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Quadros de um divórcio romance Capítulo 229

“O pior pecado não é cometer o mal, mas acostumar-se a ele.” Fiódor Dostoiévski

O motorista aproximou-se do carro, obediente à ordem silenciosa que havia recebido.

— Senhorita Moretti. — anunciou, abrindo a porta traseira.

Silvia entrou sem dizer nada. O corpo caiu sobre o banco de couro como se estivesse mais pesado do que deveria, enquanto a mente girava enevoada.

A porta se fechou. O mundo ficou do lado de fora.

O carro começou a se mover, e as sombras das colunas da garagem atravessavam o interior em intervalos ritmados — faixas escuras cortando-lhe o rosto, como flashes intermitentes. Luz. Sombra. Luz. Sombra.

Uma onda de ódio crescia dentro dela, sobrepujando qualquer outro sentimento.

Ver Helena prosperar para ela era insuportável.

Não bastava ela ter sobrevivido. Não bastava ter reconstruído a carreira. Não bastava estar grávida, amada, admirada. Ainda precisava brilhar. E o pior de tudo, Cássio ainda a amava.

Que espécie de destino era aquele que concedia a Helena uma vida quase poética enquanto ela, que lutava com unhas e dentes, precisava implorar por migalhas?

Ela fechou os olhos com força.

Cássio não havia apenas traído Helena. Ele havia traído os próprios anos que viveram juntos, traído a parceria, traído o talento dela enquanto o explorava para se promover. Ele havia reduzindo-a a uma “dona de casa” sem valor, a subjugado. Permitiu que todos a sua volta a humilhasse, a diminuísse. Ele a reduziu a nada.

Aquilo deveria tê-la destruído.

Silvia tinha certeza disso.

Porque foi assim que a vida funcionou com ela.

Sua mãe foi tirada dela de forma abrupta e dolorosa. Seu pai a traiu quando escolheu o álcool em vez dela. Escolheu a dor em vez da responsabilidade. Escolheu afundar. E por fim, o triste fio do destino a ligara a Dante, que destruiu toda ingenuidade e pureza que existia nela.

Helena fora humilhada. Silvia também.

Helena fora traída. Silvia também.

Mas havia uma diferença que ela não conseguia aceitar.

Helena se recompôs.

Enquanto ela precisou aprender a sobreviver agarrando-se à fraqueza dos outros. Transformando sofrimento em combustível. Vulnerabilidade em arma.

A garotinha que um dia acreditou em contos de fadas foi sendo coberta por camadas. Camadas de cálculo. De ambição. De frieza. Ela pintou por cima da própria tela original tantas vezes que já não sabia mais onde começava a personagem e onde terminava quem realmente era.

Ela não queria ser vulnerável.

Nunca mais.

E talvez fosse isso que mais a corroía.

Helena tinha sido esmagada — e mesmo assim escolhera permanecer inteira.

Silvia fora esmagada — e escolhera virar pedra.

Os dedos dela se fecharam no tecido do vestido.

Ela queria que Helena sentisse o que ela sentira. A sensação de ser desmontada por dentro. De perder tudo. De não ter chão.

Mas Helena sempre encontrava um jeito de juntar os próprios pedaços.

Como?

Como alguém podia atravessar o inferno e ainda sair com luz nos olhos?

O carro saiu da garagem e entrou na rua ensolarada. A claridade invadiu o interior de uma vez, fazendo Silvia semicerrar as pálpebras.

Ela não queria luz.

Queria justiça. Ou vingança.

E, se a vida não trataria de destruir Helena, então talvez ela mesma tivesse que terminar o serviço.

...

Tânia estacionou percebendo que o carro de Cássio estava parado alguns metros de distância. Antes mesmo de desligar o motor, viu que justamente ele se aproximava com Silvia, o semblante fechado como quem enfrentava um turbilhão.

Franziu a testa. Instintivamente, permaneceu dentro do veículo com a porta apenas entreaberta. Não queria se intrometer. Não queria criar constrangimento. Mas também não conseguiu desviar o olhar.

Ela havia se atrasado. Precisara passar no hospital para resolver os detalhes da internação da mãe, que em breve enfrentaria uma cirurgia delicada. Perdera a fala do marido no evento — o que já a deixava frustrada — mas não imaginava que presenciaria uma discussão tão acalorada.

