POV Isadora Ferraz
Eu não dormi. Passei a noite inteira sentada na poltrona, encarando a janela. O celular piscava com as mensagens de Dante. “Chega. Me encontra. Eu espero.”
Mas eu não fui. Não consegui. O estômago virava só de lembrar o que vi no quarto. O cheiro, o toque, o veneno em cada centímetro dessa casa. Quando o relógio marcou 6h, ouvi barulhos vindos da cozinha. Me levantei devagar, com o corpo pesado como um corpo afundado no mar.
Desci.
Célia estava à mesa, impecável, mexendo o café como se fosse a maestrina de um coral de tragédias. Heitor lia o jornal, os olhos vermelhos. Elena mexia no celular, as pernas balançando como se fosse uma adolescente mimada.
E então… eu ouvi. Uma risada. Baixa. Macabra. Familiar. Rafael. O corpo inteiro travou. Um arrepio subiu pela minha espinha, gelado como gelo seco na garganta. Célia levantou o rosto e abriu um sorriso. Um sorriso tão falso que poderia matar qualquer flor só de olhar.
— Querida… olha quem voltou pra casa.
Rafael apareceu no arco da cozinha, com uma xícara na mão. Usava uma camiseta branca justa demais, mostrando cada músculo como se fosse um troféu. O olhar? Cheio de escuridão.
— Bom dia, Isadora — disse, como se fosse só mais uma terça-feira. — Dormiu bem?
Eu quis vomitar. Quis correr. Mas fiquei.
— O que ele está fazendo aqui? — minha voz saiu baixa, mas afiada.
Célia se levantou, alisou o vestido.
— Eu decidi que Rafael vai voltar a ficar conosco. Ele é da família, afinal. Precisamos dar apoio, principalmente depois do... surto emocional que ele teve.
Eu ri. Um riso curto, amargo.
— Surto? Ele invadiu meu quarto. Cheirou minhas roupas. Ele é um doente!
— E você? — Rafael rebateu, inclinando a cabeça como um animal curioso. — Você é o quê, Isa? Uma santa? Uma esposa perfeita? Uma mulher fiel?
Ele deu um passo à frente. O ar inteiro da cozinha pareceu sugar todo o oxigênio.
— Chega — Heitor rosnou, largando o jornal com força na mesa. — Não vamos começar.
Célia ergueu uma mão. O silêncio caiu.
— Isadora, você vai se comportar — disse, num tom doce que cortava mais que faca. — Rafael vai ficar. E você vai sorrir. E vai fingir. Porque se não fizer… eu garanto que não vai sobrar nada para você fora daqui.
Eu encarei cada um deles. Um por um. Rafael, com aquele sorriso nojento. Heitor, quebrado, mas ainda me culpando. Elena, fingindo neutralidade, mas saboreando cada segundo. E Célia, o diabo em pele de matriarca.
Engoli em seco.
— Vocês não têm ideia do que acabaram de fazer.
O sorriso de Célia aumentou.
— Acredito que sim, querida. E agora… sente-se. Tome seu café.
Eu me sentei. As mãos tremiam ao segurar a xícara. O café parecia veneno descendo pela garganta. E naquele instante, enquanto Rafael puxava a cadeira ao meu lado, tão perto que eu podia sentir o cheiro dele, eu soube. A guerra tinha acabado de mudar de fase.
***
Eu tremi. O corpo inteiro tremia. Segurei o pulso dele, afundei os dedos ali como se pudesse me ancorar.
— Eu… eu não posso. — A voz saiu como um sussurro rasgado. — Se eu falar, eles…
Ele arregalou os olhos. O maxilar se contraiu.
— Eles quem? — O tom mudou. Virou trovão. Virou tempestade. — Quem, Isadora?!
Minhas lágrimas começaram a cair sem permissão. Eu balançava a cabeça. O peito subindo e descendo como se eu fosse explodir. Ele me puxou para mais perto, o rosto a centímetros do meu.
— Você acha que eu vou te julgar? Você acha que eu vou fugir? Eu entrei nessa guerra quando te puxei para mim naquele parque. Eu já estou dentro. — A voz dele quebrou. — Mas eu preciso que você confie em mim.
A respiração dele batia na minha boca. Eu queria falar. Deus, como eu queria. Mas o medo era um monstro com garras no meu pescoço. Eu baixei os olhos. Um soluço rasgou minha garganta. Ele encostou a testa na minha.
— Me fala. — Ele murmurou de novo, quase chorando. — Por favor.
Eu fechei os olhos. Respirei fundo. Mas as palavras não saíram.
— Eu… eu juro… eu tento… — sussurrei, a voz tremida, afogada.
Ele me soltou devagar, como se estivesse largando um vidro precioso prestes a despencar.
— Tá. — Ele disse, recuando um passo. — Eu vou esperar. Mas saiba… cada segundo de silêncio teu é mais uma arma na mão deles.
O silêncio entre nós virou uma ferida aberta. Ele me olhou uma última vez. Virou. E saiu. A porta se fechou. E eu caí de joelhos. Porque o que me matava não era o silêncio. Era o fato de eu não saber se ainda conseguiria quebrá-lo.

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