pela própria pressa para notar a ruína silenciosa que caminhava entre elas. Ele começou a andar sem destino, sem urgência. No meio do barulho ensurdecedor do trânsito, buzinas e vozes, era como se não ouvisse absolutamente nada.
No cruzamento, parou junto à multidão que aguardava o sinal abrir. Apenas mais um corpo na manada. Foi então que um morador de rua, encolhido sobre um pedaço de papelão, envolto num cobertor xadrez puído, capturou seu olhar. Observou-o com atenção incômoda: os dedos marcados por vincos escuros de sujeira antiga, o joelho fino exposto por um rasgo na calça jeans surrada. Por um instante, teve a sensação absurda de estar olhando para um espelho do futuro. Antes que pudesse sustentar o pensamento, o fluxo de pessoas voltou a se mover, arrastando-o junto para o outro lado da rua.
Andou por tanto tempo que perdeu a noção de distância. Só percebeu onde estava quando o verde se abriu diante dele. O parque. O mesmo onde havia procurado Helena antes. O mesmo banco. Sentou-se ali, como se o corpo soubesse o caminho sozinho. Até o ar parecia igual. A única diferença era brutal: desta vez, ele não carregava expectativa alguma. Nenhuma esperança. Nada.
Ao redor, a vida acontecia com uma normalidade quase cruel. Pessoas corriam com fones grandes demais para a própria cabeça. Senhores jogavam cartas em mesas de concreto não tão longe dali. Casais jovens dividiam comida, risadas, intimidade. Crianças corriam e brincavam.
Ele se imaginou ali com um filho. Não o que Silvia carregava, mas um filho seu… e de Helena. Ela seria uma mãe extraordinária. Na verdade, ela será. Só não de um filho dele.
Ficou ali por horas. O corpo, exausto, acabou cedendo. Dormiu sentado, curvado, como alguém que já não tinha para onde voltar. Algumas pessoas passaram, lançaram olhares curiosos, cochicharam a hipótese de que estivesse bêbado. Ninguém o acordou. Ninguém o reconheceu.
E talvez isso fosse o mais cruel de tudo: naquele momento, ele já não parecia ninguém.

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