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Quadros de um divórcio romance Capítulo 188

Pouco depois do meio-dia, Helena despertou sentindo dedos passearem por seus cabelos, movimentos lentos e cuidadosos, quase um afago. Piscou algumas vezes, ainda presa à névoa do sono, até que a imagem diante de si se ajustou.

Santiago a observava com um sorriso tranquilo — aparentemente renovado.

— Conseguiu descansar, minha defensora? — perguntou em tom leve.

— Que horas são? — murmurou ela, a voz ainda rouca.

— Hora de comer alguma coisa.

Helena tentou se erguer, mas ele se adiantou, acomodando-se atrás dela, oferecendo apoio. Os braços a envolveram com naturalidade, o queixo repousando em seu ombro.

— Eu sei que você ainda está cansada… — continuou ele, mais sério. — Mas o resultado da audiência já saiu.

O corpo de Helena enrijeceu de leve.

— E então? — perguntou, o coração acelerando. — Aquela mimadinha já está atrás das grades?

Santiago respirou fundo antes de responder.

— Vamos conversar lá fora. — disse, com cuidado.

Ela o encarou, apreensiva. Algo no tom dele dizia que a realidade não era tão simples quanto ela esperava.

Trocou de roupa e o seguiu até o quintal. Assim que saiu, foi tomada pela surpresa: uma grande mesa estava posta sob a sombra das árvores, organizada com o almoço de domingo — simples, mas acolhedor. Por um instante, tentou entender de onde aquilo tinha surgido.

A resposta veio rápido ao ver sua mãe sentada à mesa, ao lado de seu pai. Pedro conversava em voz baixa com Marcelo. Enquanto Lívia mexia concentrada em seu celular.

— O que está acontecendo? — perguntou, confusa, enquanto caminhava em direção a eles.

Todos perceberam sua presença quase ao mesmo tempo. A mãe foi a primeira a se levantar, atravessando o espaço com passos apressados.

— Minha menina… — disse, envolvendo-a num abraço cuidadoso. — Como você está? E o bebê?

— Estamos bem. — Helena sorriu, sincera. — Quem sofreu mesmo foi o Santiago.

— Eu sei. — respondeu a mãe, visivelmente abalada. — Já conversamos antes. É inacreditável a audácia daquela garota dos Amaral.

Fez um carinho breve no braço da filha antes de completar, mais suave:

— Mas estresse não faz bem ao bebê, e com tudo o que aconteceu…

Caminharam juntas até a mesa. O pai se levantou imediatamente para abraçá-la também, firme, protetor.

— Eu estou bem. De verdade. — Helena reforçou.

— Vimos a sua live. — disse Rogério. — Estamos orgulhosos de você.

Lívia apareceu ao lado deles quase pulando de energia.

— Amiga, você não tem ideia do que causou. Nem me avisou para que pudesse me preparar! A repercussão está gigantesca.

Helena riu de leve, um pouco sem graça.

— Desculpa… eu só precisava colocar tudo para fora. — Lançou um olhar para Santiago e estendeu a mão para a dele. — Eles passaram do limite.

— Você não está entendendo. — Lívia insistiu, empolgada. — Você não só desabafou. Você deu voz a muitas mulheres.

— E acendeu um holofote bem grande sobre vocês. — Acrescentou Pedro, sério. — Quem quer que esteja por trás desses atentados vai pensar duas vezes antes de tentar algo de novo. Atenção demais não é boa para quem quer agir nas sombras.

Helena assentiu lentamente.

— Se isso ajudar a impedir que façam mal outra vez às pessoas que eu amo… então já valeu a pena.

Marcelo inclinou-se para trás na cadeira, com um sorriso enviesado.

— Quem diria que tudo isso despertaria uma fera na nossa doce Helena?

As risadas vieram leves, quase um alívio coletivo.

Ela sorriu também, mas havia firmeza em seus olhos quando respondeu, voltando-se para Santiago:

— Mexa comigo, mas não mexa com os meus. Não é assim que dizem?

Apertou a mão dele com mais força.

— Você me protegeu tantas vezes… e por minha causa ousaram mexer com você. Eu sinto muito.

— Ei… nada disso é culpa sua. — disse Santiago, segurando o rosto dela com cuidado, obrigando-a a encará-lo.

Helena assentiu, mas o gesto foi mais automático do que convencido.

Voltou-se então para Lívia.

— E a audiência? — perguntou, direta.

A amiga advogada perdeu o sorriso, assumindo um tom profissional.

