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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 30

POV Isadora Ferraz

Acordei com o sol escorrendo pelas cortinas cinzas do apartamento. O calor morno no rosto, o barulho abafado da cidade lá fora… e o peito… leve. Pela primeira vez em semanas, dormi sem trancar a porta. Sem medo de acordar com alguém parado me olhando. Sem fingimento. Sem véu.

Abri os olhos devagar. Dante dormia ao meu lado.

Deitado de lado, braço esticado sob o travesseiro, boca entreaberta, o peito subindo devagar com a respiração pesada de quem, por um milagre, também descansou. Havia um vinco entre as sobrancelhas, como se ele sonhasse com algo sério demais pra deixar ir. O lençol estava amassado na cintura. O corpo nu, bronzeado, coberto de cicatrizes leves, detalhes que eu nunca tinha visto antes. Ele era caos. Mas um caos que combinava com o meu.

Afaguei devagar a linha do maxilar dele com a ponta dos dedos. E ele não acordou. Só virou o rosto, como se seguisse meu toque mesmo dormindo.

Me aninhei mais perto. Cabeça no peito dele. E fiquei ali por um tempo que não sei medir. Só ouvindo o coração dele. O compasso. O som de algo que ainda batia por mim, mesmo sem saber como. Mesmo sem saber o que a gente era.

Então, a voz dele, rouca, suave, tão íntima que parecia parte do lençol.

— Vai embora sem me avisar de novo?

— Não. Só tô tentando lembrar o que é se sentir segura.

Ele abriu os olhos. E, meu Deus... era como ser olhada por dentro.

— Você ainda está com medo?

— Sim. Mas agora... com menos vergonha disso.

— Eu também tenho medo — ele sussurrou, puxando um fio de cabelo meu pro lado. — De você ir embora. De eu não saber o que fazer se isso tudo explodir.

— Já explodiu, Dante. A gente só ainda está varrendo os destroços.

Ele me beijou de novo. Mas dessa vez… foi lento. Calmo. Como se dissesse: “Eu sei que ainda vai doer. Mas fica mais um pouco.”

Depois, entre suspiros e silêncio, nos vestimos. Ele passou café. Eu roubei a camiseta dele. Rimos de nada. Mas sabíamos que o dia não ia perdoar nossa paz.

— Preciso voltar antes da missa das nove — eu disse, pegando a bolsa.

— Acha que eles vão te esperar com tapete vermelho?

— Provavelmente com um novo inferno montado.

— Quer que eu vá com você?

— Não. Ainda não.

— Promete que volta?

— Prometo... se a casa não pegar fogo.

Nos beijamos mais uma vez, dessa vez curta, urgente, com gosto de despedida. Saí do apartamento com o coração batendo num ritmo estranho. Como quem viveu algo bonito… só pra lembrar que está no meio de uma guerra. E quando estacionei em frente à mansão Montenegro… o teatro já estava montado.

***

O portão da mansão se abriu devagar, como se até o ferro estivesse envergonhado do que me esperava ali dentro. Estacionei. Ajeitei o cabelo. Respirei fundo. E empurrei a porta com a postura de quem volta do campo de batalha. Porque era isso que aquela casa era. Um campo minado com talheres de prata e um cheiro artificial de flores caras.

Na sala de jantar, o quadro completo da hipocrisia.

Célia, com um robe bege impecável, tomava chá como se estivesse no clipe de uma propaganda de margarina. Elena, de bata branca, barriga à mostra, sorria com aquela falsa serenidade de quem acha que ganhou. Rafael, com um curativo discreto no canto da boca, mexia no café como se fosse um adolescente rebelde. E Heitor… de pé, de camisa social, como se tivesse acabado de sair de um editorial de revista de luxo.

— Olha só quem resolveu aparecer — disse Célia, sorrindo como se me oferecesse veneno em forma de brioche. — Espero que sua noite tenha sido… revigorante.

— Estava precisando respirar — respondi, puxando a cadeira como quem puxa um punhal da bainha.

— E conseguiu? — perguntou Heitor, com um arquejo debochado na voz. — Ou o ar lá fora está tão pesado quanto aqui dentro?

— Lá fora... as pessoas não usam máscaras com pérolas.

Rafael soltou um risinho. Elena olhou pra ele como se perguntasse silenciosamente “vai contar?”.

Ele fingiu que não percebeu.

— E esse curativo? — perguntei, encarando o rosto dele. Fingindo que não sabia de nada. — Aconteceu alguma coisa?

Ele apoiou os cotovelos na mesa. Olhar preguiçoso. Mas afiado.

— Nada demais. Fui abordado por dois caras na saída da padaria. Tentaram levar minha carteira. Dei conta deles. Só levei um soco de surpresa.

— Nossa, que bairro perigoso esse… cheio de justiceiros — rebati, seca.

Os olhos dele cravaram nos meus. Como navalha.

— Pois é. Mas sabe o que mais me assustou? — ele inclinou o rosto. — O silêncio. O jeito como ninguém apareceu pra ajudar. A cidade está cheia de covardes.

Ele entrou. O cheiro do perfume amadeirado e da arrogância dele invadiu o quarto.

— Onde você passou a noite?

Cruzei os braços.

— Desde quando você se importa?

— Desde que você voltou para casa. Desde que minha mulher resolve sair sem dar satisfação.

— Sua mulher? Elena está no quarto ao lado. Grávida. Faminta por atenção. Vai cuidar dela.

Ele deu um passo à frente.

— Não brinca comigo, Isadora.

— Quem está brincando é você, Heitor. Comigo, com ela, com essa palhaçada de família feliz. Quer saber onde eu estive? Longe de tudo isso. Longe de você. E por alguns segundos... livre.

O maxilar dele travou.

— Você está com aquele idiota, não está?

— Com o homem que me salvou de ser atacada por um lunático que você colocou aqui dentro? Talvez. E se estiver? É mais do que você merece saber.

— Ele não vai te proteger de mim.

— Eu não preciso de proteção. Eu preciso que você entenda que perdeu. Que não tem mais controle. Que cada vez que abre a boca, só prova o quanto é patético tentar me manter aqui usando medo.

Ele tentou se aproximar, mas eu levantei a mão.

— E não toca em mim, Heitor. Não mais. Agora, vai. Antes que eu me lembre de que ainda tenho forças para cuspir tua verdade inteira na cara da imprensa.

Ele me olhou. Com ódio. Com ciúmes. Com um tipo de arrependimento que não era amor — era posse ferida.

— Isso não vai acabar bem pra você.

— Já não está acabando bem pra você.

Ele saiu, batendo a porta com força. Eu fechei os olhos por um segundo. Respirei. E então… conectei o pendrive no notebook. Hora de transformar essa casa num filme de terror, com cada um dos monstros expostos em full HD.

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