POV Isadora Ferraz
Eu estava tentando retomar o fôlego, organizando os papéis na mesa, quando ouvi a campainha da recepção. Um bip curto, irritante. Mariana, a estagiária, bateu na porta, enfiou a cabeça, nervosa.
— Isa… tem uma visita… — A voz dela vacilou. — O senhor Heitor Montenegro.
Meu sangue gelou. O ar ficou pesado, como se alguém tivesse derramado chumbo no meu peito.
— Deixa entrar — falei, forçando um tom neutro. Mas por dentro? Eu já estava segurando a espada invisível.
A porta se abriu. Ele entrou. Heitor. De terno impecável, perfume caro, sorriso cínico no rosto. O olhar? Um abismo.
— Boa tarde, esposa — disse, fechando a porta atrás dele, como quem fecha uma armadilha. — Que surpresa me receber aqui... tão elegante.
— O que você quer? — Perguntei, sem levantar da cadeira. Segurei a caneta como se fosse um punhal.
Ele caminhou devagar pela sala, olhando os livros, as pastas, as fotos. Cada passo era um aviso mudo. Cada segundo, uma ameaça.
— Só vim ver como anda a minha mulher… no ambiente de trabalho. — Ele se aproximou da minha mesa, apoiou as mãos, inclinando-se. — Bonito lugar. Bem… intimista.
Eu respirei fundo. Por um segundo, pensei em gritar. Pensar em Dante me deu força.
— Você está invadindo meu espaço.
— Espaço? — Ele riu baixo, aproximando o rosto do meu. — Não existe “teu espaço”, Isa. Você esqueceu? Até seu ar é emprestado.
A raiva subiu pela minha espinha. Eu me levantei. Nossas respirações se misturaram. Odiava sentir o cheiro dele tão perto.
— Você devia cuidar da sua amante grávida, não vir aqui me controlar.
Os olhos dele brilharam. A mandíbula trincou. Ele deu um passo pra frente, e eu recuei.
— Não me provoca, Isadora. Eu ainda sou teu marido. E você ainda carrega meu sobrenome. — A voz dele era um veneno escorrendo, macio, gelado.
Nesse momento, a porta do estúdio de leitura abriu. Dante. O rosto dele era pura tensão. O maxilar duro, os olhos de fogo.
— Tudo bem aqui? — perguntou, a voz baixa, mas carregada de pólvora.
Heitor virou devagar, com um sorriso que parecia cuspido do inferno.
— Ah, o editor. Que conveniente. — Ele deu uma risada curta. — Você acha mesmo que pode protegê-la? Que isso aqui é um romance barato de banca?
Dante deu um passo pra frente. Eu vi os punhos dele fecharem. Eu tremia, mas não recuei.
— Não é da sua conta — disse Dante, cada palavra uma lâmina.
Heitor se virou para mim de novo. Aproximou-se tanto que eu quase senti os dentes dele na minha pele.
— Lembre-se do que eu te falei ontem à noite no jardim — sussurrou. — Eu posso ser teu fim… ou tua salvação.
Eu queria empurrá-lo. Socá-lo. Mas eu congelei. Dante avançou, segurou o braço de Heitor com força. O olhar deles se cruzou como dois trovões no meio da noite.
— Sai da sala dela. Agora. — Dante rosnou.
Heitor olhou para a mão de Dante no seu braço, depois para mim. Riu.
— Que romântico. O protetor. — Ele se afastou com um puxão brusco, arrumou o paletó. — Não esqueça, Isa… tudo que você ama pode virar cinza num estalar de dedos.
Saiu batendo a porta. O silêncio caiu. Eu tremia. Dante ainda estava parado no meio da sala, a respiração pesada. Os olhos em mim. Eu desabei na cadeira. Passei as mãos no rosto. Ele veio até mim, ajoelhou, segurou minhas mãos.
— Ele te machucou? — perguntou, a voz rasgando.
Eu balancei a cabeça. Mas as lágrimas caíam. Ele me puxou pra perto. Encostou a testa na minha.
— Um dia… eu ainda vou arrancar cada dente desse desgraçado. Um por um. — A voz dele era grave, cheia de dor. E promessa.
Eu segurei o rosto dele com as duas mãos. Encostei nossos lábios, só por um segundo.
— Obrigada por estar aqui.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”