POV Isadora Ferraz
O cheiro de café fresco enchia a cozinha. A luz da manhã entrava suave pelas janelas, iluminando o caos gentil da mesa: xícaras espalhadas, farelos de pão, risadas leves. Olívia mexia a colher na caneca, rindo de alguma piada idiota do Caio. Dante estava encostado na bancada, de camiseta preta e cabelo bagunçado, me olhando como se eu fosse a última cena bonita num filme triste.
— Tá todo mundo com ressaca infernal? — Caio resmungou, pegando mais pão. — Mas eu tô vivo. Isso que importa.
— Vive falando merda — Olívia rebateu, jogando um guardanapo nele.
Eu sorri, ainda com a cabeça meio flutuando da noite anterior. A mão de Dante roçou na minha, por baixo da mesa. Um toque rápido, mas cheio de significado. Peguei uma fatia de pão e passei manteiga. Mas, no instante em que senti o cheiro, o estômago virou. Um enjoo brutal, quente, subindo pela garganta.
— Isa? — Olívia arqueou a sobrancelha, percebendo meu rosto empalidecer.
Eu empurrei o prato.
— Eu... preciso ir ao banheiro.
Levantei correndo. Entrei no banheiro e quase caí de joelhos. A náusea explodiu. Segurei a pia com força, ofegando, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Atrás de mim, ouvi passos leves. Olívia. Ela parou na porta, me observando em silêncio.
— Isso já aconteceu antes? — a voz dela veio baixa, cheia de cuidado, mas afiada como uma lâmina.
Respirei fundo.
— Ontem de manhã... também. Mas eu achei que fosse nervoso, sei lá.
Olívia cruzou os braços. O olhar dela era uma tempestade prestes a cair.
— Isa... — ela começou, devagar. — Quando foi a última vez que você... — Ela gesticulou com a mão, tentando ser delicada. — Quando foi a última vez que você se protegeu?
O chão parecia girar.
— Eu... — Minha voz falhou. — Eu não sei. Eu não pensei.
Ela fechou os olhos, respirou fundo.
— E você está tomando algum método? — insistiu.
Neguei, devagar. Olívia passou a mão no rosto, exasperada.
— Isa, pelo amor de Deus...
O silêncio ficou pesado, denso, quase sufocante.
— Eu não posso... eu não posso estar... — sussurrei, segurando a beirada da pia como se fosse me afogar.
Olívia se aproximou, me abraçou por trás.
— Vamos resolver isso juntas. — Ela murmurou, firme. — Mas primeiro... respira.
Me vi no espelho. O cabelo bagunçado, o rosto pálido, os olhos assustados. Uma mulher que achava que já tinha vivido todos os furacões e agora... Mais um.
Olívia me abraçou por trás, os braços dela apertando minha cintura com uma força que eu não sabia que precisava.
— Ei… calma. — A voz dela parecia uma canção triste, suave e firme ao mesmo tempo. — A gente vai fazer um teste. Hoje mesmo.
Eu tentei falar, mas o choro veio primeiro. Um soluço preso há dias, semanas, talvez anos.
— Eu não posso, Olívia… eu não posso… — Eu repetia, a voz falhando. — Não agora... Não com toda essa guerra acontecendo...
Ela virou meu rosto pra ela. Segurou com as duas mãos, firme.
— Você não está sozinha. Eu tô aqui. O Caio está aqui. Até o Dante… — Ela suspirou, desviando o olhar. — Mas isso é entre você e você agora.
Eu respirei fundo, sentindo o peito arder.


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