Cap.123
O Último Embarque
O aeroporto de Monselha era um formigueiro de vidro e aço, com telões anunciando voos e corredores que se bifurcavam em infinitas direções.
As quatro mulheres desembarcaram do carro como se estivessem em uma missão de resgate, os cabelos ao vento, os olhos percorrendo cada canto em busca de um homem de sobretudo escuro e expressão fechada ou o que elas poderiam imaginar, assim como seus irmãos ele também se destacava, então pensava que seria fácil encontrar.
Guilhermina foi a primeira a falar, consultando o relógio no pulso com uma precisão militar.
— Meia hora. Ainda falta meia hora se Adon deu o horário certo, não é?
— Meia hora — Selene confirmou, os olhos já varrendo o saguão principal. — Mas o aeroporto é enorme. Vários pontos de embarque. Múltiplos portões. Não dá para ficarmos juntas.
— Vamos nos separar — Gildete decidiu, o instinto de liderança aflorando. — Cada uma pega uma ala. Estejam todas com o celular ligado e vibrante. Se alguém encontrar, grita no grupo.
— Grita no grupo? — Katleia repetiu, confusa.
— GRITA NO GRUPO! — todas disseram em uníssono, e se dispersaram como formigas em um formigueiro em alerta.
Maju correu.
Seus pés descalços dentro das pantufas de pelúcia, as únicas coisas que tivera tempo de calçar antes de sair de casa, batiam no piso quase inaudível.
A calça cinza de moletom estava amassada, a camisa branca de alça fina era fina demais para o ar condicionado gelado do aeroporto, e os cabelos, que ela não tivera tempo de pentear, voavam para trás como uma bandeira de desespero como uma juba de leão.
Ela não se importava.
Cada segundo que passava era um segundo mais perto dele partir. Cada passo que ela dava sem encontrá-lo era uma facada no peito.
— Onde você está? — ela sussurrava, os olhos arregalados percorrendo cada rosto, cada figura alta, cada sobretudo ou estilo que ela pensava ser o dele.
Passaram-se cinco minutos. Dez.
O coração de Maju parecia querer sair pela boca. Ela já havia percorrido a ala nacional, a ala internacional, os lounges, as lojas duty-free. Nada.
— Por favor — ela murmurou, correndo em direção às escadas rolantes. — Por favor, deixa eu encontrar você.
E foi quando o viu.
Um homem alto, de sobretudo escuro, subindo a escada rolante em direção ao segundo pavimento. A postura ereta. O cabelo escuro. A maneira como segurava a pasta de couro, tudo era ele.
Quando a escada acabou e ele deu so apenas um passo, maju conseguiu ver seu rosto, ela subiu a escada correndo como se sua vida dependesse disso e gritou.
— AXEL!
A voz saiu estridente, cortando o ruído do aeroporto.
O homem parou.
Seus ombros se tensionaram. Por um segundo, ele pareceu hesitar, como se considerasse a possibilidade de continuar seguindo e fingindo que não ouviu.
Mas ele se virou.
Axel desceu os olhos pela escada rolante, contra a direção do movimento, e encontrou o rosto de Maju.
Ela estava na base da escada, ofegante, os olhos enormes e brilhantes de lágrimas.
O cabelo desalinhado. As pantufas de pelúcia. A camisa branca de alça fina que deixava seus ombros expostos ao ar frio.
Ela parecia uma visão, uma visão desgrenhada, desesperada, completamente fora de lugar em meio aos viajantes elegantes e às malas de mão caras.
Ele deu passos em direção aos os degraus ignorando o fluxo contrário das pessoas, e quando chegou à base, Maju já estava correndo em sua direção.
Ela se jogou nos braços dele.
O impacto foi tão forte que Axel deu um passo para trás para se equilibrar, mas seus braços a envolveram automaticamente, como se fosse a reação mais natural do mundo.
— Você não vai! — Maju enterrou o rosto no peito dele, as palavras saindo abafadas, embaralhadas, molhadas de lágrimas. — Por favor! Não vá! Por favor, Axel... por favor...
Axel ficou imóvel.
Seu corpo estava rígido, as mãos suspensas no ar por um segundo antes de finalmente se fecharem sobre as costas dela. Ele não esperava isso. que ela viesse. Não esperava que ela estivesse ali, vestida ainda de pijama, os olhos inchados de choro, a voz rouca de desespero.
— Como você... — ele começou, a voz saindo mais fraca do que ele gostaria.
Maju se afastou apenas o suficiente para olhar em seus olhos. As lágrimas escorriam livremente, sem que ela tentasse esconder.
— Eu vim com as meninas — ela disse, ainda ofegante. — Selene dirigiu. Chegamos em meia hora. Corremos pelo aeroporto todo, achei que não ia te achar...
— Maju...
— Eu mal consegui me trocar! — ela continuou, o choro deixando a voz quase ininteligível. — Nem as meninas quando souberam que você já estava no aeroporto... como pode ser tão cruel? Como pode querer ir sem se despedir? Como se atreve?
Axel a observou. O cabelo desalinhado. As pantufas de pelúcia, pantufas de pelúcia dentro de um aeroporto internacional. A camisa branca fina que deixava seus ombros pequenos expostos, a pele escura brilhando sob a luz fluorescente.
Ele queria cobri-la, escondê-la. Queria envolvê-la em seu sobretudo e protegê-la de todos os olhares que certamente estavam sobre ela — homens que a viam como ele via, mulheres que julgavam sua roupa inadequada, todos os olhos que a transformavam em objeto sem seu consentimento.
— Maju... — ele tentou novamente, a voz mais controlada agora. — Não dá para ficar. Eu não quero... não posso...

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