POV Isadora Ferraz
Fechei o notebook com tanta força que quase quebrei a tela. Joguei ele na poltrona, andei de um lado pro outro como um animal enjaulado. O coração ainda martelava na garganta.
Então... TOC, TOC.
Eu congelei. O som na porta do meu quarto. Baixo. Persistente.
— Isa... — a voz. O veneno. O lodo. Rafael.
Segurei a respiração.
— Posso entrar? — ele insistiu, mas a pergunta era falsa. Ele já estava girando a maçaneta.
A porta abriu devagar. Ele entrou, encostou, fechou atrás de si. Meu estômago virou ácido.
— Que cara é essa? — ele perguntou, andando pelo quarto como se fosse dele. — Te peguei no flagra? Alguma coisa te deixou... nervosa?
— Sai daqui. — Minha voz saiu gelada, mas calma. Quase como um sussurro de faca.
Ele sorriu. Deu mais um passo. Passou o dedo na escrivaninha. Olhou minhas roupas espalhadas. Cheirou o ar.
— Tá diferente aqui. — Ele aproximou. — Você está diferente.
— Eu disse... sai daqui.
Ele chegou tão perto que senti o cheiro nojento de uísque velho e desespero. Passou a mão pelo meu cabelo, como se fosse um gesto afetuoso. Meu corpo inteiro gritou de nojo.
— Onde você dormiu na noite que não voltou para casa, hein? — Ele rosnou, baixo. — Foi no parque? Ou com o outro? Hein?
Segurei o pulso dele, afastei com força.
— Não encosta em mim.
Ele riu. Um riso quebrado, doente, cheio de fissura.
— Você se acha tão intocável... — Ele inclinou a cabeça. — Mas eu já te toquei, sabia? Mesmo que só aqui. — Apontou pra cabeça dele, batendo o dedo. — Você já é minha.
Minha respiração acelerou. Meu estômago revirava.
— O que você quer? — cuspi, o ódio afundando nos meus ossos.
Ele aproximou ainda mais, a boca quase encostando no meu ouvido.
— Eu quero ouvir você gritar. Não agora... não aqui. Mas em breve.
Dei um passo pra trás, bati na parede. Ele me encurralou. O rosto dele deformado num sorriso sádico.
— Eu sinto o cheiro dele em você... — Rafael murmurava, os lábios quase roçando meu ouvido. — Você acha que ele vai te salvar? Ele vai morrer antes.
E então… um estalo. A porta abriu com violência. Um estrondo.
— O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI? — a voz rasgou o ar.
Heitor.
Os olhos dele, vermelhos, dilatados. O corpo todo tenso como se fosse explodir. Rafael virou devagar, ainda com aquele sorriso nojento.
— Heitor… — Rafael abriu os braços. — Calma, primo. Eu só estava fazendo uma visitinha de boa noite...
— DE BOA NOITE? — Heitor avançou, empurrando Rafael com tanta força que ele bateu na parede. — VOCÊ ACHA QUE EU SOU IDIOTA? QUE EU NÃO OUVI?
Rafael riu, limpou o canto da boca onde bateu.
— Você tá irritado, primo… Tá com ciúmes?
— EU VOU TE MATAR! — Heitor gritou, socando o peito de Rafael, que caiu de joelhos.
Eu fiquei paralisada. O quarto parecia girar. O ar sumiu.
Rafael ergueu o rosto, o sangue escorrendo do lábio partido. Ele ainda riu, cuspindo no chão.
— Olha só... o marido apaixonado acordou. Agora quer bancar o cavaleiro? Depois de tanto tempo me usando como cão de guarda, agora quer me expulsar?
Heitor puxou Rafael pelo colarinho.
— EU TE COLOQUEI AQUI PRA VIGIAR, NÃO PRA TOCAR NA MINHA MULHER!
— Mulher? — Rafael gargalhou, cuspindo mais sangue. — Aquela ali? — Ele me apontou com o dedo tremendo. — Ela não é mais tua, Heitor! Ela já foi, tá ouvindo? Tá suja! Ela já gemeu pra outro homem, e você sabe disso!
O som daquela frase me atravessou como uma lâmina.
Heitor empurrou Rafael no chão, montou em cima dele e começou a socar. Um, dois, três, quatro... o som dos ossos quebrando. O quarto inteiro reverberava cada impacto.
— VOCÊ VAI APRENDER A RESPEITAR! — Heitor rugia, os punhos cobertos de sangue.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”