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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 312

Cap. 119: O Manipulador e Sua Rede

POv atila Felix.

Eu sou o tipo de cara... que consegue escapar das consequências facilmente, viver uma vida de mentiras vem elaborada e já planejada por anos, mas sabe? Existe uma culpa... a culpa que eu não consigo fugir, que aquela que afeta o próprio coração.

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Nesse momento estou no meu espaço favorito.

A sala de observação era pequena, escura, quase claustrofóbica.

As telas brilhavam na penumbra como olhos de insetos gigantes, piscando com notificações, manchetes e feeds de redes sociais. Eu estava sozinho, como sempre estivera, como sempre estaria. O ar cheirava a café frio e eletricidade estática.

Eu ria.

Não era um riso contido, Era um riso escancarado, descontrolado, que ecoava pelas paredes vazias e me fazia dobrar o corpo sobre a cadeira, as mãos pressionando os olhos como se pudesse segurar as lágrimas de puro deleite.

— De certa forma — murmurei entre uma risada e outra —, eu realmente tinha esses animais.

A ironia era tão ácida que corroía meus dentes.

Por anos, o covil abrigou os piores monstros da sociedade. Pedófilos, estupradores, traficantes de crianças. Homens que eu torturava devagar, com precisão cirúrgica, até que confessassem cada pecado. E agora, os mesmos jornalistas que se recusavam a investigar o que acontecia ali estavam fazendo reportagens enternecidas sobre cãezinhos abandonados.

— Onde eu encontraria tantos animais bem cuidados? — continuei, falando sozinho como um louco. — É quase cômico.

A verdade, é claro, era que eu realmente mantinha pontos de resgate animal espalhados pela cidade. Não era fingimento. Não era fachada. Os projetos existiam, haviam existido por anos, financiados com dinheiro sujo, é verdade, mas existiam, era meu jeito de lavar dinheiro, cada Felix tem seu jeito para fazer isso, e eu pensei... por que não lavar dinheiro usando canis?

Dezenas de cães e gatos retirados das ruas, castrados, vacinados, encaminhados para adoção. Clínicas veterinárias populares funcionando em bairros carentes. Feiras de adoção aos fins de semana.

E agora, todo aquele trabalho corria o risco de ruir, porque eu me fodi, por mais que aqueles lugares servisse para lavar dinheiro, no final... eu gostava de manter, então o que tem nas noticias não são totalmente mentira, eu sou meio filantropo, mas é meio vergonhoso assumir que eu... cuido de animais de rua, imagino se Adon não riria da minha cara, mas foi isso que me salvou.

— Droga — suspirei, passando a mão no rosto. — Como vou manter isso agora?

O dinheiro dos Felix esta bloqueado. Minhas contas, congeladas. Os projetos comunitários que eu financiava com recursos desviados dos negócios ilegais de repente tinham se tornado um peso que eu não podia carregar sozinho.

— Ainda bem que desviei alguns milhões para a conta comunitária — murmurei, aliviado. — Pelo menos os projetos não vão morrer amanhã, mas até que eu consiga voltar a ativa, acho que vou passar fome se não arrumar um trabalho.

A ideia veio como um clarão.

— Vou fazer com que as pessoas ajudem a manter esse lugar — disse, estalando os dedos. — Não vou pedir esmola. Vou criar uma narrativa, claro! Meus livros podem não ser os mais lidos como os da minha tegrasa, mas com certeza sou bom em criar narrativas.

Meus dedos voaram sobre o teclado. As telas se multiplicaram. Portais de notícias, redes sociais, blogs influentes. Comecei a disparar informações, alimentando a máquina com a precisão de quem a dominava há anos.

As manchetes que eu queria ver começaram a surgir.

"Ex-herdeiro dos Felix mantinha abrigo de animais em segredo, agora falido, como ele vai continuar a ajudar? Onde os animais vão viver daqui para frente?"

"Átila Felix: o filantropo que a mídia ignorou"

"Cães resgatados podem perder lar após renúncia do segundo Felix"

"Como um homem bom perdeu tudo e ainda assim continua ajudando?"

Eu digitava e ria.

— A graça de ser manipulador — disse para os monitores, como se eles pudessem me ouvir — é saber onde tocar na ferida de cada pessoa.

Cada manchete era uma faca. Cada artigo, um golpe cirúrgico na campanha dos Bertans para me destruir.

Eles queriam me fazer parecer um monstro? Eu me vestiria de santo. Eles queriam expor meu covil? Eu o transformaria em um abrigo.

Eles queriam ver minha queda? Eu lhes daria uma queda tão espetacular que eles próprios pareceriam vilões da história.

— Foi assim que eu me fodi com Kat X — suspirei, a lembrança me atingindo como um soco.

O nome dela pairou no ar, e o riso morreu na minha garganta.

A ironia me perseguia. Eu, que manipulava a opinião pública com maestria, que sabia exatamente onde tocar em cada ferida, que construía narrativas como outros constroem pontes, eu havia sido destruído por uma escritora.

Por ela.

Por Kat X, minha querida Katleia, caramba, essa menina feriu meu coração de verdade.

Porque eu não conseguia tocar na ferida dela sem tocar na minha própria.

— Deus — murmurei, jogando a cabeça para trás na cadeira ao olhar todas as notícias sem falar que Adon e Axel quase foram presos por minha causa, imagina se estivesse tudo lá e eles dois? Tudo entregue de bandeja e os dois parlemos de brinde. — Quase me fodi. Ainda bem que pensei rápido.

Lembrei do covil sendo transformado, dos corpos desaparecendo, das provas sendo apagadas. E tudo em uma noite em claro, dos soldados sendo realocados, do homem de jaleco sendo contratado.

Tudo tinha sido feito nas últimas 24h. Uma corrida contra o tempo.

E eu venci.

— Que merda — continuei, os olhos fixos no teto. — Como vou recuperar meu soldado agora?

O soldado capturado pelos Bertans. Um dos meus melhores homens, não sei como o embaixador conseguiu escapar e um dos meus homens foi pego. O único elo entre eles e eu que ainda respirava.

— Os Bertans não vão ficar com ele — concluí. — Não têm acusação. Não têm provas. Vão liberar. Vão ter que liberar, no mínimo vão deduzir que ele é só um cão do meu canil e estão bem certo.

A lógica era fria, mas a preocupação permanecia.

Virei a cadeira para a parede oposta. A tela do meu e-mail particular brilhava, com uma mensagem nova no topo.

Uma carta.

Meu advogado havia encaminhado a intimação. Eu tinha mais uma audiência. Mais uma chance de confessar. Mais uma chance de me redimir.

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