POV Isadora Ferraz
Tirei o batom com raiva. Aquela cor vinho parecia sangue coagulado na minha boca. Sangue dos discursos falsos. Sangue do sorriso forçado. Sangue do nojo que sentia de mim mesma por não ter reagido naquela mesa de jantar.
Abri o armário. Vesti uma calça jeans escura, regata preta. Jaqueta de couro. Rímel borrado, mas o olhar afiado. Eu precisava sair. Respirar. Lembrar quem eu era antes de virar a boneca de porcelana dos Montenegro.
Desci as escadas em silêncio. Elena falava com Heitor na sala, rindo como se o mundo fosse feito só de bebês e promessas. Célia estava no telefone, provavelmente tentando abafar o novo escândalo com a classe de uma vilã da década de 80.
Rafael… Rafael não estava à vista. Mas eu sentia o cheiro dele no ar. Aquele perfume amadeirado barato que me dava enjoo.
Peguei a chave do carro.
— Vai sair? — perguntou Célia, sem nem me olhar.
— Preciso tomar ar.
— Sozinha?
— Se eu quisesse companhia, teria convidado um demônio mais interessante.
Ela sorriu com os olhos, como se estivesse contando os minutos até me ver morta.
— Volte cedo, querida. A casa agora tem regras.
— A casa pode ter o que quiser. Eu ainda sou livre. Por enquanto.
Saí. Entrei no carro. Liguei o rádio no volume baixo. E dirigi sem rumo por algumas ruas da cidade. Cada farol parecia medir o tempo que ainda me restava antes de perder tudo.
Pensei em ir até Olivia. Mas desisti. Ela já estava metida demais nisso tudo. Precisava de uma noite só minha. Uma noite sem nome. Sem sobrenome.
Estacionei em frente a um bar de jazz. Discreto, pouca gente, meia luz. Pedi um uísque. Olhei os casais nas mesas. Sorrisos sinceros, toques leves, olhos que não escondiam monstros. Eu queria aquilo. Mas já era tarde demais para desejar o comum.
Fiquei ali por duas horas. Escrevi algumas linhas no celular. Rabiscos sobre dor, coragem e vingança. Isa voltando a escrever era um sinal: eu ainda estava viva.
Paguei a conta. Voltei pro carro.
As luzes da cidade estavam mais frias naquela noite. Tudo parecia funcionar em câmera lenta, o trânsito, as pessoas, os postes iluminando demais e dizendo de menos. Virei à esquerda na avenida principal. O farol fechou. Parei.
Foi aí que vi.
Do outro lado da rua, na calçada do café 24h, Dante. Em pé, de braços cruzados, esperando o pedido. Estava sozinho, com a mesma jaqueta escura que usava quando me viu pela primeira vez. Como se o tempo tivesse dado uma volta inteira e me colocado no mesmo ponto de partida.
Meu coração esqueceu de bater por um segundo. Ele ergueu o rosto. Me viu. Nossos olhos se encontraram. Não houve aceno. Nem sorriso. Só um silêncio atravessando o vidro entre nós, carregado de tudo que a gente não conseguiu dizer no último beijo.


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