Cap 162: A Coroa de Espinhos
O vento gelado do fim de tarde cortava as frestas dos arranha-céus da capital, fazendo o tecido do terno sob medida de Adon Felix tremular de leve.
Ele estava de pé na calçada, ajustando as abotoaduras de prata nos pulsos. Seus movimentos eram calculados, mas a rigidez em sua mandíbula entregava o turbilhão interno.
Ao seu lado, William mantinha a postura impecável de um soldado veterano, os olhos atentos a qualquer movimentação suspeita na avenida movimentada.
Eles estavam prestes a dar o passo definitivo. Não havia mais espaço para recuos; a partir daquela noite, o destino da família Felix estaria selado sob o comando de Adon.
Logo à frente, guardando a entrada imponente de um grande prédio empresarial espelhado cuja fachada de vidro refletia o céu cinzento, duas figuras conhecidas os aguardavam.
O Don Alex Felix, vestindo um sobretudo escuro que lhe conferia um ar de patriarca intocável, mantinha os braços para trás. Ao seu lado, Willy Forges, seu conselheiro de longa data, sustentava uma expressão enigmática, segurando uma pasta de documentos executivos.
— Eles estão prontos — William murmurou baixo, apenas para que Adon ouvisse. — O Conselho já está reunido no trigésimo andar. Os homens mais influentes do pais estão sentados àquela mesa esperando para ver se você tem o que é preciso para carregar o anel.
Adon respirou fundo, endireitando a postura.
— Eles não têm escolha, William. Ou me aceitam, ou a cidade queima.
Ao se aproximarem, Alex Felix mediu o filho caçula com um olhar clínico, carregado de uma avaliação silenciosa.
Não havia abraços ou palavras de afeto paternal. No mundo deles, o respeito era uma moeda conquistada com sangue e eficiência.
— Você demorou — Alex disse, a voz rouca e firme. — O Conselho detesta esperar, Adon.
— Eu estava garantindo que os nossos flancos estivessem protegidos, meu pai — Adon respondeu à altura, sustentando o olhar do velho Don. — Um líder que entra em uma sala de negociações sem o controle absoluto das suas ruas já entra derrotado.
Willy Forges deu um passo à frente, esboçando um meio sorriso cúmplice.
— Vamos subir. O tempo é curto e os senhores da alta cúpula querem ver os números.
A sala de reuniões no topo do edifício executivo era o ápice do luxo corporativo misturado ao poder paralelo.
Uma mesa elíptica de jacarandá maciço ocupava o centro do recinto, cercada por poltronas de couro onde se sentavam os cinco conselheiros da alta cúpula do submundo.
Eram homens de cabelos grisalhos, vestindo ternos que custavam fortunas, mas cujos olhos carregavam a frieza de quem já havia assinado centenas de sentenças de morte.
Eram juízes corruptos, magnatas da indústria portuária e barões do mercado financeiro que davam as cartas no Estado.
Átila Felix já estava posicionado estrategicamente ao canto da sala, encostado na parede de vidro com os braços cruzados.
Ele mantinha um silêncio sepulcral, agindo como a sombra militar da família, observando cada movimento dos conselheiros com seus olhos de falcão.
Adon caminhou até a cabeceira oposta da mesa e espalhou uma série de relatórios impressos e tablets com gráficos holográficos. A análise começou imediatamente. Os conselheiros cruzaram os braços, avaliando o jovem herdeiro com desconfiança evidente.
— Você é jovem, Adon — começou o Conselheiro Alvarez, o mais velho da mesa, a voz arrastada. — Seu irmão Átila sempre foi o braço armado, e seu pai a mente política. O que garante que você não vai desmoronar o império que levou trinta anos para ser construído? Não falamos de manter o grupo Felix, conhecemos sua competência e como tem trabalhado a mais de dez anos para manter esse grupo, mas agora a organização é outra coisa.
Adon não hesitou. Ele apoiou as duas mãos na mesa, inclinando-se ligeiramente para a frente, demonstrando dominância.
— O que garante, senhores, são os números que estão diante dos seus olhos — Adon começou, a voz firme ecoando pela sala acústica. — Nos últimos trinta dias, sob o meu comando interino, eu reestruturei toda a logística de distribuição da zona portuária. As atividades clandestinas menores, que não geravam lucro significativo para a organização dominante e apenas serviam para atrair os olhos da polícia federal, já estão sendo completamente derrubadas. Limpei os becos. Além disso, estabeleci uma nova diretriz clara, outras organizações periféricas não podem mais coexistir na nossa cidade sem que paguem uma taxa de permanência de trinta por cento sobre o faturamento bruto delas. Quem não pagar, será extinto.
Os conselheiros começaram a folhear os relatórios, trocando olhares surpresos com os lucros recordes apresentados em tão pouco tempo.
Willy Forges deu um passo à frente, pigarreando para chamar a atenção da mesa.
— Senhores, como conselheiro principal da transição, eu gostaria de apresentar formalmente o senhor William como o novo conselheiro pessoal de Adon. Eu, Willy, continuarei trabalhando diretamente ao lado de Alex Felix em suas campanhas políticas para o Senado e o Governo, utilizando todos os nossos meios institucionais para blindar a família de investigações. Enquanto o Don Adon trabalha na infraestrutura interna da cidade, Alex criará mais ligações de alto escalão para expandir a nossa organização, garantindo influências políticas e imunidades parlamentares que nos tornarão intocáveis.
O líder principal assentiu devagar, parecendo convencido pela simbiose entre o crime de rua e o colarinho branco. No entanto, um dos conselheiros do setor de inteligência interveio.
— Tudo isso é muito promissor, Adon. Mas e quanto ao território que foi tomado do Corvo? Soubemos que a facção de Omar e seus integrantes remanescentes haviam tomado as principais rotas de contrabando enquanto vocês se concentravam em problemas domésticos naquela epoca. O Conselho exige estabilidade. E quanto a Omar? A ordem de execução decretada por esta mesa já foi cumprida?
Adon comprimiu os lábios por um breve segundo, trocando um olhar rápido e quase imperceptível com Átila, que continuava estático no canto da sala. Adon ajeitou o paletó antes de responder:

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