Cássio estava rígido. Silvia, encostada ao carro.

As palavras não chegavam por completo — apenas fragmentos, recortados pelo eco da garagem. Um tom elevado. Um gesto brusco. O nome de Helena.

Mas não foram as palavras que a marcaram. Foi o rosto de Silvia.

Quando Cássio se afastou, deixando-a sozinha por alguns segundos antes que o motorista se aproximasse, a expressão vulnerável que ela vestira momentos antes simplesmente desapareceu.

Não houve lágrimas. Não houve fragilidade.

O que surgiu no rosto de Silvia foi um ódio cru. Nu. Cortante.

Não uma raiva comum. Não a de alguém magoado. Era uma coisa mais funda. Mais escura. Como se a pele tivesse sido rasgada e algo primitivo tivesse vindo à superfície.

Por um instante, Tânia teve a impressão absurda de que Silvia poderia avançar sobre ele ali mesmo.

Um arrepio sinistro percorreu-lhe os braços.

Somando aquela cena às pequenas percepções que vinha acumulando nos últimos meses — os comentários ácidos, os olhares calculados, as pausas estratégicas nas conversas — uma conclusão começou a tomar forma dentro dela.

Renato tinha razão, havia algo profundamente errado com aquela mulher.

Assim que o carro de Silvia partiu, Tânia fechou a porta do carro com cuidado e trancou-o. Ajustou a bolsa no ombro, tentando afastar a sensação incômoda que lhe subia pela nuca.

Talvez estivesse exagerando.

Talvez o que vira em Silvia fosse apenas tensão pré-casamento.

Mas a imagem do rosto de Silvia, vazio de qualquer traço humano por um segundo inteiro, insistia em não sair de sua mente.

Apenas um reconhecimento silencioso.

E então voltou a se afastar, os dedos entrelaçados aos de Santiago.

Inteira.

Tânia permaneceu parada por um instante, observando-a se distanciar. Sentindo que aquele simples “fico feliz” não apagava nada do que havia feito — mas talvez fosse o primeiro gesto em direção a algo diferente.

Algo mais digno.

Porque, no fundo, Helena não havia sido a vilã da história de ninguém.

Só a mulher que decidiu parar de aceitar o papel que lhe impuseram.

...

Tânia atravessou o pavilhão em direção ao estande do Studio Cassiani quase no automático.

Os corredores estavam cheios, vozes se misturavam ao som de passos apressados, flashes de celulares, cumprimentos formais — mas ela mal registrava o entorno. Fizera aquele mesmo trajeto nos dias anteriores, sempre no mesmo horário, sempre com o mesmo propósito. Renato detestava a comida da praça de alimentação, e ela, conhecendo cada uma das manias do marido, assumira a missão de trazer algo decente para ele almoçar.

Era um gesto pequeno. Mas constante.

Chegou ao estande com o pacote ainda morno nas mãos. Aproximou-se de Renato e depositou um beijo rápido em seus lábios, quase automático, como já era costume entre eles.

— Trouxe o que você gosta — disse, entregando o embrulho.

Renato agradeceu com um meio sorriso, mas não desviou os olhos dela por muito tempo. Percebeu o modo como ela parecia… ausente. O olhar um pouco distante.

E, principalmente, o jeito enviesado com que ela observou Cássio quando ele retornou ao estande, após encerrar uma conversa com um decorador.

Não era um olhar casual. Era avaliativo.

Renato acompanhou discretamente o movimento.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, em tom baixo, enquanto abria o pacote.

— Não. — A resposta veio rápida demais.

Mas, antes de completar a frase, Tânia lançou outro olhar na direção de Cássio. Um olhar que dizia mais do que a palavra negada.

Renato a conhecia há anos. Sabia quando o “não” dela significava “não aqui”.

Ele fechou o pacote novamente, ainda sem dar a primeira garfada.

— Me acompanha? — sugeriu, apontando com a cabeça para a praça de alimentação.

Não era apenas sobre comer.

Era um convite. Um pedido silencioso para que ela dissesse o que estivesse atravessado na garganta — longe de ouvidos atentos demais.

Tânia hesitou por um segundo, depois assentiu.

Os dois se afastaram do estande juntos, deixando para trás o burburinho do evento e, sobretudo, o homem que agora parecia estar no centro de pensamentos que ela ainda não sabia como organizar.

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