POV Isadora Ferraz
Acordei com o sol escorrendo pelas cortinas cinzas do apartamento. O calor morno no rosto, o barulho abafado da cidade lá fora… e o peito… leve. Pela primeira vez em semanas, dormi sem trancar a porta. Sem medo de acordar com alguém parado me olhando. Sem fingimento. Sem véu.
Abri os olhos devagar. Dante dormia ao meu lado.
Deitado de lado, braço esticado sob o travesseiro, boca entreaberta, o peito subindo devagar com a respiração pesada de quem, por um milagre, também descansou. Havia um vinco entre as sobrancelhas, como se ele sonhasse com algo sério demais pra deixar ir. O lençol estava amassado na cintura. O corpo nu, bronzeado, coberto de cicatrizes leves, detalhes que eu nunca tinha visto antes. Ele era caos. Mas um caos que combinava com o meu.
Afaguei devagar a linha do maxilar dele com a ponta dos dedos. E ele não acordou. Só virou o rosto, como se seguisse meu toque mesmo dormindo.
Me aninhei mais perto. Cabeça no peito dele. E fiquei ali por um tempo que não sei medir. Só ouvindo o coração dele. O compasso. O som de algo que ainda batia por mim, mesmo sem saber como. Mesmo sem saber o que a gente era.
Então, a voz dele, rouca, suave, tão íntima que parecia parte do lençol.
— Vai embora sem me avisar de novo?
— Não. Só tô tentando lembrar o que é se sentir segura.
Ele abriu os olhos. E, meu Deus... era como ser olhada por dentro.
— Você ainda está com medo?
— Sim. Mas agora... com menos vergonha disso.
— Eu também tenho medo — ele sussurrou, puxando um fio de cabelo meu pro lado. — De você ir embora. De eu não saber o que fazer se isso tudo explodir.
— Já explodiu, Dante. A gente só ainda está varrendo os destroços.
Ele me beijou de novo. Mas dessa vez… foi lento. Calmo. Como se dissesse: “Eu sei que ainda vai doer. Mas fica mais um pouco.”
Depois, entre suspiros e silêncio, nos vestimos. Ele passou café. Eu roubei a camiseta dele. Rimos de nada. Mas sabíamos que o dia não ia perdoar nossa paz.
— Preciso voltar antes da missa das nove — eu disse, pegando a bolsa.
— Acha que eles vão te esperar com tapete vermelho?
— Provavelmente com um novo inferno montado.
— Quer que eu vá com você?
— Não. Ainda não.
— Promete que volta?
— Prometo... se a casa não pegar fogo.
Nos beijamos mais uma vez, dessa vez curta, urgente, com gosto de despedida. Saí do apartamento com o coração batendo num ritmo estranho. Como quem viveu algo bonito… só pra lembrar que está no meio de uma guerra. E quando estacionei em frente à mansão Montenegro… o teatro já estava montado.
***
O portão da mansão se abriu devagar, como se até o ferro estivesse envergonhado do que me esperava ali dentro. Estacionei. Ajeitei o cabelo. Respirei fundo. E empurrei a porta com a postura de quem volta do campo de batalha. Porque era isso que aquela casa era. Um campo minado com talheres de prata e um cheiro artificial de flores caras.
Na sala de jantar, o quadro completo da hipocrisia.
Célia, com um robe bege impecável, tomava chá como se estivesse no clipe de uma propaganda de margarina. Elena, de bata branca, barriga à mostra, sorria com aquela falsa serenidade de quem acha que ganhou. Rafael, com um curativo discreto no canto da boca, mexia no café como se fosse um adolescente rebelde. E Heitor… de pé, de camisa social, como se tivesse acabado de sair de um editorial de revista de luxo.
— Olha só quem resolveu aparecer — disse Célia, sorrindo como se me oferecesse veneno em forma de brioche. — Espero que sua noite tenha sido… revigorante.
— Estava precisando respirar — respondi, puxando a cadeira como quem puxa um punhal da bainha.
— E conseguiu? — perguntou Heitor, com um arquejo debochado na voz. — Ou o ar lá fora está tão pesado quanto aqui dentro?
— Lá fora... as pessoas não usam máscaras com pérolas.
Rafael soltou um risinho. Elena olhou pra ele como se perguntasse silenciosamente “vai contar?”.
Ele fingiu que não percebeu.
— E esse curativo? — perguntei, encarando o rosto dele. Fingindo que não sabia de nada. — Aconteceu alguma coisa?
Ele apoiou os cotovelos na mesa. Olhar preguiçoso. Mas afiado.
— Nada demais. Fui abordado por dois caras na saída da padaria. Tentaram levar minha carteira. Dei conta deles. Só levei um soco de surpresa.
— Nossa, que bairro perigoso esse… cheio de justiceiros — rebati, seca.
Os olhos dele cravaram nos meus. Como navalha.
— Pois é. Mas sabe o que mais me assustou? — ele inclinou o rosto. — O silêncio. O jeito como ninguém apareceu pra ajudar. A cidade está cheia de covardes.


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