POV Isadora Ferraz
Acordei com a sensação de que tinha alguém me olhando.
Não foi um barulho. Nem um sonho. Foi um calafrio na alma, um arrepio que atravessou minha nuca como um aviso silencioso.
O relógio piscava 02:47.
Levantei. Em silêncio. Fui até a porta do quarto. Trancada. Olhei embaixo... e havia algo ali. Uma sombra. Uma movimentação leve. Como se alguém tivesse acabado de se afastar. Abri a porta com a trava na mão. O corredor estava vazio. Mas o ar... estava errado. Carregado. Cheirava a uísque barato e perfume masculino vencido.
Rafael.
Desci as escadas devagar. A mansão dormia. Mas uma luz na sala estava acesa. Fui até lá. A TV ligada sem som. No sofá, Rafael. Dormindo. Ou fingindo dormir. Sem camisa. Coberto até a cintura. Uma taça vazia no chão. A câmera de segurança do hall central? Desconectada.
Segui em direção a cozinha, enchi um copo de água e bebi... Poucos minutos depois subi as escadas de volta com o corpo em alerta e a mente girando. Cada degrau parecia mais alto que o outro. Me sentia como uma peça fora do tabuleiro, andando entre monstros disfarçados de família.
Estava quase chegando ao meu quarto quando ouvi.
Gemidos.
Baixos. Rítmicos. Enfurnados no corredor esquerdo da mansão. Um sussurro de prazer mascarado com luxúria sem pudor.
Parei. Não por curiosidade. Mas por um soco no estômago. A porta entreaberta. A luz baixa. Os sons vinham dali.
Heitor. Elena.
Fechei os olhos por um segundo. Não de dor. Não de ciúmes. Era... nojo. Uma parte de mim queria dar risada da própria tragédia. Outra queria vomitar. Não era sobre amor. Nunca foi. Era sobre poder. Sobre ela sentar na minha mesa, na minha casa, usar meu banheiro, enquanto transava com o mesmo homem que me prometeu o mundo e depois quebrou cada centímetro dele em cima da minha coluna.
Ela gemia como se tivesse vencido. Ele a tocava como se eu nunca tivesse existido. Mas eu estava ali. No corredor. E não era um fantasma. Eu era a bomba-relógio. Voltei pro quarto com o estômago virado e os olhos secos. Sentei na cama. Fiquei encarando a parede. Aquilo não era traição. Era provocação.
Era um lembrete: "Você não manda aqui."
***
POV Heitor Montenegro
Escutei quando ela subiu as escadas, conheço o som do andar dela a 7 anos. Anda como quem carrega o mundo nas costas. E eu soube que ela ouviu. Era para ouvir.
Elena se contorcia embaixo de mim como se estivesse interpretando um papel que não é dela. Os gemidos, os sussurros, a mão na minha nuca... tudo falso. Tudo encenado. Mas eu deixei. Porque tinha um objetivo.
Isadora.
Enquanto Elena se arqueava, era a Isa que aparecia na minha mente. O cabelo preso de qualquer jeito, a boca calada cheia de respostas, o olhar cansado. Maldita. Ela ainda estava aqui, mesmo quando eu fingia que não. Tentei empurrar esse pensamento pra longe, mas ele voltava. Mais forte. Mais sujo. Mais visceral.
O corpo embaixo de mim era Elena. Mas a presença que queimava era dela. Isadora. A esposa rebelde. A que me desafiava com o silêncio. O jeito como ela me olhou no jantar. O desprezo nos olhos. Aquilo... mexeu comigo. Ela era minha. Ainda era. Mesmo fingindo que não.
E agora, ver ela fingindo força, mentindo ao vivo na TV, me provocando com aquele vestido, aquela voz...
Isa achava que estava ganhando? Pois eu ia mostrar quem ainda tinha as rédeas.
— Heitor... — Elena sussurrou, tentando me puxar de volta pra ela.
Mas eu já não estava ali. Minha mente estava no corredor. Em Isadora parada, ouvindo. Ardendo. O prazer que senti não veio da carne. Veio do controle. Do jogo.
— Você ainda me ama? — Elena perguntou, ofegante.
Fiquei em silêncio. Porque a resposta seria uma mentira. E, pela primeira vez... até eu estava confuso. Não era amor. Era posse. Era obsessão. Era Isadora Ferraz, sangrando orgulho pelos olhos, e mesmo assim... ainda me desafiando. E eu? Eu estava viciado nesse ódio.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”