“Quem vive de apagar rastros não sobrevive à exposição.”
Silvia permaneceu sozinha na cozinha dos Amaral depois que Cássio saiu. A inquietação não lhe dava trégua. Pegou o celular quase por instinto e abriu as redes sociais, guiada por uma intuição incômoda, daquelas que não se explicam — apenas se obedecem.
Primeiro, o feed comum. Cafés fotografados com excesso de filtro, frases vazias sobre gratidão, stories de gente acordando cedo demais para fingir normalidade. Nada.
Desceu. Atualizou. Nada.
O polegar começou a se mover mais rápido, menos preciso. Entrou no campo de busca e digitou o nome de Márcio quase sem perceber. Nenhum resultado direto. Claro que não. Ele não era idiota a ponto de deixar rastros óbvios.
Foi então que viu.
Um recorte de vídeo passava automaticamente, sem som, no canto da tela.
Helena.
Silvia franziu o cenho e clicou, já se perguntando por que um vídeo daquela mulher surgiria numa busca ligada a ele. Um pressentimento pesado se instalou no peito, ampliando seu medo.
Helena estava sentada ao ar livre, o cabelo ainda úmido, o rosto limpo, sem maquiagem aparente.
Silvia ativou o áudio.
Helena falava como quem se dirige a outras mulheres — não para convencer, mas para despertar.
“Sair pode parecer assustador. Mas continuar… pode ser fatal.”
O ar pareceu rarear na cozinha.
— O que você está fazendo? — murmurou para a tela, quase um sussurro.
A hashtag logo abaixo chamou sua atenção, acompanhada por uma sequência interminável de curtidas, comentários e compartilhamentos.
#HelenaDuarte
Clicou. A tela explodiu.
Centenas. Milhares. Recortes, análises, vídeos de reação, legendas em caixa alta. Mulheres costurando a própria história à dela nos comentários, como se aquele espaço tivesse se tornado um ponto de encontro.
“O SILÊNCIO PROTEGE O AGRESSOR.”
“ELA DISSE O QUE MUITAS NÃO CONSEGUEM.”
Silvia deslizou o dedo com rapidez, o coração acelerado fora de ritmo. Aquilo não parecia apenas uma exposição emocional. Tinha corpo, tinha volume. Parecia um movimento. Um coro.
Parou ao ver a descrição: Live completa — 14 minutos.
Hesitou por um segundo. Depois, clicou.
A imagem abriu. Helena começou do início. A apresentação calma. A história sendo construída com cuidado cirúrgico. Cada palavra encaixada no lugar certo. Cada pausa carregada de intenção.
E, junto com isso, a raiva de Silvia crescia — densa, quente, silenciosa.
Então veio a foto.
Márcio.
O corpo de Silvia se retesou inteiro, como se tivesse levado um choque. O ar sumiu dos pulmões.
O nome. O rosto. E a frase “Funcionário de uma das fábricas da empresa do meu ex-marido.”
As palavras ecoaram dentro dela como um disparo.
Então era por isso que Cássio estava assistindo ao vídeo.
— Não… não… não... — repetiu, mais para si mesma do que para a tela.
Será que ele se lembrara de já tê-la visto conversando com aquele homem no galpão? Será que começara a ligar os pontos — as tentativas contra Helena, os acidentes, as coincidências… e ela?
A ficha caiu com um peso frio.
Helena não estava apenas se defendendo. Ela estava avançando.
E Silvia estava cada vez mais perto de entrar no alcance.
...
Cássio esperava no corredor do lado de fora da sala de audiência, andando de um lado para o outro sem conseguir se fixar em lugar algum. A prisão de Viviane já havia chegado à cúpula da empresa — rápido demais — e seu celular não parava de vibrar com mensagens de sócios e conselheiros. Ele sabia. Já deviam estar se articulando para removê-lo.
Acabara de recusar mais uma chamada e permaneceu encarando a tela apagada do celular, descrente. Não seria fácil escapar agora. E isso porque eles ainda não sabiam do pior — que ele havia usado dinheiro da empresa para fechar o acordo das coleções antigas. Se descobrissem, o chão que ainda restava sob seus pés certamente cederia.
Voltou ao link da live de Helena que Renato lhe enviara. A interrupção de Silvia o fizera parar o vídeo antes terminar de assisti-lo. Agora, retomou do início — atento às palavras, não mais distraído pelo timbre da voz que ainda lhe apertava o peito.
Cada frase era um golpe seco. Não porque fosse mentira. Mas porque, dita daquele jeito, tornava impossível qualquer tentativa de distorção.
Quando Helena mostrou a cicatriz, ele fechou os olhos.
Quando falou da tentativa de sequestro, sentiu vontade de se esconder.
Quando mencionou o vazamento de gás, o nome Márcio ecoou na mente como um alarme.
Diante de tudo o que ela havia suportado, um nariz quebrado agora parecia insignificante. Patético, até.
Em que momento ela aprendera a se defender assim?
Não apenas com palavras — afiadas, irrefutáveis — mas também fisicamente.

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