Cap.120
O Vazio da Manhã
POV. Katleia)
A luz do sol estava alta quando abri os olhos.
O quarto estava iluminado por uma claridade dourada que entrava pelas frestas da cortina, pintando listras quentes no edredom revirado. O ar ainda cheirava a cera das velas que queimaram até o fim.
Mas o lado da cama ao meu lado estava vazio.
Frio.
Estendi a mão, tateando o lençol onde ele deveria estar. Não havia calor residual. Não havia a marca de seu corpo no travesseiro. Apenas o vazio.
— Átila? — chamei, a voz saindo rouca, ainda embargada pelo sono.
Silêncio.
Levantei-me devagar, sentindo os músculos das pernas ainda bambas da noite anterior. O pijama estava amassado, a camisa aberta, as marcas de seus dedos ainda na minha pele, pequenas manchas roxas que eu tocava sem querer, sentindo um calafrio quente subir pela espinha.
Olhei ao redor. Nada.
Peguei o roupão no pé da cama, cobrindo o corpo ainda nu, e caminhei até a cômoda. Meus olhos encontraram uma caixa de remédio, parece que ele acordou bem cedo.
Peguei o pacote pequeno, Anticoncepcional.
Ele comprou. Ele foi à farmácia, comprou o remédio, colocou sobre a cômoda. E depois foi embora.
Sem bilhete. Sem despedida. Sem explicação.
Sentei no chão, encostada na cama, a caixa do remédio apertada contra o peito. Não era tristeza. Era confusão e uma sensação de ter sido deixada para trás.
— Por que você não fica? — sussurrei para o quarto vazio.
Depois de um banho demorado, com a água quente tentando lavar a confusão dentro de mim, sentei-me diante do laptop.
O cabelo ainda molhado pingava sobre os ombros, e a camisa de pijama trocada agora era azul, a cor que ele disse que gostava, eu nem me importava muito.
O e-mail estava lá.
No topo da caixa de entrada.
Remetente, o mesmo homem que me infernizou por dias.
Meu coração parou.
O cursor piscava sobre o assunto vazio. Apenas o nome dele, a data, a hora. Minha mão tremeu sobre o mouse. Meus olhos percorreram as primeiras linhas sem querer ler.
Kat-x. Vou direto ao ponto porque rodeios são covardias que você não merece."
Fechei a tela.
O clique foi seco, violento. O laptop tremeu sobre a mesa.
— Não quero saber — disse em voz alta, levantando-me da cadeira. — Não quero ler. Não quero saber não.... não vou deixar esse homem acabar com meu dia.
Comecei a andar pelo quarto, os pés descalços no tapete, a respiração acelerada. Minhas mãos tremiam. Meu coração martelava.
Olhei para o laptop.
Respirei fundo. Sentei novamente.
Abri o e-mail.
"Sou o homem que escreveu os e-mails. Sou o homem que te perseguiu."
Li uma vez. Duas. Três.
A letra dançava diante dos meus olhos. As palavras se misturavam, se embaralhavam, se recusavam a fazer sentido.
"Não estou pedindo perdão. Não tenho esse direito."
Minha mão coçava para fechar a tela de novo. Para ignorar.
Eram fotos.
Close-ups de pele rasgada, hematomas em tons de roxo e preto, pulsos marcados por cordas. E, por fim, uma foto do rosto. Rose.
Ela estava desfigurada, os olhos inchados, mas ainda era ela. Logo abaixo, um texto que parecia um soco no estômago:
"Esse é o tipo de homem que você ama? Ele não é diferente dos monstros que te quebraram, Katleia. Ele me marcou, me manteve em cativeiro por dias no escuro. Você vai mesmo entregar sua vida para alguém que faz isso com as mulheres quando elas o incomodam?"
O ar fugiu dos meus pulmões. O vídeo veio em seguida. Play.
— Você pode pensar que é montagem — a voz de Rose no vídeo estava rouca, quebrada. — Então veja. Veja as marcas que o seu "salvador" deixou em mim antes de me descartar em uma valeta qualquer. Ele não está te salvando, Katleia. Ele só está te treinando para ser a próxima prisioneira dele.
O celular escorregou da minha mão, batendo no chão com um som oco.
Recuei até bater as costas na parede, a mesma parede onde ele me beijou com tanta paixão. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia fechar os punhos.
Eu sabia que Átila era cruel com seus inimigos, mas Rose? Ela era apenas uma mulher inconveniente, uma provocadora fútil. Torturá-la? Mantê-la em cativeiro? Era o espelho exato do meu passado. Era o método do meu próprio trauma.
Saí do quarto correndo, o corredor parecendo se esticar infinitamente.
Desci as escadas tropeçando nos próprios pés e invadi a cozinha. Selene estava lá, rindo com as outras.
— Onde está o Adon? — perguntei, minha voz saindo num grito sufocado. — Eu tento ligar para o Átila, mas ele não atende! Onde ele está, Selene? Me diga agora!
Selene parou de rir instantaneamente, assustada com o meu estado.
— Kat? Você está pálida... O Adon foi para a casa do nosso pai. Estão em uma reunião de emergência. O Átila... ele está agindo estranho desde ontem. Está com problemas sérios, sem dinheiro, tentando apagar os incêndios que ele mesmo criou com os Bertans e...
Eu não ouvi o resto. O tremor nas minhas mãos tinha se espalhado para o resto do corpo. O "filantropo" que salvava cães era o mesmo homem que esfolava mulheres em galpões escuros? Eu precisava olhar nos olhos dele. Eu precisava saber se o homem que me abraçou com tanto carinho era apenas uma máscara perfeita do monstro que eu mais temia.
Gildete encarou Selene e passou o celular para ela em silencio como se quisesse mostrar algo que acabara de ver.
Selene franziu o cenho.
— que tipo de noticia é essa?
— por que você não ler? É uma conhecida sua, sinceramente... já esperava que ela fosse acabar assim em algum momento, mas é de arrepiar a crueldade.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!