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Quadros de um divórcio romance Capítulo 191

“Nem tudo que se perde tem valor. Nem tudo que é bonito é amor. O que passou, passou, não voltará. O que tiver que vir, virá.”

Cássio esperou que Renato aparecesse para conversarem rapidamente sobre a feira antes de ir embora. Como não havia passado por lá, não fazia ideia de como estavam as coisas. Para sua surpresa — e alívio — tudo havia corrido bem; o estande estava praticamente finalizado.

Conteve-se para não perguntar sobre a Orsini, mas Renato acabou comentando por conta própria:

— O estande do nosso maior concorrente está todo coberto. Não dá pra ver nada. Estão fazendo um suspense danado.

Cássio bufou, impaciente.

— Que frescura… como se a gente já não conhecesse a Prisma.

— Não sei, viu. Chegaram muitas caixas hoje. — Renato ponderou. — A equipe parece respeitar muito ela. Dá pra sentir.

Ele observou o amigo, atento à reação.

Por alguns segundos, o olhar de Cássio ficou vago, distante. Depois, recompôs-se.

— Isso não tem nada a ver com a gente — disse, mais para si mesmo do que para o outro. — Já que está tudo certo, vamos embora. Se eu não dormir um pouco, vou apagar em pé.

Despediu-se de Renato na garagem e seguiu para casa.

Ao entrar, encontrou Silvia sentada na sala, acompanhada de Esther e Viviane. Largou a pasta sobre o aparador e se aproximou, afrouxando o nó da gravata.

— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou, sem disfarçar o cansaço.

— Como assim? — Esther reagiu de imediato. — Agora não posso mais vir à casa do meu filho?

Ele respirou fundo.

— Não é isso… eu só não esperava encontrar vocês aqui.

— Sua irmã estava muito deprimida — explicou a mãe. — E como hoje foi a prova final do vestido da Silvia, resolvemos ir juntas. Depois viemos resolver os últimos detalhes do casamento. Afinal, já é neste fim de semana.

— Merda… — Cássio murmurou, massageando a testa. O tempo parecia ter corrido mais rápido do que ele conseguia acompanhar.

— Não me diga que você esqueceu do próprio casamento — Viviane provocou, com um meio sorriso.

— Com tudo o que está acontecendo, quem pode me culpar? — ele respondeu, lançando-lhe um olhar duro, carregado de acusação.

Viviane se encolheu no sofá.

— Eu só estava brincando…

Cássio então notou os papéis espalhados sobre a mesa de centro. Pegou um deles, arregalando os olhos.

— Quarenta e cinco mil só em flores? Vocês enlouqueceram?

Esther se levantou, ofendida.

— Claro que não. É o casamento do meu filho. Você merece o melhor.

— Vocês ainda não entenderam que a empresa está em crise? — ele explodiu, folheando os outros orçamentos, cada vez mais alarmado. — Isso só pode ser brincadeira.

— São só alguns milhares… — minimizou a mãe. — Pra que esse escândalo todo? Como se você não pudesse pagar.

— E eu não posso! — Cássio respondeu, a voz tensa. — Tive que tirar dinheiro da empresa para pagar as coleções antigas. Tenho pouco mais de dez dias para repor, e nem sei de onde vou tirar. Minha conta tem menos de um milhão agora. E depois da fiança da sua filha — apontou para Viviane —, tem ainda menos.

— Eu sabia que estava difícil… mas não assim — Esther murmurou, abalada.

— Claro. Quando foi que alguém aqui se preocupou em saber? — ele retrucou. — Vocês só sabem gastar. Pra vocês, eu sou só um caixa eletrônico.

— Espera aí — Viviane se levantou, indignada. — Foi a Helena que te arrancou dinheiro e você desconta na gente? Que culpa nós temos?

— Você é burra ou o quê? — disparou Cássio.

O choque foi imediato. Viviane ficou muda, incrédula.

Ele riu sem humor, balançando a cabeça.

— Ela sempre teve razão. Você é mimada, nunca soube o que é trabalhar um dia na vida.

— Como você fala assim da sua irmã? — Esther questionou, consternada.

— E é mentira? — ele rebateu, encarando-a. — Sabia que era a Helena quem pagava até as contas desta casa? Eu só descobri depois que ela foi embora. El a nunca me pediu um sentado sequer. Agora me diz: quem aqui vive de grife, restaurante caro e ostentação?

Silvia que acompanhava tudo em silêncio remoeu o ódio por dentro ao vê-lo defendendo aquela mulher.

— Você não pode nos culpar! — Esther gritou. — Não era você mesmo que falava essas coisas dela?

Vendo a discussão escalar, Silvia se levantou e se colocou entre eles.

