POV Isadora Ferraz
Acordei com o despertador berrando como se anunciasse um apocalipse. Segunda-feira. O dia mais comum do mundo pra quem finge ter uma vida normal. Tomei banho rápido. A água batendo no meu corpo parecia um castigo, mas também um batismo. Vesti uma calça de alfaiataria preta, camisa branca, blazer escuro. O uniforme da guerra silenciosa.
Desci pra cozinha. Célia tomava café como se fosse água benta. Heitor lia o jornal, mas os olhos vazavam raiva. Elena não apareceu. Rafael? Sumido. Talvez ainda sonhando com suas taras doentias.
— Vai trabalhar hoje? — Célia perguntou, mexendo a xícara com um tilintar irritante.
— Sim. — Respondi seca.
— Excelente. — Ela sorriu. Mas era um sorriso de tubarão. — Não esqueça que você tem uma imagem a manter.
— Eu nunca esqueço. — Enfiei uma fatia de pão na boca, só pra não xingar.
Heitor largou o jornal.
— E volta direto. Nada de sumir de novo.
Levantei, ajeitei o blazer.
— Não sou obrigada a te dar satisfação. Cuida da tua amante.
Ele apertou os lábios, mas não respondeu. Célia segurou o braço dele, num gesto quase maternal. Eu quase ri. Peguei a bolsa, saí. O ar frio da manhã bateu no rosto como um tapa de realidade.
O caminho até a editora parecia mais longo. Cada semáforo, cada carro que passava... tudo me lembrava que eu estava vivendo numa guerra sem trincheiras visíveis. Cheguei. Cumprimentei a recepcionista com um aceno. Os olhares me seguiram pelo corredor. Alguns, curiosos. Outros, cheios de pena. Mas ninguém ousava falar.
Passei pela sala de reunião. Mariana, a estagiária, me entregou uma pilha de documentos.
— Bom dia, Isa. O Dante pediu pra você revisar essas páginas. E... ele pediu que fossem entregues diretamente pra ele depois.
Assenti.
— Obrigada, Mari.
Fui pra minha sala. Fechei a porta. Soltei o ar. Larguei a bolsa. Sentei. Olhei o monitor. O reflexo do meu rosto pálido me encarava. “Você não é mais Isa”, pensei. “Você é o veneno na taça. O sopro antes do tiro.”
Abri o documento. Comecei a ler, mas os dedos tremiam. Pensei em Dante. Pensei no parque. Pensei no apartamento. No toque dele. Na guerra dentro de nós.
A campainha da sala apitou.
— Posso entrar? — Era a voz dele.
Engoli seco.
— Entra.
Dante apareceu, terno escuro, barba por fazer, olheiras profundas. O olhar firme. Mas ferido.
— Queria saber se conseguiu revisar. — Ele falou, mas os olhos gritavam outra pergunta: Você está bem?
Levantei. Entreguei os papéis. Nossos dedos se tocaram. A faísca veio instantânea.
— Está tudo aqui. — Eu disse, tentando soar profissional.
Ele segurou os papéis, mas não saiu. Ficou ali. Olhando. Como se estivesse decidindo se ia me abraçar ou me mandar pro inferno. Eu quase pedi: Fica. Mas engoli. Ele respirou fundo, virou as costas e saiu.
Fiquei olhando a porta fechar. Sozinha outra vez. Mas, por dentro, uma coisa era certa: eu não ia morrer nessa guerra.
***
O relógio marcou 18h. O escritório começou a esvaziar. Eu fechei a última pasta, respirei fundo e levantei. Peguei o espelho pequeno na bolsa. Passei o batom. Prendi o cabelo num coque baixo. O blazer, ajeitei como quem coloca uma armadura.
Abri a porta. O corredor já estava quase vazio, só os sons dos últimos passos ecoando. Virei à esquerda, e lá estava ele. Dante. Encostado na porta do estúdio de leitura, a camisa meio amarrotada, a expressão dura, mas os olhos... os olhos eram uma confissão.
Ele me viu. Ficou reto, como se todo o corpo estivesse preparado pra uma batalha ou pra me puxar de volta.
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