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7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!” romance Capítulo 32

POV Isadora Ferraz

Acordei com o despertador berrando como se anunciasse um apocalipse. Segunda-feira. O dia mais comum do mundo pra quem finge ter uma vida normal. Tomei banho rápido. A água batendo no meu corpo parecia um castigo, mas também um batismo. Vesti uma calça de alfaiataria preta, camisa branca, blazer escuro. O uniforme da guerra silenciosa.

Desci pra cozinha. Célia tomava café como se fosse água benta. Heitor lia o jornal, mas os olhos vazavam raiva. Elena não apareceu. Rafael? Sumido. Talvez ainda sonhando com suas taras doentias.

— Vai trabalhar hoje? — Célia perguntou, mexendo a xícara com um tilintar irritante.

— Sim. — Respondi seca.

— Excelente. — Ela sorriu. Mas era um sorriso de tubarão. — Não esqueça que você tem uma imagem a manter.

— Eu nunca esqueço. — Enfiei uma fatia de pão na boca, só pra não xingar.

Heitor largou o jornal.

— E volta direto. Nada de sumir de novo.

Levantei, ajeitei o blazer.

— Não sou obrigada a te dar satisfação. Cuida da tua amante.

Ele apertou os lábios, mas não respondeu. Célia segurou o braço dele, num gesto quase maternal. Eu quase ri. Peguei a bolsa, saí. O ar frio da manhã bateu no rosto como um tapa de realidade.

O caminho até a editora parecia mais longo. Cada semáforo, cada carro que passava... tudo me lembrava que eu estava vivendo numa guerra sem trincheiras visíveis. Cheguei. Cumprimentei a recepcionista com um aceno. Os olhares me seguiram pelo corredor. Alguns, curiosos. Outros, cheios de pena. Mas ninguém ousava falar.

Passei pela sala de reunião. Mariana, a estagiária, me entregou uma pilha de documentos.

— Bom dia, Isa. O Dante pediu pra você revisar essas páginas. E... ele pediu que fossem entregues diretamente pra ele depois.

Assenti.

— Obrigada, Mari.

Fui pra minha sala. Fechei a porta. Soltei o ar. Larguei a bolsa. Sentei. Olhei o monitor. O reflexo do meu rosto pálido me encarava. “Você não é mais Isa”, pensei. “Você é o veneno na taça. O sopro antes do tiro.”

Abri o documento. Comecei a ler, mas os dedos tremiam. Pensei em Dante. Pensei no parque. Pensei no apartamento. No toque dele. Na guerra dentro de nós.

A campainha da sala apitou.

— Posso entrar? — Era a voz dele.

Engoli seco.

— Entra.

Dante apareceu, terno escuro, barba por fazer, olheiras profundas. O olhar firme. Mas ferido.

— Queria saber se conseguiu revisar. — Ele falou, mas os olhos gritavam outra pergunta: Você está bem?

Levantei. Entreguei os papéis. Nossos dedos se tocaram. A faísca veio instantânea.

— Está tudo aqui. — Eu disse, tentando soar profissional.

Ele segurou os papéis, mas não saiu. Ficou ali. Olhando. Como se estivesse decidindo se ia me abraçar ou me mandar pro inferno. Eu quase pedi: Fica. Mas engoli. Ele respirou fundo, virou as costas e saiu.

Fiquei olhando a porta fechar. Sozinha outra vez. Mas, por dentro, uma coisa era certa: eu não ia morrer nessa guerra.

***

O relógio marcou 18h. O escritório começou a esvaziar. Eu fechei a última pasta, respirei fundo e levantei. Peguei o espelho pequeno na bolsa. Passei o batom. Prendi o cabelo num coque baixo. O blazer, ajeitei como quem coloca uma armadura.

Abri a porta. O corredor já estava quase vazio, só os sons dos últimos passos ecoando. Virei à esquerda, e lá estava ele. Dante. Encostado na porta do estúdio de leitura, a camisa meio amarrotada, a expressão dura, mas os olhos... os olhos eram uma confissão.

Ele me viu. Ficou reto, como se todo o corpo estivesse preparado pra uma batalha ou pra me puxar de volta.

Ele soltou devagar. O calor dos dedos dele ainda queimava minha pele. Dei um passo para trás. Ele me acompanhou com os olhos até o elevador. Quando a porta fechou, meu peito batia como se eu tivesse acabado de correr uma maratona.

Lá embaixo, saí no ar frio da noite. Mas dentro de mim? Um incêndio silencioso. Porque amanhã... amanhã não era só mais um encontro. Era a faísca antes da explosão.

***

Cheguei em casa com o corpo ainda pegando fogo do olhar de Dante. Entrei silenciosa, como se pisasse num campo minado. A mansão parecia quieta demais. Subi direto para o quarto. Tirei os saltos, joguei a bolsa na poltrona. Abri o notebook, conectei o pendrive que Caio tinha me dado. Um clique, outro. E as imagens começaram a aparecer.

As câmeras. Cada cômodo. Cada canto. Eu assistia em silêncio, cada respiração presa no peito.

Cozinha. Vazia.

Sala. Célia sentada, lendo um jornal.

Quarto do casal. Elena mexendo no celular.

Corredor. Heitor passando, tenso.

Cliquei na última câmera, a que eu tinha deixado escondida no meu quarto. E então eu vi. O sangue gelou.

Rafael. Dentro do meu quarto. Sozinho.

Ele estava em pé, parado na frente do meu guarda-roupa. Segurava uma das minhas calcinhas na mão. Cheirava. Profundo. Como um viciado. O rosto dele se contorcia num prazer doente, os olhos fechados, a respiração pesada.

Eu levei a mão à boca. Tremia tanto que quase deixei o notebook cair. Na tela, ele abriu uma gaveta. Pegou outra peça íntima. Levou ao rosto. Sorriu. Um sorriso tão sujo, tão repulsivo, que me fez sentir nojo até dos meus próprios ossos. Então ele começou a falar. Pra si mesmo. Mas a câmera pegava tudo.

— Você gosta disso, né, Isa? Aposto que você geme diferente quando pensa em mim. — Ele cheirava de novo. — Você finge ser forte. Mas eu sei... eu sei o que você é por dentro.

Eu queria gritar. Quebrar tudo. Arrebentar a tela com as mãos. Mas não podia. Ainda não. Continuei assistindo. Rafael largou a calcinha sobre a cama. Começou a andar pelo quarto. Tocava nas minhas roupas, nas almofadas, nas minhas anotações. A mão dele desceu pro próprio corpo.

Fechei o notebook com um estalo. Levantei. O coração parecia uma bomba prestes a explodir. Eu tremia da cabeça aos pés, mas sorri. Um sorriso frio. Mortal. Porque agora eu tinha tudo. E, quando chegasse a hora, Rafael não ia apenas cair. Ele ia implodir.

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