O colar de Atlas pulsava num brilho pulsante, quase vivo, espalhando clarões verdes pelo campo devastado. O eclipse já tomava o céu por completo, tingindo tudo de cinza e vermelho. A poeira, o sangue e a fumaça formavam um véu pesado sobre o campo, e no centro de tudo, a cena parecia saída de um pesadelo.
River, o Supremo, ainda estava transformado, o corpo colossal, coberto de feridas abertas, arfava em silêncio. O peito subia e descia com dificuldade. Os olhos, turvos, oscilavam entre o verde do controle e o vermelho de quem tentava resistir.
Entre as garras dele, Caleb se debatia, o pescoço preso pelos dentes do alfa supremo, o sangue escorria, manchando o pelo branco da fera menor. Caleb rugia, uivava, mas a força de River era absurda, o som do ar sendo sugado pela garganta dele soava como um pedido mudo de socorro.
Atlas observava, satisfeito.
O sorriso largo no rosto, o colar pulsando como se acompanhasse as batidas do coração dele.
— Isso, Supremo. — murmurou, baixo. — Termine o que começou.
O grande lobo continuava apertando os dentes na jugular da fera com cada vez mais força. Parte do seu corpo parecia tentar resistir, tentar não acabar com o companheiro de sua filha, como se sua consciência estivesse, em algum lugar, tentando sair para fora. Mas o domínio de Atlas era forte demais.
— Pai! — Lua gritou, a voz rasgando o ar. — Por favor, não! É o Caleb! Ele é meu companheiro! Não faz isso!
Ela correu alguns passos à frente, as mãos trêmulas, o coração batendo tão rápido que o som parecia ecoar na cabeça.
River virou o rosto apenas um pouco, e os olhos dele encontraram os dela por um segundo.
Aquele instante bastou para Lua perceber que o vermelho dos olhos do pai se apagava lentamente, como se sua consciência, sozinha, não fosse o bastante para lutar contra o uivo de comando do irmão. Ele estava perdendo.
— Por favor! — ela gritou, a voz falhando. — Se for pra alguém morrer, que seja eu! Só… deixa ele viver. Deixe todos viverem!
Atlas deu uma risada rouca, o som ecoando por todo o campo de batalha, que era um banho de sangue.
— Que cena bonita. — disse, com sarcasmo. — A filha implorando pela vida do companheiro, isso é fofo, sabia? Via conseguir perdoar seu pai quando ele matá-lo?
O alfa das montanhas deu alguns passos à frente, os olhos fixos nela.
— Vai se sacrificar por eles, oráculo? Se fizer isso, tudo acaba…
Lua respirou fundo, lágrimas grossas escorrendo pelo rosto e pingando pelo queixo.
— Sim. — respondeu, firme, a voz embargada, mas sem hesitar. — Se for pra salvar meu pai e meu povo e meu companheiro, eu vou.
Solomon, que ainda lutava mais atrás, se virou ao ouvir aquilo.
— Não, Lua! — gritou, desesperado. — Você não pode! É isso que ele quer!
Mas era tarde demais, Atlas ergueu o queixo, o sorriso satisfeito voltando ao rosto os olhos brilhando com a vitória, o prazer de finalmente conseguir o que queria, dominar o irmão e tomar para si a loba oráculo.
— A loba oráculo se rendeu! — disse, teatral. — O destino é mesmo generoso comigo. — Ele estendeu a mão, o gesto frio e calculado. — Venha, minha companheira.
O coração de Caleb disparou.
Ainda preso entre as garras do alfa, ele tentou se erguer, a dor cortando o corpo, um uivo de puro desespero escapou dele quando viu Lua dar o primeiro passo. Seus olhos se enchendo de lágrimas, não só de dor, mas de medo de tristeza estava perdendo sua companheira, falhou em protegê-la.
Lua olhou pra trás, chorando, os olhos marejados encontrando os dele.
— Me perdoa... — murmurou, baixo.
Caleb se debateu com todas as forças, o rugido dele ecoando, um som primal de dor e fúria.
River, como se sentisse o desespero do rapaz, começou a tremer de novo. O corpo dele se contorcia, a mandíbula apertando o pescoço da fera branca sem força suficiente pra matar, mas o bastante pra ferir.
O cheiro do sangue de Caleb invadiu o ar.
E chorou.
***
Minutos depois, os sons de passos apressados ecoaram pelos fundos da alcateia.
Os guardas que ainda conseguiam ficar de pé se viraram quando a figura surgiu da mata, os cabelos dourados desgrenhados, o rosto sujo de terra, o corpo ainda ferido.
Era Lyra.
— Onde está ele?! — gritou, a voz rasgando o silêncio. — Onde está o River?! Cadê minha filha?!
Petra correu até ela, tentando segurá-la.
— Lyra, calma…
— Não me pede calma! — ela empurrou a amiga, o olhar ardendo em prateado. — Eu sinto ele! Ele tá vivo, mas… — a voz dela falhou. — Algo tá errado.
Ela olhou ao redor e viu o rastro de destruição, o sangue espalhado, os corpos caídos, e soube, mesmo sem ninguém dizer.
— Atlas esteve aqui. — sussurrou, a voz rouca de ódio.
O vento soprou, trazendo o cheiro de sangue e fumaça, e Lyra ergueu o rosto para o céu escuro, o eclipse ainda total.
— Você mexeu com a família errada, Atlas. — murmurou, a raiva crescendo como uma promessa. — Agora, eu vou atrás de você.
E a lua, coberta de sombra, pareceu ouvir.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Rejeitada: A Luna do Alfa supremo
Excelente pena que nao tem o livro impresso....
Muito bom! Livro excelente! História bem amarrada! Estou quase no final! Recomendo!...