POV Isadora Ferraz
Cheguei em casa com a alma em carne viva. A cabeça ainda girando entre o beijo e a ameaça. Entre o que Dante e eu quase fomos e o que Célia acabava de prometer transformar minha vida.
A mansão estava silenciosa demais. Assustadoramente... quieta. Pensei em subir direto pro quarto. Tomar um banho. Me enfiar embaixo das cobertas e fingir que o mundo parou. Mas algo me travou no pé da escada.
Vozes. Vozes masculinas, vindo da biblioteca. Me aproximei com passos leves. E então eu ouvi:
— Essa casa vai te fazer bem, Rafael. Vai ajudar a te manter... longe de problemas.
Meu estômago caiu. Rafael. Não podia ser.
Entrei. E lá estava ele. O homem que me perseguiu. Que sorriu para a câmera de segurança como um monstro em um filme de terror. Sentado em uma poltrona de couro, com um uísque na mão e o sorriso de quem já venceu.
— Isadora Ferraz Montenegro — ele disse, erguendo o copo. — Quanto tempo, hein?
Heitor apareceu ao lado dele.
— Rafael vai ficar conosco por um tempo — anunciou, casual, como quem apresenta um novo vaso decorativo. — A mãe dele está em tratamento e... bom, ele é da família.
— Da família? — minha voz falhou.
Célia entrou também.
— Você deveria ser mais receptiva, querida. Afinal, sempre reclamou de se sentir sozinha aqui, não é?
— Vocês enlouqueceram.
— Rafael é segurança particular agora — ela continuou, com aquele tom doce que precede uma punhalada. — Vai cuidar da nossa integridade. Proteger todos nós… inclusive você.
Ele me encarava. Como se estivesse despindo minha coragem centímetro por centímetro.
— Vai ser um prazer cuidar da minha prima postiça — ele disse, com o sorriso mais nojento que já vi.
Tremi. Mas não recuei.
— Se ele ficar aqui, eu vou à polícia.
— Vai? — Célia deu um passo à frente. — Com que provas? As únicas imagens que você tem são dele do lado de fora do prédio. O resto? É a sua palavra contra a dele.
— E contra a nossa — completou Heitor, impassível. — O que acha que vão acreditar? Que o primo da família está aqui por perseguição ou que você... está tendo um colapso nervoso?
Rafael se levantou.
— Vai ser divertido, Isa. Relembrar os velhos tempos. Quem sabe até... nos aproximar mais. A gente nunca teve tempo de se conhecer direito.
Dei um passo pra trás. O corpo tremia, mas os olhos estavam em chamas.
— Vocês acabaram de assinar sua sentença.
— E você, Isadora? — Célia sussurrou perto do meu ouvido. — Acabou de assinar a sua.
Saí. Corri pro quarto. Tranquei a porta. Encostei nela. E então comecei a chorar. Mas não era um choro de derrota. Era o choro de quem entendeu que agora, a guerra era real. E pra vencer… eu ia ter que deixar de ser Isa. E virar algo muito, muito mais perigoso.
***
Sentei à mesa com a mesma disposição de quem se oferece de bandeja ao carrasco. A porcelana era fina. O vinho, caro. Os talheres, alinhados como soldados. E os monstros… todos muito bem vestidos.
Célia na cabeceira. Heitor à direita. Elena ao lado dele, com o vestido justo, barriga à mostra, como se ostentasse um troféu. E Rafael, claro. Sentado do meu lado. Tão perto que eu podia sentir o perfume. Ou melhor, o veneno.
— Que maravilha estarmos todos aqui — disse Célia, servindo salada como se fosse santa. — Uma noite em família. Como nos velhos tempos.
—Só faltou o padre para benzer essa mesa — murmurei, bebendo um gole de vinho.
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”