— Liberdade provisória. — respondeu. — Mas fica tranquila. Isso não acaba aqui. Pegamos ela no processo.

Por um instante, algo como frustração cruzou o rosto de Helena. Breve. Controlado. Logo deu lugar a um olhar firme, decidido.

Rogério pigarreou, quebrando o clima com a autoridade carinhosa de sempre.

— Chega de tribunal por hoje. Está na hora de encher a pança. — falou, já puxando a cadeira. — Você principalmente, filha. Agora que precisa comer por dois.

— Deu pra perceber — Helena concordou. — Pelo pouco tempo que conversamos, já fiquei bem segura. Vou entrar em contato com ela amanhã.

— E sobre o que as garotas estão conspirando por aqui? — perguntou Rogério, surgindo do quintal acompanhado pelos demais.

— Sobre a reforma da casa deles — respondeu Consuelo, animada. — Estávamos trocando ideias.

— Ah, isso também entrou na pauta lá fora — Rogério sorriu. — As crianças vão ter um espaço incrível pra brincar.

— Crianças? — Helena riu, erguendo as sobrancelhas. — Vai com calma, pai. Um de cada vez.

— Seu pai tem razão — Santiago disse, aproximando-se dela por trás, apoiando as mãos em seus ombros. — Já consigo imaginar um monte de ranhentinhos correndo pela grama.

Helena virou o rosto para ele, fingindo reprovação, mas os olhos denunciavam o sorriso.

...

Quando todos foram embora, já no meio da tarde, Santiago pegou o notebook para finalizar os últimos detalhes da exposição que aconteceria em alguns dias. Arrumou-se no quintal, a uma distância confortável de Helena, que já estava diante do cavalete, com uma tela nova apoiada e os materiais espalhados ao redor.

Entre uma pincelada e outra, ela lançava olhares distraídos em sua direção — e invariavelmente o flagrava observando-a

— Se continuar assim, essa exposição não vai sair — ela provocou, sem tirar os olhos da tela.

— Não me culpe — ele respondeu com um sorriso preguiçoso. — Você fica linda demais quando está concentrada pintando. É impossível resistir.

Helena riu, balançando a cabeça em falsa reprovação.

— Um galanteador incurável.

Voltou a se concentrar. O pincel avançava com cautela, como quem toca uma ferida antiga sem saber exatamente onde dói mais. Na tela, a figura de uma mulher começava a emergir — fragmentada, construída em camadas que nunca chegaram a se fundir por completo.

O corpo existia, mas sem contornos definidos: ombros curvados demais, braços recolhidos junto ao peito num gesto instintivo de autoproteção. As mãos, longas e tensas, quase em forma de garras, surgiam manchadas por tons escuros. O rosto permanecia incompleto — metade dissolvida em sombras azul-acinzentadas, a outra perdida em pinceladas cruas de um branco sujo, como se a identidade tivesse sido apagada à força.

O espaço ao redor da figura não era um lugar reconhecível. Não havia móveis, nem chão, nem teto — apenas a sugestão de paredes se fechando, opressivas. Linhas tortas cortavam o fundo como rachaduras, e entre elas escorria um vermelho diluído, não violento, mas exausto. A cor de uma opressão prolongada.

Os olhos, porém, saltavam da tela. Grandes. Úmidos. Presos a um ponto invisível fora do quadro, como se aguardassem um impacto que nunca vinha — e que, ainda assim, mantinha o corpo inteiro em permanente estado de alerta.

A luz da pintura não vinha de lugar algum. Não havia janelas. Nem saída. Apenas um foco pálido incidindo sobre o centro do peito da figura, onde Helena deixara uma área quase intacta — sem cor definida. Um vazio luminoso que doía mais do que qualquer sombra.

Só quando ela deu alguns passos para trás, buscando ver o todo, percebeu que o sol já havia se posto e fora substituído pelas fortes luzes do quintal acesas — Santiago devia tê-las ligado em algum momento. Também notou o xale cuidadosamente apoiado sobre seus ombros, e sorriu com o gesto silencioso de cuidado.

Voltou os olhos para a tela e soube que havia conseguido. O sentimento não estava apenas representado — ele pulsava. O quadro não pedia interpretação. Exigia empatia. Quem o visse entenderia, mesmo sem saber explicar, o que era existir dentro de um casamento que não quebra ossos, mas corrói a alma, dia após dia.

Helena respirou fundo.

Aquela dor não estava só dentro dela.

Agora, tinha forma. Cor. Voz.

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