— Calma, gente. Somos família. Aquela mulher já não está mais aqui. Não podemos deixar que ela nos divida.

Virou-se para Cássio, com doçura ensaiada.

— Amor, sua mãe só quer o melhor pra você… pra nós.

Depois, olhou para Esther.

Na manhã de terça-feira, Santiago saiu sozinho para o trabalho depois de se despedir demoradamente de Helena, como se quisesse esticar o tempo antes de deixá-la. Ela, por sua vez, havia combinado de se encontrar com Júlia na floricultura. Precisavam escolher as plantas que dariam vida ao estande — preenchendo vasos, cachepôs e compondo o diálogo com as peças da coleção — enquanto o restante da equipe finalizava a fixação das cúpulas de vidro nas bases das luminárias.

O verde seria o contraponto essencial à arquitetura branca do espaço. A cor que traria aconchego, respiração e convite.

Quando Helena chegou, Júlia já a aguardava. As duas entraram juntas na floricultura, animadas, seguidas de perto por Pedro, atento como sempre. O entusiasmo era quase infantil — pareciam duas crianças soltas em uma loja de doces, os olhos passeando por folhas, texturas e volumes.

Escolheram grandes costelas-de-adão, de folhas largas e imponentes, uma pequena árvore-da-felicidade e uma espada-de-São-Jorge farta e vigorosa para os vasos de chão. Para os cachepôs decorativos, separaram cacto-macarrão, orquídeas brancas, gérberas em um delicado tom de rosa-chá antigo e mini lírios-da-paz. Já para os pontos suspensos, optaram por coração-emaranhado, jiboias e heras, que cairiam livres, criando movimento e suavidade no espaço.

Pedro ajudou o funcionário da floricultura a acomodar as plantas no carro com cuidado.

Pedro ajudou o funcionário da floricultura a acomodar as plantas no carro com cuidado. Em poucos minutos, já seguiam rumo ao centro de exposições, o porta-malas tomado por verdes promessas. Faltava apenas um dia para a feira começar, e a ansiedade pulsava em Helena como algo vivo — uma mistura de expectativa, orgulho e aquele frio bom na barriga de realização.

Quando chegaram ao estande empurrando um carrinho carregado com as flores, Helena parou, surpresa, ao se deparar com o que estava sendo finalizado.

Na parede do fundo da área institucional, Igor — o escultor — ajustava os últimos detalhes de sua obra em aço dourado. Uma composição geométrica de dodecaedros vazados se projetava em diferentes profundidades, criando um efeito visual que lembrava ondas em movimento. A escultura atravessava quase toda a extensão da parede de oito metros, com cerca de um metro e vinte de altura e suspensa a aproximadamente noventa centímetros do chão. Era imponente sem ser pesada, sofisticada sem parecer fria.

— Igor… — ela disse, aproximando-se devagar, ainda assimilando o impacto. — Ficou incrível. Eu não acredito que você conseguiu executar tudo isso em apenas uma semana.

Ele sorriu, claramente satisfeito ao perceber que havia acertado em cheio.

— Bom dia pra você também — respondeu, rindo.

— Mil perdões — ela disse, estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Fiquei tão impressionada que esqueci completamente da educação.

Enquanto conversavam, algo atrás dele chamou sua atenção. No chão, alinhadas com cuidado, estavam samambaias exuberantes acomodadas em cachepôs dourados, no mesmo tom do aço.

— E essas plantas? — perguntou, apontando para o carrinho que Pedro acabava de estacionar. — Parece até que combinamos.

— Você me deu liberdade criativa, lembra? — Igor respondeu, com um brilho cúmplice no olhar.

Antes que ela dissesse qualquer coisa, ele pegou um dos vasos e o encaixou em um dos dodecaedros mais profundos da estrutura.

— Oh… — Helena levou a mão à boca, surpresa. — Que ideia genial.

Um a um, ele foi posicionando os demais vasos nos módulos adequados. As folhas das samambaias desciam em cascata, atravessando os vazados geométricos, criando um jogo hipnotizante entre o verde orgânico e o dourado rígido do metal. O resultado era vivo, elegante, quase pulsante.

— E então? — perguntou ele, ao finalizar.

— Superou qualquer expectativa — respondeu Helena com sinceridade, afastando-se alguns passos para observar o conjunto à distância.

Aquela área era a única do estande que permanecia descoberta. À frente, o balcão de informações exibia a logomarca da Orsini Design em letras douradas, limpas e imponentes. Sobre ele, 3 das luminárias em vidro pendiam paralelas e ao fundo, a escultura agora completa parecia amarrar todo o conceito do espaço. Nada estava ali por acaso. Tudo conversava — forma, luz, matéria e intenção.

— Ficou... perfeito! — Foi tudo o que conseguiu dizer.

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