POV Isadora Ferraz
A manhã de domingo chegou com gosto amargo. A mansão fervia num silêncio falso, como se cada parede segurasse a respiração. Todos se arrumavam para a missa. O teatro dominical. O ritual de fingir pureza pra uma plateia de desconhecidos.
Desci as escadas, lenta, segurando a xícara de chá como se fosse um escudo.
Célia estava no hall, ajeitando o chapéu exagerado na cabeça. Heitor vestindo terno azul-marinho, ajeitando a gravata no espelho. Elena, inchada, enfiando o vestido branco colado demais. Rafael… me olhando. Como sempre. Como um predador com fome de medo.
— Vai se arrumar — disse Célia, olhando pra mim como quem observa um cachorro sujo na sala de estar.
— Não vou hoje — respondi, encostando na parede. — Estou indisposta.
Célia girou o corpo, irritada.
— Indisposta?
— Gripe. Enjoo. Falta de paciência. Pode escolher.
Heitor me fuzilou com os olhos. Mas não insistiu. Rafael abriu um sorriso torto. Elena revirou os olhos.
— Não faça drama — disse Célia, suspirando. — Não estrague nosso domingo.
— Eu só vou estragar se for — rebati.
Silêncio.
Célia puxou a bolsa com força, como se fosse esbofetear alguém com o couro.
— Vamos — ela ordenou, virando para os outros.
Eles saíram. A porta fechou. E o ar pareceu finalmente soltar o peito. Corri escada acima. Entrei no quarto. Peguei o notebook, o pendrive. As câmeras. Cada uma escondida em uma caixinha preta, pequenas demais pra serem notadas.
Primeira parada: corredor do segundo andar. Peguei o porta-retratos de uma “foto de família” onde todos pareciam congelados num teatro grotesco. Abri, encaixei a microcâmera. Fechei de novo.
Segunda: sala de jantar. Debaixo da bancada de mármore. Ninguém olha ali. Posicionei a câmera apontada para o centro da mesa. O lugar onde os segredos viravam vinagre e os brindes escondiam veneno.
Terceira: biblioteca.
Entrei com cuidado. O cheiro de couro e mofo impregnava cada fresta. A escada de madeira rangia. O relógio marcava 10h07.
Andei até a estante central. Atrás dos livros, havia uma brecha perfeita. Empurrei um volume falso, encaixei a câmera.
O coração batia tão alto que parecia ecoar nas paredes. Quando estava prestes a sair, ouvi um estalo.
Gelei. Passos. A maçaneta girou. Rafael. Parado na porta. O sorriso frio. Os olhos varrendo a sala até me encontrar.
— Escondendo segredos, Isa?
Meu estômago virou ácido. Mas ergui o rosto.
— Procurando um livro. Algum problema? Você não deveria estar na missa?
Ele deu um passo. Depois outro. O som dos sapatos ecoava como navalha na madeira.
— E irei, só vim pegar uma coisinha que esqueci... — Ele foi até uma mesa do outro lado da biblioteca e pegou um envelope. Olhou para mim e para a estante atrás de mim. — Eu posso ajudar. Tenho ótimas recomendações... para mulheres que gostam de fugir.
— Não preciso. Já terminei.
Segurei firme a beirada da mesa. E passei por ele sem olhar para trás. O cheiro dele queimando o ar ao meu redor. Quando cheguei no quarto, tranquei a porta. O corpo inteiro tremia. Mas abri o notebook. Liguei. As câmeras estavam funcionando. Todas. Eu estava sozinha. Mas, pela primeira vez... não estava desarmada.
***
Algumas horas depois, eu estava no quarto quando ouvi o portão eletrônico se abrir. O motor do carro. As vozes abafadas entrando. Fechei o notebook com cuidado. Pus a expressão mais neutra que consegui. Respirei fundo. Desci as escadas.
Célia foi a primeira a me notar, segurando o terço como se fosse uma faca.
— Olha quem decidiu aparecer — disse ela, arrancando as luvas brancas.
Heitor entrou em seguida, o rosto trancado, a mandíbula dura. Elena, ofegante, como se tivesse corrido uma maratona (ou talvez só fingindo a santidade de domingo). Rafael... o último. A sombra atrás de todos.
— Espero que a indisposição já tenha passado — comentou Célia, largando a bolsa na mesa. — Porque teremos um almoço em família hoje. Uma refeição em paz.
— Paz? — eu quase ri, mas engoli.
Todos foram se acomodando. O cheiro de comida cara subia da cozinha, mas ninguém parecia de fato sentir fome. Eu me sentei devagar. Observei cada um.
Heitor, mexendo no celular, trocando olhares rápidos com Elena. Célia, fingindo folhear uma revista de decoração. Rafael, me encarando como se pudesse ver a câmera pulsando dentro do meu peito.
— A casa está diferente hoje — Rafael comentou, jogando uma azeitona na boca. — Energia diferente... você sente também, Heitor?
— Menos drama, Rafael — Heitor retrucou, sem levantar os olhos. — A única coisa diferente aqui é a sua presença.
Rafael riu. Um riso baixo, cavernoso.
— Ah, eu acho que tem mais coisa mudando. — Ele me encarou. — Você sente também, Isa?
Minha garganta queimava, mas mantive o rosto calmo.
— A única coisa que eu sinto é nojo.
Ele ergueu as mãos em falsa rendição.
— Ui, afiada hoje. Gosto assim.
Elena revirou os olhos, alisando a barriga com exagero, como se quisesse lembrar a todos que estava grávida.
— Podemos comer logo? — reclamou. — Tenho enjoos.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”