“Nem tudo que se perde tem valor. Nem tudo que é bonito é amor. O que passou, passou, não voltará. O que tiver que vir, virá.”
Cássio esperou que Renato aparecesse para conversarem rapidamente sobre a feira antes de ir embora. Como não havia passado por lá, não fazia ideia de como estavam as coisas. Para sua surpresa — e alívio — tudo havia corrido bem; o estande estava praticamente finalizado.
Conteve-se para não perguntar sobre a Orsini, mas Renato acabou comentando por conta própria:
— O estande do nosso maior concorrente está todo coberto. Não dá pra ver nada. Estão fazendo um suspense danado.
Cássio bufou, impaciente.
— Que frescura… como se a gente já não conhecesse a Prisma.
— Não sei, viu. Chegaram muitas caixas hoje. — Renato ponderou. — A equipe parece respeitar muito ela. Dá pra sentir.
Ele observou o amigo, atento à reação.
Por alguns segundos, o olhar de Cássio ficou vago, distante. Depois, recompôs-se.
— Isso não tem nada a ver com a gente — disse, mais para si mesmo do que para o outro. — Já que está tudo certo, vamos embora. Se eu não dormir um pouco, vou apagar em pé.
Despediu-se de Renato na garagem e seguiu para casa.
Ao entrar, encontrou Silvia sentada na sala, acompanhada de Esther e Viviane. Largou a pasta sobre o aparador e se aproximou, afrouxando o nó da gravata.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou, sem disfarçar o cansaço.
— Como assim? — Esther reagiu de imediato. — Agora não posso mais vir à casa do meu filho?
Ele respirou fundo.
— Não é isso… eu só não esperava encontrar vocês aqui.
— Sua irmã estava muito deprimida — explicou a mãe. — E como hoje foi a prova final do vestido da Silvia, resolvemos ir juntas. Depois viemos resolver os últimos detalhes do casamento. Afinal, já é neste fim de semana.
— Merda… — Cássio murmurou, massageando a testa. O tempo parecia ter corrido mais rápido do que ele conseguia acompanhar.
— Não me diga que você esqueceu do próprio casamento — Viviane provocou, com um meio sorriso.
— Com tudo o que está acontecendo, quem pode me culpar? — ele respondeu, lançando-lhe um olhar duro, carregado de acusação.
Viviane se encolheu no sofá.
— Eu só estava brincando…
Cássio então notou os papéis espalhados sobre a mesa de centro. Pegou um deles, arregalando os olhos.
— Quarenta e cinco mil só em flores? Vocês enlouqueceram?
Esther se levantou, ofendida.
— Claro que não. É o casamento do meu filho. Você merece o melhor.
— Vocês ainda não entenderam que a empresa está em crise? — ele explodiu, folheando os outros orçamentos, cada vez mais alarmado. — Isso só pode ser brincadeira.
— São só alguns milhares… — minimizou a mãe. — Pra que esse escândalo todo? Como se você não pudesse pagar.
— E eu não posso! — Cássio respondeu, a voz tensa. — Tive que tirar dinheiro da empresa para pagar as coleções antigas. Tenho pouco mais de dez dias para repor, e nem sei de onde vou tirar. Minha conta tem menos de um milhão agora. E depois da fiança da sua filha — apontou para Viviane —, tem ainda menos.
— Eu sabia que estava difícil… mas não assim — Esther murmurou, abalada.
— Claro. Quando foi que alguém aqui se preocupou em saber? — ele retrucou. — Vocês só sabem gastar. Pra vocês, eu sou só um caixa eletrônico.
— Espera aí — Viviane se levantou, indignada. — Foi a Helena que te arrancou dinheiro e você desconta na gente? Que culpa nós temos?
— Você é burra ou o quê? — disparou Cássio.
O choque foi imediato. Viviane ficou muda, incrédula.
Ele riu sem humor, balançando a cabeça.
— Ela sempre teve razão. Você é mimada, nunca soube o que é trabalhar um dia na vida.
— Como você fala assim da sua irmã? — Esther questionou, consternada.
— E é mentira? — ele rebateu, encarando-a. — Sabia que era a Helena quem pagava até as contas desta casa? Eu só descobri depois que ela foi embora. El a nunca me pediu um sentado sequer. Agora me diz: quem aqui vive de grife, restaurante caro e ostentação?
Silvia que acompanhava tudo em silêncio remoeu o ódio por dentro ao vê-lo defendendo aquela mulher.
— Você não pode nos culpar! — Esther gritou. — Não era você mesmo que falava essas coisas dela?
Vendo a discussão escalar, Silvia se levantou e se colocou entre eles.
— Calma, gente. Somos família. Aquela mulher já não está mais aqui. Não podemos deixar que ela nos divida.
Virou-se para Cássio, com doçura ensaiada.
— Amor, sua mãe só quer o melhor pra você… pra nós.
Depois, olhou para Esther.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio