POV Isadora Ferraz
Fiquei ali, parada, sentindo a raiva de Heitor ainda vibrar nas paredes. Elena me olhava como se eu fosse um espelho quebrado. Ela apertou a barriga, respirou fundo, os olhos vermelhos.
— Por que você não vai embora? — a voz dela saiu num sussurro afiado. — Por que você não foge dessa casa?
Eu encarei.
— Porque eu não sou mais aquela mulher que se esconde. — Minha voz saiu baixa, mas firme. — Eu não fujo mais.
Elena avançou um passo.
— FUJA! — ela gritou. — Você não entende?! Ele vai te destruir! Vai me destruir! Vai destruir essa criança!
Ela tremia inteira. As lágrimas escorriam pelo rosto.
— Você podia ter saído da minha vida! — ela cuspiu. — Mas não, você fica aqui, se fazendo de mártir! Você quer ser santa, né? Quer ser a sofredora, a heroína...
Eu tentei falar, mas ela avançou de novo.
— VOCÊ NÃO É HEROÍNA PORRA NENHUMA! — E então, sem aviso, o tapa veio. Seco.
A mão dela estalou no meu rosto. A pele ardeu, mas eu não fechei os olhos. Ela ofegava. O rosto contorcido de ódio, medo, dor. Eu não me mexi. Não toquei na bochecha. Só encarei.
— Acabou? — perguntei, a voz baixa como um trovão antes da tempestade.
Elena ficou imóvel. As mãos tremiam.
— Você... — ela sussurrou, a voz falhando. — Você é a causa de tudo. Se você fosse embora, nada disso estaria acontecendo!
— Eu não sou o veneno — falei, sem piscar. — Eu sou o antídoto que vocês não conseguem engolir.
Ela soltou um soluço. Os joelhos quase cederam. Eu dei um passo pra frente.
— Você quer me culpar porque é mais fácil do que encarar que você também se vendeu. Que você também escolheu essa dor.
Elena balançou a cabeça, as lágrimas caindo sem controle.
— Saia... — ela chorou, a voz sumindo. — Saia da minha frente...
Ela tropeçou pra trás, segurando a barriga, e saiu correndo do quarto, batendo a porta. Fiquei sozinha. O gosto de sangue e adrenalina na boca. E ali, no silêncio pesado, eu entendi. Ela me odeia porque me reconhece. E eu... eu já não a odiava. Eu só estava pronta pra lutar.
Fechei a porta com um estrondo seco que ecoou na minha espinha. O quarto parecia menor, o ar mais pesado, como se cada parede tivesse ouvido tudo. Caminhei até a escrivaninha. O coração batia tão alto que eu quase não ouvia meus próprios passos. Abri a gaveta. As gravações. Cada pendrive, cada microcartão. Tudo o que eu precisava para acender a fogueira. Peguei também as gravações do que acabou de acontecer nesse quarto.
Me ajoelhei, puxei uma mochila velha. Fui colocando tudo ali, um por um, como se guardasse armas sagradas. Coloquei umas roupas, coisas essenciais e para conseguir me virar por um dia. Parei. Respirei fundo. O rosto ainda queimava do tapa de Elena. Mas não doía. Porque, ali, eu já não era mais refém.
Levantei. Passei o zíper com força. Vesti um casaco, enfiei o capuz. Saí do quarto em silêncio. O corredor parecia um cemitério de fantasmas: cada porta fechada, cada luz apagada, cada lembrança morta. Desci as escadas devagar, sentindo a madeira ranger como se protestasse. Na sala, só os funcionários, assustados, fingindo não ver. Passei pela porta da frente. Não olhei pra trás.

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